domingo, 8 de fevereiro de 2026

Quando a Música se Torna um Inimigo: As Polémicas de Copyright que estão a abalar a Patinagem nos Jogos Olímpicos de 2026

 A patinagem artística vive da música.

Ela dá ritmo, emoção, identidade. É o fio invisível que liga cada salto, cada passo, cada gesto.

Mas nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2026, em Milão‑Cortina, a música deixou de ser apenas o pano de fundo da magia no gelo e tornou‑se o centro de uma polémica inesperada. Problemas de copyright, licenças atrasadas e autorizações negadas colocaram vários patinadores numa corrida contra o tempo para salvar programas que treinaram durante meses.

O resultado foi uma tempestade silenciosa que expôs fragilidades profundas no sistema de licenciamento musical do desporto.


A poucos dias do início das competições, começaram a surgir relatos de que várias músicas não tinham sido aprovadas para uso olímpico. Sem autorização formal, os atletas simplesmente não podiam usar as bandas sonoras que tinham preparado durante toda a temporada.

O que normalmente é um processo administrativo discreto transformou‑se numa corrida contra o relógio e numa fonte de ansiedade para atletas e equipas técnicas.

O caso Guarino Sabaté: o programa dos “Minions” quase fica de fora

O espanhol Tomàs‑Llorenç Guarino Sabaté tornou‑se o rosto mais visível da polémica. O seu programa curto inspirado nos "Minions" tinha conquistado o público ao longo da temporada, mas, já em Milão, foi informado de que não tinha autorização para usar a banda sonora.

Durante dias, a incerteza pairou. A música era essencial para o tom humorístico e energético do programa e substituí‑la significaria reestruturar toda a coreografia.

Só mesmo em cima da hora é que a licença foi finalmente aprovada, permitindo que Guarino Sabaté competisse com o programa original. Mas o episódio deixou claro o quão frágil é a dependência da música licenciada.

A canadiana Madeline Schizas enfrentou um problema semelhante. O seu programa curto baseado em "O rei Leão" teve de ser alterado porque uma das faixas não recebeu autorização para uso nos Jogos.

A atleta acabou por competir com uma versão modificada da banda sonora. Essa mudança que afeta: o ritmo dos elementos, a sincronização coreográfica, a interpretação artística e a confiança em competição.

Num desporto onde cada segundo é coreografado ao milímetro, estas alterações podem ser decisivas.

O russo Petr Gumennik também foi apanhado na teia burocrática. O seu programa curto, construído sobre a banda sonora do filme Perfume: The Story of a Murderer, teve de ser abandonado porque não teve autorização. A música sombria, dramática, profundamente teatral era o coração do programa. Sem ela, Gumennik será obrigado a competir com uma alternativa aprovada, alterando: o tom emocional, a narrativa coreográfica, o timing dos elementos e a ligação artística ao programa.



Foi um golpe duro para um atleta conhecido pela expressividade e pela construção narrativa dos seus programas.



A verdade é que a questão dos direitos musicais sempre existiu, mas raramente se tornou tão visível. Limpar direitos de autor é um processo complexo, especialmente quando envolve: grandes estúdios de cinema, editoras internacionais, múltiplos detentores de direitos e versões específicas de músicas.

Nos Jogos Olímpicos, onde tudo é amplificado, a burocracia tornou‑se impossível de ignorar.

Curiosamente, esta crise abriu espaço para inovação. Investigadores europeus apresentaram sistemas de música gerada por IA, totalmente livres de direitos de autor e capazes de se adaptar ao ritmo e estilo de cada atleta.

Ainda é cedo para saber se esta solução será adotada em larga escala, mas a ideia de programas personalizados e sem riscos legais está a ganhar tração.

Para quem não está dentro da modalidade, pode parecer um detalhe. Mas para os patinadores, a música é o esqueleto do programa.

Alterá‑la significa reaprender tempos, ajustar entradas e saídas de elementos, recalibrar respiração e ritmo e reconstruir a interpretação artística

É como pedir a um bailarino para estrear uma coreografia nova na véspera de uma apresentação mundial.

Uma polémica que expôs uma falha estrutural

Os Jogos Olímpicos de 2026 mostraram que a patinagem artística depende profundamente da música mas o sistema de licenciamento não acompanha a realidade do desporto moderno.

Entre burocracia, direitos fragmentados e decisões de última hora, os atletas ficam vulneráveis, mesmo quando fizeram tudo certo.

Talvez esta crise seja o ponto de viragem necessário para repensar como a música é tratada no contexto competitivo. Até lá, os patinadores continuam a dançar mesmo quando a música insiste em falhar.



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