Ultimamente não têm faltado notícias sobre a patinagem artística no gelo. As últimas semanas têm trazido uma montanha russa de revelações, algumas delas muito graves. A terra do Tio Sam não ficou imune há avalanche de notícias.
Maia e Alexi Shibutani ficaram com a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de 2018 e, na sua carreira até ao momento, venceram duas medalhas de prata nos mundiais e outra de bronze. Os irmãos Shibutani decidiram fazer uma pausa na carreira competitiva após a temporada 2017/2018 mas continuam a ser dos patinadores mais populares e facilmente reconhecidos na selecção dos Estados Unidos. Eles mantêm-se bastante activos e têm aproveitado as oportunidades que lhe têm sido dadas, nomeadamente no mundo da moda.
Infelizmente Maia sofreu um grande susto e teve de ser operada. A patinadora de 25 anos sentiu-se mal em Outubro e foi ao hospital. Depois foi submetida a exames e os médicos descobriram que ela tinha uma massa cancerígena num rim. Maia foi operada com sucesso este mês e essa massa foi removida. A patinadora encontra-se agora a recuperar. Se quiserem enviar um comentário ou uma mensagem de apoio a Maia podem fazê-lo na conta oficial dela no Instagram. Força Maia.
Maia Shibutani
Gracie Gold conseguiu hà pouco tempo a qualificação para os campeonatos nacionais dos Estados Unidos da temporada corrente. No entanto há uma notícia importante sobre ela que acabou por passar um pouco despercebida. A patinadora estava a trabalhar sob a orientação do treinador francês Vincent Restencourt mas essa parceria cessou. Vincent Restencourt foi demitido do rinque onde estava sediado e Gracie já não trabalha com ele. Até agora não consegui encontrar informação credível sobre a possibilidade de Gracie estar activamente a procurar um novo treinador. Só se sabe que ela continua a trabalhar.
O nome de Vincent Restencourt tem sido citado em vários rumores que dizem que ele já teve problemas com a justiça em França devido a comportamentos impróprios com menores… Ainda não se sabe o motivo pelo qual Vincent foi afastado do rinque.
Gracie Gold
Recentemente foi divulgada uma notícia muito perturbadora sobre Richard Callaghan. Este treinador foi durante muitos anos uma figura proeminente nos Estados Unidos. Callaghan treinou Todd Eldridge (campeão mundial em 1996) e Tara Lipinski (campeã olímpica em 1998). Os rumores sobre a sua má conduta foram persistentes mas a federação dos Estados Unidos foi encobrindo a situação porque Callaghan era alguém que lhes trazia bons resultados na patinagem de competição. As suspeitas sobre Callaghan adensaram-se até que finalmente ele foi investigado pela SafeSport. Ele foi considerado culpado nesse processo e, em consequência, foi punido com a proibição vitalícia de treinar qualquer atleta. Callaghan terá molestado vários atletas menores mas foi condenado devido a um único caso. Sucede que Richard Callaghan recorreu da decisão proferida pela SafeSport. Este recurso foi-lhe favorável graças a arbitragem e exclusivamente devido a formalidades quanto à aplicação da lei no tempo (ou seja, devido a especificidades jurídicas). O conteúdo do processo mantem-se como provado mas as consequências para Callaghan foram atenuadas. A decisão que proibia Callaghan de treinar fosse quem fosse até ao fim da vida foi alterada para uma suspensão por três anos.
Estou chocada com este desenvolvimento pois as vítimas conhecidas destes treinador tinham apenas 13 anos quando os abusos começaram.
O facto de ter sido tomada uma decisão destas deve preocupar-nos a todos não só pela justiça devida às suas vítimas mas também pelo precedente que pode causar noutros casos cujas investigações se encontram pendentes.
Richard Callaghan com Tara Lipinski
Fonte: Houston Chronicle
Amber Glenn deu um passo na ajuda na luta contra o preconceito ao falar abertamente sobre a sua orientação sexual. Numa entrevista ao jornal Dallas Voice a patinadora revelou que é bissexual/pansexual. Amber afirmou que não quer impor a sua sexualidade perante ninguém mas também não quer andar escondida.
Estes pequenos passos são importantes na luta contra a homofobia.
Amber Glenn
Para finalizar numa nota bem mais positiva, esta semana ficámos a saber que Evan Lysacek (campeão olímpico em 2010) casou-se com a sua namorada de longa data. Algumas fotografias do enlace foram publicadas na revista People. As belíssimas fotos podem ser vistas neste link: https://people.com/sports/evan-lysacek-marries-girlfriend-dang-bodiratnangkura-in-thailand/
Desde que conquistou a medalha de prata
nos mundiais júniores de 2012 que Gracie Gold foi apontada como a grande
esperança para a patinagem feminina dos Estados Unidos. Desde então, Gracie
ficou em quarto lugar nos Jogos Olímpicos de Sochi em 2014 e nos mundiais de
2015 e 2016. No entanto, a temporada 2016/2017 foi para esquecer pois Gracie
teve a pior prestação da carreira no circuito do grande prémio e apenas foi
sexta classificada nos nacionais, circunstância que a impossibilitou de ser seleccionável
para os mundiais 2017.
Gracie Gold a executar um peão layback
Entretanto, Gracie passou por algumas
mudanças como ter deixado o consagrado Frank Carroll para se mudar para o grupo
de Marina Zoueva. Nem mesmo essa grande alteração serviu para calar a
especulação em torno de Gracie. O que se passa com Gracie? Essa era a pergunta
que todos queriam ver respondida.
Gracie Gold
A expectativa para a temporada 2017/2018
manteve-se elevada e muita gente pensou que as coisas já estavam a correr
melhor devido ao facto da patinadora ter anunciado novos programas. Gracie
indicou a música "People" de Barbra Streisand para o programa curto e
"La Bayadére" de Ludwig Minkus para o programa livre. A coreografia
de ambos os programas ficou a cargo de Marina Zoueva.
Gracie deveria ter apresentado o seu novo
programa curto no Champs Camp nos Estados Unidos mas acabou por não o fazer.
Na semana passada surgiu um artigo no USA
Today que veio dizer que Gracie decidiu interromper a sua preparação durante um
período de tempo para procurar ajuda profissional para resolver os seus
problemas. Não se sabe é qual é o tipo de ajuda profissional a que o artigo se
refere. Será de um médico? Será de um psicólogo? Consta que Gracie tem tido
problemas no gelo mas também na sua vida pessoal. Ela não entrou em detalhes
mas num artigo na publicação "Kansas City Star", Gracie disse
"Eu nunca me senti tão desapontada comigo própria".
Apesar de anunciar uma pequena paragem, é
suposto que Gracie se apresente no circuito do grande prémio 2017/2018, onde
deverá competir na Taça da China e no Troféu Internationaux de France. O que
parece claro é que não veremos esta patinadora no Open do Japão deste ano e é
bem provável que ela não compareça no Troféu Ondrej Nepela.
Resta-nos desejar boa sorte a Gracie Gold
para que ela consiga ultrapassar os problemas que a estão a afectar.
A competição de senhoras no grande
prémio Troféu de França 2016 foi algo atribulada. No programa curto houve
várias prestações bastante boas. No programa livre quase todas as patinadoras
cometeram erros e a impressão geral não foi nada boa. No entanto, verdade seja
dita, que a qualidade do gelo durante o programa livre estava longe de ser a
ideal e muitas patinadoras devem ter sido prejudicadas por causa disso. Havia
uma parte do rinque em que a superfície do gelo não parecia suficientemente
sólida. Estava calor a mais junto da pista e isso acabou por ser comentado por
várias pessoas.
Destaque também para a situação de
Mao Asada. Tudo aponta para que ela esteja a padecer de uma lesão num joelho
mas que a sua equipa decidiu que ela não devia desistir para que isso não fosse
encarado como uma desculpa devido a um resultado modesto no programa curto.
Evgenia Medvedeva venceu a medalha de
ouro de forma destacada confirmando todo o seu favoritismo. A jovem russa fez
um programa curto impecável que conseguiu uma excelente nota de 78.52pts.
Tecnicamente ela esteve muito bem e realizou uma combinação de triplo
flip-triplo toe loop (12.16pts), um triplo loop (7.21pts) e um duplo axel
(4.63pts). Todos os saltos foram efectuados na segunda metade do esquema o que
permitiu amealhar pontuação bónus no valor base de cada um deles. Os peões
foram todos classificados com o nível 4 e totalizaram 12.76pts. A sequência de
passos foi o segmento elemento do programa e recebeu 5.40pts para além de
também ter sido classificada com o nível 4. Nos segmentos dos componentes que
fazem parte da nota de apresentação, as médias obtidas por Evgenia foram de 8.93
na perícia, 8.89 nas transições, 9.18 na performance, 9.21 na composição e 9.25
na interpretação da música.
No programa livre, Evgenia cometeu um
erro num elemento de salto e teve de lutar por vários outros elementos. Não foi
uma prestação tão fluída como em outras ocasiões. Ela, tal como várias outras
atletas nesta fase da competição, foi prejudicada pela má qualidade do gelo. O
erro ocorreu no triplo lutz, sendo que ela caíu na recepção do salto e não
definiu claramente a entrada. Eu fiquei com a sensação que ela quis “fugir” a
uma parte do gelo que não estava em boas condições e arrastou a definição de
entrada a um ponto que não lhe permitiu realizar o salto com sucesso. Evgenia
ficou com 3.90pts no triplo lutz graças ao facto de ter completado as rotações
todas mas o elemento foi punido com grau de execução negativo. A queda foi
ainda penalizada com uma dedução automática de um ponto. Em termos de saltos,
Evgenia também nos apresentou uma combinação de triplo flip-triplo toe loop
(11.40pts), triplo loop (6.81pts), triplo flip (7.23pts), combinação de duplo
axel-duplo toe loop-duplo toe loop (6.70pts), combinação de triplo salchow-triplo
toe loop (10.87pts) e duplo axel (4.06pts). Nos peões ela conseguiu amealhar 12.49pts,
sendo que todos atingiram o nível 4. Na sequência coreográfica a nota obtida
foi de 3.30pts e a sequência de passos de nível 4 recebeu 5.30pts. As médias
fixadas nos segmentos dos componentes foram as seguintes: 8.86 na perícia, 8.86
nas transições, 9.00 na performance, 9.11 na composição e 9.14 na interpretação
da música. Apesar do erro no lutz, Evgenia foi sem dúvida merecedora da medalha
de ouro nesta competição.
Maria Sotskova teve uma excelente
estreia no circuito sénior do grande prémio ao vencer a medalha de prata no
Troféu de França. Mesmo sendo recém-chegada ao escalão sénior, Maria Sotskova
já tem um estilo refinado. Ela faz-me lembrar Carolina Kostner quando era mais
nova. No programa curto, Maria foi terceira classificada com uma pontuação de
68.71pts. Ela iniciou o esquema com uma combinação de triplo lutz-triplo toe
loop (11.60pts), tendo deixado os restantes saltos para a segunda metade. O
triplo flip (6.53pts) e o duplo axel (4.20pts) foram bem executados. Os peões
foram todos classificados com o nível 4, totalizando 11.33pts. A sequência de
passos recebeu 4.90pts e também foi de nível 4. Nos segmentos dos componentes
as suas médias foram de 7.61 na perícia, 7.29 nas transições, 7.50 na
performance, 7.68 na composição e 7.61 na interpretação da música.
No programa livre, Maria Sotskova foi
das poucas atletas que não cometeu erros muito graves e não caiu. Esta
patinadora foi segunda classificada nesta fase da competição com uma pontuação
de 131.64pts. O único elemento punido com grau de execução negativo foi o
triplo lutz isolado pois a terceira rotação não foi efectivamente completa.
Esse elemento foi cotado com 3.92pts. Maria executou uma combinação de triplo
lutz-triplo toe loop (11.00pts), triplo flip (5.70pts), triplo loop (6.61pts),
combinação de triplo flip-loop simples-triplo salchow (11.42pts), combinação de
duplo axel-duplo toe loop (5.13pts) e duplo axel (3.99pts). A sequência
coreográfica rendeu-lhe 3.10pts. A sequência de passos recebeu 5.00pts e foi
classificada com o nível 4. Os peões obtiveram 11.90pts e foram todos de nível
4. As médias nos segmentos que compõem a segunda foram de 8.00 na perícia, 7.71
nas transições, 8.07 na performance, 8.07 na composição e 8.07 na interpretação
da música.
A jovem japonesa Wakaba Higuchi
conquistou a medalha de bronze e fez uma excelente recuperação do programa
curto para o livre. Ela teve uma boa carreira no escalão júnior e está a fazer
uma transição promissora para o escalão sénior. No programa curto, Higuchi
ficou com uma nota de 65.02pts. O maior erro ocorrido no esquema foi no salto
isolado. As regras mandam que no programa curto o salto isolado seja no mínimo
um triplo. Só que Higuchi apenas realizou um duplo flip. Por esse motivo, o
salto isolado foi inválido e não pôde ser pontuado. No duplo axel (4.23pts) e a
combinação de triplo lutz-triplo toe loop (12.53pts). Em termos de estruturação
de esquema, Higuchi arriscou colocar a combinação da segunda parte do programa.
A sequência de passos (5.30pts) e todos os peões (11.90pts) foram classificados
com o nível 4. As médias nos segmentos dos componentes fixaram-se em 7.89 na
perícia, 7.57 nas transições, 7.82 na performance, 7.71 na composição e 7.82 na
interpretação da música.
No programa livre a nota conquistada
por Higuchi foi de 129.46pts. A atleta japonesa cometeu dois erros: transformou
o triplo lutz isolado num salto simples (0.66pts) e na combinação de duplo
axel-triplo toe loop-duplo toe loop (8.07pts) pois a terceira rotação do toe
loop não foi efectivamente completada. Essa combinação foi punida com grau de
execução negativo. Os outros elementos de salto no esquema foram a combinação
de triplo lutz-triplo toe loop (11.80pts), triplo loop (6.40pts), triplo
salchow (5.80pts), duplo axel (4.49pts) e combinação de triplo flip-duplo toe
loop (7.96pts). A sequência de passos foi de nível 3 e obteve 4.16pts. A
pontuação atribuída à sequência coreográfica foi de 3.00pts. Os peões foram
todos de nível 4 e receberam um total de 11.25pts. Nos segmentos dos
componentes, as médias apuradas das pontuações atribuídas pelos juízes foram de
8.39 na perícia, 7.96 nas transições, 8.29 na performance, 8.21 na composição e
8.32 na interpretação da música.
A canadiana Gabrielle Daleman esteve
em excelente posição para garantir um lugar no pódio mas teve de contentar-se
com o quarto lugar final. No programa curto a sua pontuação foi de 72.70pts que
a colocou na segunda posição nessa fase da competição. Os saltos realizados
pela atleta canadiana foram a combinação de triplo toe loop-triplo toe loop
(10.70pts), um triplo lutz (7.60pts) e um duplo axel (4.63pts). Os peões foram
todos de nível 4 e receberam 12.12pts. A sequência de passos ficou com 4.30pts
e foi de nível 3. Nos segmentos dos componentes as médias fixadas foram de 8.50
na perícia, 8.07 nas transições, 8.46 na performance, 8.36 na composição e 8.29
na interpretação da música. No programa, os elementos beneficiaram de graus de
execução muito bons.
No programa livre as coisas não
correram bem e Gabrielle ficou em sexto lugar nessa fase da competição com uma
pontuação de 119.40pts. As coisas começaram mal quando ela falhou a tentativa
de combinação de triplo toe loop-triplo toe loop que estava prevista. Ela
apenas efectuou o primeiro triplo toe loop e caiu na recepção. O elemento foi
punido com grau de execução negativo e foi-lhe aplicada uma dedução automática
de um ponto. Esse triplo toe loop apenas obteve 2.20pts. Gabrielle tinha
previsto realizar um triplo flip isolado mas apenas apresentou um salto simples
(0.49pts) que acabou por ser ligeiramente punido com grau de execução negativo.
A sequência de triplo salchow com duplo axel (6.38pts) também foi punido com
grau de execução negativo. Os restantes saltos tiveram uma execução mediana.
Ela ainda apresentou um triplo lutz (6.30pts), combinação de triplo lutz-duplo
toe loop-duplo toe loop (9.86pts), triplo loop (6.31pts) e duplo axel
(3.92pts). Os peões (11.40pts) e a sequência de passos (5.20pts) atingiram o
nível 4. A sequência coreográfica amealhou 3.20pts. Os segmentos dos
componentes ficaram com 8.39 na perícia, 7.86 nas transições, 8.07 na
performance, 8.21 na composição e 8.18 na interpretação da música.
A super-estrela japonesa Mao Asada
teve uma participação discreta no programa curto onde foi oitava classificada
com uma pontuação de 61.29pts. Com os peões e a sequência de passos todos de
nível 3, ela perdeu alguns pontos no valor base desses elementos. Além disso a
combinação de triplo flip-duplo loop foi punida com grau de execução negativo
devido à terceira rotação do flip ter sido incompleta em cerca de ¼ de volta.
No programa livre, Asada foi décima classificada com apenas 100.10pts. Ela
apresentou apenas uma combinação de saltos quando deveria ter realizado três. A
única combinação realizada foi de duplo axel-triplo toe loop mas a terceira rotação
do toe loop foi incompleta, tendo o elemento sido punido com grau de execução
negativo. O único triplo isolado que ela conseguiu fazer foi o loop só que
também foi penalizado em sede de grau de execução. De resto só efectuou saltos
duplos. As notas dos componentes estiveram longe do que Mao conseguiu noutras
ocasiões.
Gracie Gold não está a atravessar uma
boa fase na sua carreira. Apesar de ter programas bem construídos nesta
temporada, a atleta parece que está sem alma. No programa curto ela teve dois
elementos de saltos inválidos: o duplo flip e o axel simples. No programa
livre, Gold teve problemas em ambas as tentativas de lutz e no flip. A
combinação de duplo axel-triplo toe loop também foi punida com grau de execução
negativo.
Alena Leonova esteve em grande
destaque no programa curto com uma coreografia diferente do habitual. Ela
também ousou no visual ao apresentar-se como uma espécie de “Harley Quinn”. No
entanto, no programa livre deitou tudo a perder. Com cinco quedas, Leonova foi
das primeiras vítimas das mudanças nas regras constantes do Código de Pontos. É
que com tantas quedas, ela levou uma penalização adicional. O total de deduções
automáticas foi de nove pontos! A sua nota técnica foi apenas de 35.56pts. Foi
uma pena.
Ashley Wagner, vice-campeã mundial
2016, era uma das principais favoritas à conquista de uma medalha neste
primeiro grande prémio da temporada 2016/2017. Wagner não deixou os seus
créditos em mãos alheias e arrecadou a medalha de ouro. O troféu Skate America
é encarado como sendo super importante para as patinadoras estado-unidenses
visto que a categoria de senhoras é a que mais atenções atrai nos Estados
Unidos. É uma prova que tem destaque na imprensa nacional e que pode chamar a
atenção do público e de patrocinadores. Também é uma prova em que se começam a
marcar posições para os campeonatos nacionais e por isso é importante conseguir
um bom resultado para ganhar algum favoritismo e confiança do ponto de vista
psicológico. No actual panorama da patinagem feminina dos Estados Unidos
fala-se da rivalidade entre Ashley Wagner e Gracie Gold. Neste grande prémio
Ashley Wagner já leva um bom avanço face à sua rival.
Ashley Wagner conquistou o público no
programa curto ao patinar ao som de um arranjo da popular música “Sweet Dreams
(Are made of these)” de Annie Lennox. A música e a coreografia assentam-lhe que
nem uma luva ao seu estilo. E se há coisa que Ashley sabe fazer é apresentar
bem uma coreografia. O programa recebeu uma excelente nota de 69.50pts. Os
peões conseguiram um total de 10.50pts e foram todos classificados com o nível
3. A sequência de passos obteve 4.51pts e também foi de nível 3. Em termos de
saltos, a combinação de triplo flip-triplo toe loop foi o elemento inicial do
programa e ficou com o valor base de 8.30pts. A maior parte dos juízes foi
condescendente com ela neste elemento pois o triplo toe loop foi claramente
incompleto, ou seja, faltou um pouco para que a terceira rotação fosse
efectivamente completa. No entanto, apenas dois juízes aplicaram -1 na escala
do grau de execução. O triplo loop (6.91pts) e o duplo axel (4.56pts) foram
realizados na segunda metade do esquema para beneficiar de pontuação bónus no
valor base. As suas médias nos segmentos dos componentes que compõem a segunda
nota foram muito boas: 8.68 na perícia, 8.32 nas transições, 8.82 na
performance, 8.71 na composição e 8.86 na interpretação da música.
Ashley Wagner foi segunda no programa
livre com uma pontuação de 126.94pts. Mais uma vez Ashley conseguiu cativar o público
com uma boa interpretação. No entanto, em termos técnicos ocorreram algumas
falhas em elementos de saltos. Na combinação de triplo flip-triplo toe loop
(7.90pts), a terceira rotação do toe loop não foi de facto completada e, ao
contrário do que aconteceu no curto, o elemento foi punido com grau de execução
negativo. No triplo flip isolado também faltou rotação pelo que os juízes
tiveram de aplicar grau de execução negativo. Esse elemento ficou com 3.97pts.
A combinação de triplo loop-toe loop simples (5.05pts) perdeu pontos devido a
uma recepção um pouco deficiente no primeiro salto e à segunda parte da
combinação não ter sido feita de acordo com o planeado e essa alteração ter
sido bem perceptível. Essa combinação foi punida com grau de execução negativo.
A combinação de triplo lutz-duplo toe loop (5.15pts) também foi penalizada pois
a definição de entrada do lutz foi claramente incorrecta. Os saltos que
receberam grau de execução positivo foram os dois duplo axel isolados (4.23pts
e 4.01pts respectivamente) e o triplo loop (6.81pts). Na sequência de passos de
nível 3 ela conseguiu amealhar 4.66pts. Sinceramente achei que em comparação
com a de Mao Asada, a da japonesa foi claramente melhor mas ficou exactamente
com os mesmos pontos… A sequência coreográfica rendeu-lhe3.60pts. Nos peões ela
conseguiu 11.50pts, sendo que os primeiro foi de nível 4 e os outros foram de
nível 3. No que diz respeito aos segmentos dos componentes, as suas médias
fixaram-se em 8.71 na perícia, 8.43 nas transições, 8.79 na performance, 8.82
na composição e 9.04 na interpretação da música. Apesar das falhas nos saltos,
Ashley tem uma capacidade enorme em disfarçar erros. Além disso, como ela tem
uma presença forte em pista e exibe auto confiança por todos os poros, é fácil
ter a tendência de nos concentrarmos no lado artístico e descurarmos os erros. Mesmo
assim penso que Ashley foi uma justa vencedora nesta prova.
Mariah Bell foi a grande surpresa
desta competição ao conseguir alcançar a medalha de prata. Ela foi sexta no
programa curto com 60.92pts mas não se deixou abater e venceu o programa livre
com uma nota de 130.67pts.
O programa curto de Mariah Bell teve
dois elementos punidos com grau de execução negativo: a combinação de triplo
lutz-triplo toe loop (8.20pts) e o triplo flip (5.63pts). O principal problema
da combinação foi que no triplo toe loop a terceira rotação não foi de facto
completada pela patinadora. O duplo axel recebeu 3.92pts. Tanto o flip como o
axel foram efectuados na segunda metade do esquema. O peão layback (3.70pts)
foi de nível 4, o peão flying sit (3.03pts) foi de nível 3 e o peão de
combinação (2.93pts) foi de nível 3. A sequência de passos obteve 3.60pts e foi
classificada com o nível 2. Nos segmentos dos componentes, as médias alcançadas
por Mariah Bell foram de 7.25 na perícia, 7.32 nas transições, 7.64 na
performance, 7.50 na composição e 7.68 na interpretação da música.
No programa livre, Bell apenas teve
um elemento punido com grau de execução negativo: foi a combinação de triplo
flip-loop simples-duplo salchow (7.50pts). A definição de entrada no triplo
lutz isolado não foi limpa mas apenas dois juízes marcaram -1 pelo que o
elemento acabou por conseguir grau de execução positivo e pontuar 6.70pts. Os
outros saltos realizados foram a combinação de triplo lutz-triplo toe loop
(11.40pts), triplo loop (5.70pts), combinação de duplo axel-duplo toe loop
(5.10pts), duplo axel isolado (4.34pts) e triplo flip (6.93pts). A sequência de
passos cumpriu os critérios exigidos para o nível 3 e pontuou 4.09pts. Na
sequência coreográfica, ela obteve 3.20pts. Em termos de peões, os três
totalizaram 11.26pts, sendo que o primeiro foi de nível 4, o segundo foi de
nível 3 e o último foi de nível 2. As médias obtidas nos segmentos dos
componentes que compõem a segunda nota foram de 7.93 na perícia, 7.75 nas
transições, 8.32 na performance, 8.07 na composição e 8.21 na interpretação da
música.
A japonesa Mai Mihara pode ficar
contente com o seu resultado no Skate America. A jovem japonesa conquistou a
medalha de bronze logo na sua estreia no circuito do grande prémio sénior.
Mihara foi segunda classificada no
programa curto com uma nota de 65.75pts. Eu fiquei impressionada com a sua
prestação principalmente porque o salto isolado foi o último elemento do
programa. Começa a ser hábito para muitas patinadoras colocar o salto isolado
na segunda metade do esquema para obter um bónus no valor base mas deixá-lo
mesmo para último elemento é uma raridade. Parabéns a Mai Mihara por ter
arriscado. Ela começou por realizar uma combinação de triplo lutz-triplo toe
loop (11.40pts), a que se seguiram o peão flying sit (3.93pts) e o peão de
combinação (4.07pts) ambos de nível 4. Na segunda parte do esquema ela realizou
o duplo axel (4.42pts), o peão layback (3.27pts) de nível 4, a sequência de
passos (3.80pts) de nível 3 e o triplo flip (4.83pts). O triplo flip foi o
único elemento punido com grau de execução negativo. Nos segmentos dos
componentes houve um juiz que não se mostrou impressionado mas esteve isolado
no painel. As suas médias nos segmentos dos componentes foram boas: 7.71 na
perícia, 7.18 nas transições, 7.61 na performance, 7.54 na composição e 7.50 na
interpretação da música.
Mai Mihara foi terceira no programa
livre com uma nota de 123.53pts. Tecnicamente a japonesa foi superior a Ashley
Wagner mas a nota dos componentes fez toda a diferença. Houve apenas um
elemento punido com grau de execução negativo: a combinação de triplo
lutz-triplo toe loop (6.33pts) da segunda metade do esquema. É que a última
rotação do toe loop não foi efectivamente realizada. Curiosamente, Mihara jogou
com as regras e colocou duas combinações de triplo lutz-triplo toe loop. É uma
situação legal mas com esta combinação de saltos é a primeira vez que vejo. Foi
uma decisão interessante da equipa técnica dela pois é um elemento muito
valioso. A primeira combinação de triplo lutz-triplo toe loop no programa livre
correu bem e rendeu-lhe 11.60pts. Os restantes saltos apresentados no livre
foram o triplo flip (6.30pts), o duplo axel (3.87pts), combinação de duplo
axel-duplo toe loop (5.49pts), triplo loop (6.61pts) e duplo salchow (1.46pts).
Estava previsto que Mihara executasse um triplo salchow em vez de duplo mas eu
penso que lhe estavam a faltar um pouco as forças visto que esse foi o último
salto do esquema. Mihara ainda está a adaptar-se ao escalão sénior e nos juniores
os programas livres exigem menos elementos do que aqui. Os peões conquistaram
12.07pts e conseguiram todos o nível 4. A sequência de passos foi classificada
com o nível 3 e obteve 4.01pts. A sequência coreográfica pontuou 3.10pts. As
médias obtidas nos segmentos dos componentes foram de 7.96 na perícia, 7.57 nas
transições, 8.00 na performance, 7.86 na composição e 7.79 na interpretação da
música.
É sempre um gosto ver Mao Asada
patinar. A sua leveza, qualidade base de patinagem, capacidade de interpretação
da música são maravilhosas mas neste evento ela só conseguiu o sexto lugar,
tendo ficado com uma pontuação total que a deixou bem longe do pódio.
Mao Asada conseguiu uma pontuação de
64.47pts no programa curto. O primeiro elemento foi um duplo axel (4.23pts)
logo seguido da combinação de triplo flip-duplo loop (4.90pts). A combinação
foi penalizada em sede de grau de execução pois o a terceira rotação do flip
não foi completada. Faltou-lhe cerca de ¼ de volta. O terceiro elemento foi o
peão flying spin (3.77pts) que cumpriu os critérios necessários para o nível 4.
Depois foi a vez do triplo loop (5.81pts) já na segunda metade do programa.
Seguiram-se o peão layback (3.41pts) e o peão de combinação (4.50pts) ambos de
nível 4. O programa terminou com a sequência de passos de nível 3 que recebeu
4.37pts. Do que vi nesta prova pareceu-me que a sequência de passos foi mais do
que suficiente para o nível 4 e isso teria aumentado o valor base do elemento.
No entanto o controlador técnico achou que a dita sequência só chegou para o
nível 3. Nos segmentos dos componentes ela ficou com médias de 8.43 na perícia,
8.11 nas transições, 8.39 na performance, 8.43 na composição e 8.50 na
interpretação. Apesar das boas médias, houve um juiz que entendeu que o
programa só merecia 7.75 na composição e 7.75 na interpretação. 7.75 para o que
é uma das melhores coreografias vistas nesta temporada até agora e tendo em
conta o que ela apresentou nesta prova parece-me severo.
Mao Asada foi sexta classificada no
programa livre com uma nota de 112.31pts. Três dos elementos de salto foram
punidos com grau de execução negativo: o triplo lutz (3.60pts), o axel simples
(0.81pts) e o triplo salchow (1.31pts). No axel simples era suposto que ela
tivesse tentado uma combinação de duplo axel-duplo toe loop ou de duplo
axel-triplo toe loop. Pareceu-me que ela não conseguiu entrar bem no axel pois
tinha o eixo de rotação desalinhado e por isso não foi capaz de reunir o
impulso suficiente para a rotação no ar. Para evitar uma queda ela teve de
abortar o salto. Pareceu-me também que pode ter havido algum lapso de
concentração em consequência disso pois o erro no triplo salchow ocorreu logo
de seguida. Ela tinha planeado fazer um triplo flip como elemento seguinte ao
triplo salchow mas acabou apenas por efectuar um duplo flip que ficou com o
valor base de 2.09pts. Os saltos que beneficiaram de grau de execução positivo
foram o duplo axel (4.23pts), a combinação de triplo flip-duplo loop (7.90pts)
e triplo loop (6.21pts). Nos peões ela conseguiu amealhar 11.84pts, sendo que
todos alcançaram o nível 4. A sequência de passos obteve 4.66pts e foi de nível
3. Mais uma vez discordo da atribuição do nível. A mim pareceu-me que os
critérios para o nível 4 foram todos preenchidos. A sequência coreográfica
rendeu-lhe 3.70pts. Nos segmentos dos componentes as suas médias fixaram-se em
8.36 na perícia, 7.93 nas transições, 8.14 na performance, 8.43 na composição e
8.36 na interpretação da música.
Gracie Gold ficou desalentada com o
seu resultado nesta competição. Ela queria lutar por um lugar no pódio e acabou
por ficar sem medalha. O seu quinto lugar no Skate America compromete as suas
aspirações de se qualificar para a grande final que se vai realizar em
Dezembro. Além disso, este resultado foi também um rude golpe na sua reputação
pois as atenções da imprensa americana que esteve a cobrir o evento estavam
muito focadas nela. A queda no triplo flip no programa curto e mais duas quedas
no programa livre para além de outros pequenos erros acumulados não deixaram
boa impressão a muita gente. É claro que todos nós sabemos que ela tem muitas
capacidades e talento natural mas acho que é cedo demais para riscá-la da lista
de favoritas. Estamos numa fase em que as patinadoras ainda não estão no seu
pico de forma e até aos campeonatos nacionais ainda muita coisa pode acontecer.
O que mais me surpreendeu foi a atitude cabisbaixa que ela demonstrou no
decorrer da competição e a maneira como demonstrou isso quando falou com a
imprensa. Enfim… todos nós podemos ter dias maus. O que importa é reagir.