domingo, 15 de fevereiro de 2026

A Final que Abalou a Dança no Gelo: Técnica, Política e a Polémica Olímpica de 2026

 A dança no gelo sempre viveu num território delicado, onde a precisão técnica se entrelaça com a subjetividade artística. Mas nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2026, esse equilíbrio frágil desmoronou diante de milhões de espectadores. O que poderia ter sido o ponto alto da disciplina transformou‑se numa das polémicas mais intensas dos últimos anos. É uma discussão que ultrapassa o pódio e expõe falhas profundas no sistema de julgamento.




O resultado que incendiou o debate

A vitória da dupla francesa Laurence Fournier Beaudry & Guillaume Cizeron sobre os americanos Madison Chock & Evan Bates por apenas 1.43 pontos parecia, à superfície, apenas uma disputa renhida. Mas bastou olhar para as folhas de pontuação para perceber que algo não batia certo.

A juíza francesa atribuiu aos seus compatriotas quase oito pontos a mais do que aos americanos na dança livre. Uma discrepância muito acima da tendência do painel. Cinco dos nove juízes colocaram Chock & Bates à frente. Mesmo assim, o ouro foi para França.

E depois começou a tempestade.


Source: L'Équipe


Para compreender a polémica, é preciso olhar para os elementos técnicos — aqueles que, em teoria, deveriam ser os mais objetivos.

1. Twizzles: o erro que não foi refletido na pontuação

Os franceses cometeram um erro visível nos twizzles, um dos elementos mais penalizadores da dança no gelo. Normalmente, isto resultaria em GOE negativo e, em alguns casos, até redução de nível. Mas a penalização foi mínima. Chock & Bates, por outro lado, executaram twizzles limpos, estáveis e sincronizados e não receberam a vantagem esperada.

2. Sequências de passos: níveis máximos questionáveis

Vários especialistas notaram que os franceses receberam níveis máximos em sequências onde a precisão das voltas e precisão das lâminas parecia insuficiente. Chock & Bates não viram essa superioridade refletida no GOE.

3. PCS: subjetivo, sim — mas não arbitrário

A juíza francesa atribuiu aos franceses valores de Performance e Interpretação muito acima da média do painel. Foi aqui que a diferença se tornou decisiva. A matemática não falhou. Mas a coerência técnica, sim.

A reação de Chock & Bates: frustração técnica, não emocional

Após a prova, a dupla americana mostrou‑se visivelmente abalada. Evan Bates afirmou que tinham apresentado o seu “gold medal performance”. Madison Chock foi mais direta, defendendo que certos juízes deveriam ser “revistos e vetados” após discrepâncias tão óbvias. A crítica deles não foi patriótica mas sim foi técnica. Eles sabiam exatamente onde a avaliação não tinha sido consistente.

A onda de apoio internacional

A polémica não ficou nos Estados Unidos. Patinadores e treinadores de vários países recorreram às redes sociais para: elogiar a performance de Chock & Bates, questionar a coerência do painel e pedir maior transparência no julgamento.

Este apoio não foi emocional. Foi fundamentado em análises técnicas e comparações diretas.

Mas a verdade é mais complexa: Chock & Bates também já foram beneficiados

Para que o artigo seja honesto, é importante reconhecer um ponto que muitos fãs experientes levantaram: Chock & Bates também já foram favorecidos por juízes em Campeonatos do Mundo. Ao longo dos últimos anos: receberam PCS muito elevados mesmo com erros, foram colocados acima de pares tecnicamente mais limpos e beneficiaram do prestígio da sua escola, a IAM. Ou seja: o problema não é “França vs. EUA”. É um sistema que, ciclicamente, favorece quem está no centro do poder.


A influência da IAM: a escola que molda (e domina) a dança no gelo moderna

A Ice Academy of Montreal (IAM) é, hoje, o epicentro da dança no gelo mundial.

Eles treinam campeões olímpicos, campeões mundiais, medalhistas de Grand Prix e praticamente metade do top 10 mundial.

Quando uma única escola concentra: os coreógrafos da moda, os treinadores mais influentes, e relações próximas com várias federações… Cria‑se um ecossistema onde certos estilos, narrativas e estéticas são automaticamente valorizados.

A escola IAM é criticada devido à estética dominante que é seguida pelos juízes de olhos fechados, PCS elevados com "piso mínimo", influência política significativa e vantagem estrutural para pares IAM em provas internacionais.

Chock & Bates beneficiaram deste sistema durante anos. Agora, em 2026, foram vítimas da teia da sua própria escola. A ironia não passou despercebida à comunidade da patinagem online.

Uma final que expôs um problema maior do que uma medalha

A dança no gelo é uma disciplina onde a subjetividade é inevitável devido à parte artística. Mas a final olímpica de 2026 relembrou que a técnica pode ser interpretada de forma desigual, um único juiz pode alterar o destino de uma medalha, a influência da grande escola atual é desproporcional e a confiança no sistema está mais frágil do que nunca nesta disciplina.

Chock & Bates saíram com prata mas também com o reconhecimento de grande parte da comunidade técnica. Os franceses saíram com ouro mas envoltos numa polémica que não criaram, mas da qual beneficiaram.

E a dança no gelo saiu com uma pergunta urgente: como reconstruir a credibilidade de um desporto onde a arte e a técnica coexistem, mas nem sempre se equilibram?


Momentos de Petr Gumennik


 Petr Gumennik