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segunda-feira, 21 de maio de 2018

Ainda a propósito do filme "Lyod"...

Olá a todos e bem-vindos ao blogue  :)


No dia 16 de Maio disponibilizei um post a recomendar o filme russo "Lyod" pois a patinagem artística no gelo é um elemento fulcral da história. 

Podem ver este post aqui: http://magiageladapatinagememportugues.blogspot.pt/2018/05/lyod-um-novo-filme-destacar-patinagem.html

"Lyod" tem feito muito sucesso na Rússia e entretanto têm sido transmitidas várias reportagens sobre o filme. 

Reportagem 

Neste vídeo podem ver alguns momentos da chegada de público a salas de cinema para ver o filme mas há mais. Um dos aspectos mais interessantes desta reportagem tem a ver com as declarações do realizador Oleg Trofim. Ele referiu que uma das inspirações para o filme foram as lesões que ocorrem na disciplina de pares. A partir do minuto 5:49 são mostradas imagens de um dos acidentes mais marcantes da categoria de pares durante uma competição: a queda de Tatiana Totmianina e Maxim Marinin durante uma figura de elevação no programa livre do GP Skate America 2004. A este propósito, o jornalista foi entrevistar Tatiana Totmianina pois ela conseguiu ultrapassar esta lesão e chegou ao título olímpico em 2006 com o seu parceiro Maxim Marinin. Maxim passou por um mau bocado porque ficou muito afectado psicologicamente com o sucedido e demorou muito tempo a recuperar a confiança. Este evento real encontrou paralelismo neste filme. 

Vídeo do acidente de Totmianina & Marinin no GP Skate America 2004

Nesta reportagem dá para ver outro momento que é reminiscente da vida real. A partir do minuto 2:00 da reportagem podem ver-se os fatos utilizados pelos protagonistas em cenas do filme. Esse fatos fazem lembrar as roupas usadas pelo par Tatiana Volosozhar & Maxim Trankov para o programa curto na temporada 2013/2014 que os consagrou como campeões olímpicos em Sochi.

Programa curto de Volosozhar & Trankov em Sochi 2014

A partir do minuto 6:24 da reportagem é possível ver algumas grandes estrelas que marcaram a patinagem artística a nível mundial: Julia Lipnitskaya, Alexey Yagudin e Irina Slutskaya.
Para quem não sabe, Julia tem abraçado o papel de comentadora no canal Telesport e têm-se saído muito bem. 
Esta é uma boa desculpa para rever programas destes patinadores. 

Programa livre de Julia Lipnitskaya nos campeonatos da Europa 2014 

Exibição de Alexey Yagudin nos Jogos Olímpicos 2002

Programa curto de Irina Slutskaya nos Jogos Olímpicos 2006

Tanto Lipnitskaya, Yagudin como Slutskaya tiveram de lidar com problemas graves de saúde durante a sua carreira mas lutaram para ultrapassá-los. 

No post anterior mencionei uma sequência do filme que muita gente associou ao clube Sambo 70 onde se destaca a treinadora Eteri Tutberidze (responsável pelo desenvolvimento de Julia Lipnitskaya, Evgenia Medvedeva e Alina Zagitova). No vídeo da reportagem não falta a referência a este clube. Podem vê-la a partir do minuto 4:44. 

Espero que tenham gostado deste post. Se entretanto tiverem oportunidade de ver o filme, não se esqueçam de deixar aqui um comentário sobre se gostaram. 

Até à próxima! 







quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Notícias da Rússia - A caminho da semana de testes

A semana de testes na Rússia é um dos momentos mais aguardados do início de temporada e este ano não é excepção.
Durante a semana de testes, os patinadores que fazem parte do grupo de elite e os que são os principais candidatos a um lugar na selecção nacional do país tem de apresentar-se perante os responsáveis da federação russa e de um conceituado grupo de especialistas. Os testes de 2017 irão realizar-se na cidade de Sochi. Aí, os patinadores terão a oportunidade de mostrar os programas que pensam patinar para a temporada 2017/2018. Todos os programas são sujeitos a avaliação. Consoante a avaliação, os patinadores e as suas respectivas equipas técnicas terão um prazo para realizar melhorias nos programas antes de poderem competir em competições internacionais. Na semana de testes, os patinadores também terão a hipótese de apresentar algum elemento novo em que tenham trabalhado durante a época baixa.
Entretanto já se sabe que o par Ksenia Stolbova & Fedor Klimov não irão apresentar-se na semana de testes. Fedor foi submetido a uma operação cirúrgica há cerca de um mês e ainda está em recuperação, sendo que há certos elementos que ele ainda nem sequer pode arriscar, nomeadamente o twist e as figuras de elevação. Como Ksenia e Fedor têm uma justificação médica para a falta de comparência nestes testes, é possível que sejam avaliados em privado assim que for possível. Consta que este par planeia iniciar o seu calendário competitivo no Troféu Finlândia.

Fedor Klimov está a braços com mais uma lesão complicada


Quem também ficará de fora da semana de testes é o famoso par Tatiana Volosozhar & Maxim Trankov. Tatiana e Maxim têm estado a patinar no espectáculo “Romeu e Julieta” produzido pela companhia de Ilya Averbukh e duvido que tenham tido tempo de preparar novas coreografias. Além disso, esta falta de comparência na semana de testes parece indicar uma coisa que já muitos suspeitam: Tatiana e Maxim não voltarão ao circuito competitivo.

Tatiana Volosozhar & Maxim Trankov


Adelina Sotnikova e Julia Lipnitskaya foram figuras maiores no Jogos Olímpicos de Sochi e arrebataram corações. Quem estava à espera de vê-las na semana de testes desengane-se. Julia e Adelina não irão marcar presença. No caso de Julia, tudo aponta para o final de carreira na patinagem de competição (pelo menos como individual). Adelina continua a trabalhar sob a orientação de Evgeny Plushenko mas é possível que ainda não esteja pronta para regressar.


Adelina Sotnikova


Na categoria masculina destaca-se a ausência de Artur Dmitriev Jr. pois a própria federação impediu a sua participação! Não sei qual é a justificação para este impedimento mas espero que não seja uma punição disciplinar.


Na categoria de dança aguarda-se com alguma ansiedade a confirmação da presença de Elena Ilinykh e Anton Shibnev. 

Elena Ilinykh & Anton Shibnev
(Fonte: Instagram)

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Tradução de entrevista de Maxim Trankov


Maxim Trankov, campeão olímpico de pares em 2014 com a sua parceira e esposa Tatiana Volosozhar, concedeu recentemente uma entrevista à conceituada jornalista russa Elena Vaytsekhovskaya. Maxim falou abertamente de diversos temas nomeadamente sobre os seus planos e preocupações sobre o futuro. A versão original pode ser vista neste link: http://www.sport-express.ru/se-velena/reviews/maksim-trankov-v-sochi-ya-ispolnyal-rol-geroya-vtorogo-plana-1253018/

Aqui têm a tradução:

Maxim – A Tanya (*diminuitivo de Tatiana) passa todo o seu tempo com a bebé. Enquanto não tivermos uma ama, a minha mulher não quer deixá-la com estranhos. Eu também não gosto de ter estranhos em casa.


Nina Mozer, Maxim Trankov, Tatiana Volosozhar e Stanislav Morozov


Elena – A possibilidade de regressar e competir foi afastada?

Maxim – 90%

Elena – Foi uma decisão difícil?

Maxim – Ainda é difícil. As possibilidades para a vida pós-desporto são bastante limitadas apesar de todos os títulos, tal como está a acontecer. Francamente, eu tinha um cenário diferente na minha mente quando pensava sobre o que é que ia fazer quando me retirasse (*da competição). Eu pensei que era criativo e suficientemente flexível e tinha a certeza de que haveria um emprego para mim. Na verdade as coisas ocorreram de maneira diferente. É mesmo muito difícil encontrar um emprego na Rússia.

Elena – Quão depressa desta conta disso?

Maxim – Quase imediatamente após ter regressado de Boston (*mundiais 2016). No início do Verão soubemos que a Tanya estava grávida e então eu comecei a pensar no que tinha de fazer para não ter de ficar em casa. Eu realmente não queria treinar sozinho – nunca gostei disso. Eu tentei ser treinador e rapidamente aprendi que, de certa maneira, andei iludido todos os anos em que eu patinei.

Elena – Tu estavas a pensar começar como treinador no mesmo local onde treinavas – a escola de Nina Mozer?

Maxim – Não era só uma esperança. Isso foi falado inúmeras vezes quando a Tanya e eu patinávamos. Assim que nos retirássemos (*da competição), nós poderíamos juntar-nos à equipa. A realidade foi mais complicada. Quando a equipa está completa qualquer pessoa nova é supérflua.

Elena – Tu ficaste magoado ao saber que havia um lugar na equipa para o Robin Szolkowy mas não para ti?

Maxim – Francamente ainda é um assunto doloroso. A Tanya e eu é que trouxemos o Robin para a equipa. Depois da Aliona Savchenko ter decidido continuar a competir, o Robin, cinco vezes campeão do mundo e medalhado olímpico, foi deixado de fora e nós tivemos pena dele. É difícil ser o rosto da disciplina de pares durante tantos anos e de repente ficar sem nada: o Robin não era necessário em nenhum espectáculo sem a sua parceira. Além disso, a Tanya e eu queríamos aprender coisas com o Robin, tal como Tarasova & Morozov fazem agora. Durante muito tempo eles foram uma “roda sobresselente” na equipa; ninguém realmente acreditava neles; eles eram considerados inconsistentes, sem sal, apesar de nesta época ter-se tornado óbvio como eles podem ser fantásticos.

Elena – Olhando para estes patinadores, eu não posso deixar de me recordar os tempos em que tu e a Tanya começaram a patinar no grupo de Mozer. Era óbvio que a vossa equipa era um projecto nacional.

Maxim – Era isso mesmo.

Elena – O projecto recebeu os melhores recursos: os especialistas necessários, cada detalhe era tratado, foi feito tudo o que era possível para remover qualquer eventual desvantagem para os vossos Jogos Olímpicos. Agora eu não entendo por que é que a equipa não começou a trabalhar com Tarasova & Morozov com a mesma intensidade?

Maxim – A Tanya e eu falámos muitas vezes sobre isso com a Nina Mozer; nós tentámos convencê-la de que a Zhenya (*diminuitivo de Evgenia) e o Vladimir são capazes dos resultados mais elevados. Mas ninguém acreditava neles. Se calhar alguns estavam um pouco cépticos porque eles apenas se tinham mudado dos juniores e, além disso, no nosso desporto é comum ouvir-se o que os outros têm a dizer. Por outro lado, Tarasova & Morozov progrediram muito bem assim que começaram a competir como séniores.


Evgenia Tarasova & Vladimir Morozov


Elena – Tu trabalhaste com eles durante algum tempo?

Maxim – Exacto. Eu fiz os programas deles na sua primeira temporada sénior – logo após os Jogos Olímpicos em Sochi. Eu não me lembro de onde veio a ideia mas eles não se importaram. Nessa época, a Zhenya e o Volodya (*diminuitivo de Vladimir) foram terceiros nos Europeus e sextos nos Mundiais. Eu estou muito orgulhoso do meu trabalho com eles.

Elena – Essa foi a tua primeira experiência desse género?

Maxim – Com os pares sim. Eu cheguei atrasado ao primeiro estágio para coreografias porque eu estava a recuperar da lesão, então nós começámos a trabalhar nos programas um pouco tarde. Foi aí que eu percebi como a Zhenya é única como patinadora. Ela pode tornar-se tão fantástica como a Savchenko ou a Volosozhar – ela tem tudo o que é preciso.

Elena – E o que é isso?

Maxim – Tarasova é muito flexível em termos de pares – ela consegue adaptar-se a qualquer situação. Então trabalhar com ela é muito fácil. O Vladimir é mais teimoso mas ele tem boas apetências como actor e uma compreensão quando patina. Em outras palavras, ele é artista e não um “camionista”, como os parceiros masculinos são habitualmente chamados nos pares.

Elena – Tu alguma vez foste afectado por essa reputação?

Maxim – Talvez no início quando a Tanya e eu formámos parceria. As coisas não decorreram com suavidade mas eu não transpirei muito: aconteceu o mesmo com as seis parceiras com que patinei anteriormente.

Elena - Já me tinha esquecido de que tinhas tido tantas parceiras…

Maxim – Se contares desde o início: três parceiras em Perm e depois três em São Petersburgo.

Elena – O que é que vos impediu de se tornarem um par mais rapidamente? Falta de “flexibilidade de pares”?

Maxim – Honestamente eu não sou particularmente bom patinador. Por mais que eu ame a escola de Perm, a patinagem base que é ensinada lá não é a melhor. Eu percebi isso quando me mudei para São Petersburgo para o grupo de Ludmila Smirnova, para formar parceria com a Irina Ulanova, cujo pai foi campeão olímpico. A Irina viveu e patinou nos Estados Unidos durante uns tempos e a sua qualidade base de patinagem era fabulosa. E ali estava eu sem pontas (*menção a tentar esticar bem os pés como os bailarinos em pontas). Eu só sabia os nomes de alguns dos passos mais básicos. Nessa altura eles trabalharam tanto comigo: ensinaram, explicaram, limparam. Eu só aprendi os “brackets” e os “rockers” quando tinha 25-26 anos e me tinha mudado para o grupo de Tamara Moskvina e nós precisámos de fazer as sequências de passos de acordo com as regras. Tudo na vida me aconteceu muito tarde – Eu só comecei a vencer nos juniores quando me faltavam apenas duas temporadas (*para fazer a transição para seniores). Eu ganhei tudo o que podia apesar de antes disso eu nem sequer ter participado nos grandes prémios. Com a Tanya, nós também conseguimos todos os títulos quando não faltava muito tempo para os Jogos Olímpicos.

Elena – Quão exigente foi aquela vitória olímpica?

Maxim – A competição mais dura que eu alguma vez venci foi o campeonato do mundo de juniores em 2005. Ninguém acredita em mim quando digo isso mas é verdade. Foi a única vez que eu chorei no pódio. Naquela fase da minha carreira, por alguma razão, eu tinha a certeza que os mundiais de juniores eram a única coisa que eu podia ganhar como atleta. Eram os tempos de Petrova & Tikhonov, Obertas & Slanov e Totmianina & Marinin e eu tinha a certeza que eu não iria conseguir ultrapassar aquela fila. Os mundiais de juniores abriram portas para o circuito do grande prémio, os campeonatos nacionais e depois retirar-me para os espectáculos ou algo assim. Masha (*diminuitivo de Maria) Mukhortova e eu tivemos sorte: nós fomos terceiros nos nacionais para surpresa de muita gente e fomos aos mundiais 2006 porque Totmianina & Marinin decidiram não ir. Antes da Tanya Volosozhar e eu começarmos a patinar no grupo de Mozer, eu estava ansioso com a competição. O medo começou quando a Mukhortova e eu patinávamos sob o comando de Vasiliev. Talvez os métodos dele não fossem adequados para mim. Nós treinávamos tanto e eu aguentava isso mas nas competições eu estava demasiado cansado e não recuperava atempadamente. Depois de cada prestação eu tentava passar pela zona de imprensa o mais rapidamente possível porque eu estava literalmente quase a desmaiar e eu tinha medo de começar a vomitar antes de chegar aos balneários. Mozer ajudou-me a ultrapassar o medo. Um momento alto foi quando nós fomos a uma competição em Courmayeur – era a última oportunidade para alcançar os mínimos técnicos para os mundiais (*menção às notas mínimas de qualificação). Nós só treinámos cinco dias antes disso porque nós tivemos a patinar no espectáculo “Art on Ice” e eu senti “a alegria” da altitude. Nós conseguimos ultrapassar o programa curto mas eu estava a tremer antes do livre. A Nina Mozer percebeu isso e disse calmamente “se as coisas estão assim tão más então não vamos patinar”; “O que é que tu queres dizer com não patinar? Então e os mundiais?” A Mozer respondeu igualmente calma “Então se queres ir aos mundiais, vai lá e patina.” Nós acabámos por vencer a competição, conseguimos os pontos necessários e, quando estávamos a sair da pista, de repente eu percebi que durante toda a prestação eu nem sequer tinha pensado no cansaço. Aquela competição em Courmayeur foi decisiva para mim. Eu comecei a aprender como pensar, comecei a entender quando e como sentir o cansaço, como gerir a energia, onde eu podia colocar mais emoções. Antes de vencermos os mundiais, nós fomos segundos duas vezes então a vitória em 2013 foi esperada. Quanto aos Jogos Olímpicos, o mais importante para mim era não estragar as coisas à Tanya. Uma vez eu falei com o Robin Szolkowy sobre isso e ele admitiu que sentiu o mesmo em relação à Aliona. Foi essencialmente uma competição entre as nossas parceiras. O Robin e eu erámos secundários.

Elena – A vossa temporada olímpica começou tremida.

Maxim – Na realidade iniciou-se de uma forma muito má.

Elena – Eu estou curiosa sobre outra coisa. Alguma vez se sentiram desconfortáveis por terem Stolbova & Klimov a patinar ao vosso lado, sendo que eles estavam a melhorar imenso.

Maxim – Quando a Ksenia e o Fedor decidiram trocar a Ludmila e o Nikolai Velikov pela Nina Mozer, eu fiquei contente por termos companhia: depois de me mudar para Moscovo eu só falava com a Tanya mas ela tinha a sua própria vida fora do rinque e eu tinha a minha. No entanto, não aconteceu tornarmo-nos companheiros de luta com Stolbova & Klimov: rapidamente percebemos que a Ksenia e eu não podíamos partilhar o gelo – nós entrávamos em conflito. A Nina Mozer colocou-nos em grupos diferentes. Eu estava desconfortável a competir com eles? Não. Muitas vezes, eu ouvi dizer que Stolbova & Klimov se calhar patinaram melhor do que nós em Sochi mas nós tínhamos uma habilidade técnica superior. Nós tínhamos margem para uma queda e mesmo assim não perderíamos.


Ksenia Stolbova


Elena – Demoraste a ultrapassar o falhanço nos mundiais de Boston?

Maxim – Toda a temporada foi dura. É de conhecimento comum que a Tanya é que quis regressar mas, francamente, eu queria isso ainda mais. Eu estava realmente entusiasmado depois de passar tanto tempo e esforço na recuperação da lesão no ombro e não era assim que eu me queria retirar. A ideia foi de começar a época com o circuito do grande prémio e terminar com os Europeus. Mas antes do evento no Japão, onde era suposto que nós competíssemos com os campeões do mundo Duhamel & Radford, a Tanya lesionou-se no calcanhar. Claro que começaram as conversas que nós simplesmente estávamos com medo dos rivais. Isso foi aborrecido – nós estávamos muito bem preparados. A Tanya chorava por pensar que era culpa dela que tínhamos de ouvir isso tudo. Isso ainda estava no ar mesmo depois de nós termos vencido os nacionais e depois os Europeus. Nós não tínhamos planeado ir aos mundiais mas depois começaram as conversas sobre a Rússia perder lugares para a época seguinte, etc. Resumindo, nós ficámos convencidos que era melhor irmos a Boston. Os treinos até foram bons mas assim que a competição começou tudo correu mal. Eu nem sequer estava nervoso – eu estava simplesmente vazio. O meu único pensamento era: eu perdi tantas vezes que eu certamente não vou morrer se eu não voltar a ganhar uma medalha. Eu recordo-me de ir para os balneários onde estavam Stolbova & Klimov e Tarasova & Morozov e vi que eles olhavam para nós de maneira estranha. Era como se eles estivessem desconfortáveis por terem ficado à nossa frente. Eu dei-lhe os parabéns e até fiz umas piadas. Eu disse à Tanya que não via razões para ficarmos chateados. Se foi assim que as coisas aconteceram, era assim que estava destinado. Nós devíamos começar a pensar numa criança e não em patinagem artística.

Elena – O que é que tu pensas de Sui & Han que venceram os mundiais nesta temporada?

Maxim – Há muitos anos que eu gosto muito deles.

Elena – Mas tu sempre foste contra a progressão da disciplina de pares dessa maneira.

Maxim – Eles não têm nenhum elemento que seja particularmente ultra C. Eles têm um bom equilíbrio entre os elementos complicados e a coreografia.

Elena – E sobre o quádruplo twist?

Maxim – Gordeeva & Grinkov fizeram o quádruplo twist nos anos 80. E os chineses nem sequer tentaram um quádruplo lançado.

Elena – Eu tenho a impressão que tu realmente não gostas desse elemento.

Maxim – Eu realmente não entendo o entusiasmo dos juízes e o +2 simplesmente pelo facto do par tentar um quádruplo lançado com uma recepção assim-assim. É uma dualidade de critérios que leva as pessoas a não compreender o que devem tentar. Os chineses tornam a patinagem compreensível para mim enquanto espectador. Além disso, eu gosto deles e vejo neles alguma influência russa, a nossa escola. O melhor da nossa escola.

Elena – A escola de patinagem que tu e a Tatiana tinham em Sochi ainda existe?

Maxim – Já não. Nós tínhamos alguns compromissos, de que falámos depois dos Jogos Olímpicos, com Alexander Tkachev, o ex-presidente da câmara da área de Krasnodarski. Depois do presidente da câmara ter sido substituído tudo acabou. No entanto, nós cumprimos com a nossa parte do acordo.

Elena – Tu gostavas de ter a tua própria escola?

Maxim – É praticamente impossível. Se nos dessem o gelo, vamos dizer, nem sequer em Moscovo mas nessa área, eu adoraria trabalhar lá. Não existem escolas privadas para a disciplina de pares. De onde é que vêm quase todos os pares no nosso país? Perm, Achinsk, Gremachinsk – pessoas de nenhures, que, assim que chegam e começam a treinar, primeiramente necessitam que lhe seja dado um sítio para ficar e comida. Onde é que os pais deles podem ir buscar dinheiro para financiá-los? Outro problema é o que o treinador ganha a ensinar crianças na patinagem artística. Não há crianças na disciplina de pares – eles só formam parcerias a partir dos 14 anos. Os treinadores de pares auferem migalhas. Além disso, não se pode ter mais do que 3 ou 4 pares no gelo ao mesmo tempo. Então a única maneira de promover a patinagem artística no nosso país é haver um homem rico que fabrique o gelo, dando-o aos pares e diga “Avancem, mantenham as nossas tradições!”.

Elena – No futuro próximo vocês só vão patinar em espectáculos?

Maxim – Provavelmente. Eu ainda não posso dizer exactamente quais espectáculos.

Elena – Quais são os que preferes?

Maxim – Japão e Suíça. Não é pelo dinheiro: tu aprendes tanto nestes espectáculos só de patinar com os grandes patinadores no mesmo gelo. Tu podes ver como eles treinam, como eles fazem o aquecimento, como eles se preparam para patinar e o trabalho em geral. Olha para o Hanyu: obviamente, no Japão, ele pode ir para o gelo fazer dois triplos salchow e a audiência fica louca. Em vez disso, o Hanyu faz todos os dias uma sessão completa de treino fora do gelo e eu morreria se tivesse de fazer igual ao seu treino no gelo.

Elena – Esse é o segredo de ser imbatível?

Maxim – Isso e o físico e a mentalidade dos japoneses. Tu podias pensar que o Takahashi se foi, o Hanyu chegou e não havia mais ninguém para segui-lo. Mas não; há o Shoma Uno que salta como uma bola e desliza como um deus. O problema da patinagem russa é que não há muitos treinadores que nos ensinem a deslizar. Nós nunca vamos a lado nenhum enquanto o Japão e a China enviam anualmente os seus patinadores para estágios com vários especialistas ou convidam treinadores a ir lá. Olha para o Nathan Chen; durante a temporada ele treina em três locais diferentes: com a Zoueva em Detroit, com o Morozov em Hackensack e o Araturyan na Califórnia. Três antigos patinadores russos ensinam um americano e agora esse americano é um dos melhores do mundo. Eu vi como o Chen treina em Hackensack. Se os nossos patinadores individuais fizessem pelo menos metade do trabalho que ele faz, a nossa patinagem individual iria parecer bem diferente agora.

Elena – Por quem é que torces na patinagem masculina?

Maxim – Javier Fernandez. Ele é o mais rijo. Ele é o último patinador não-asiático entre Nathan Chen, Patrick Chan, Denis Ten, Yuzuru Hanyu, Shoma Uno. Além disso, a patinagem de Fernandez é verdadeiramente masculina. Isso é uma raridade nos nosso dias.

Elena – Como é que tu explicas que o Fernandez e o Hanyu vivam tão felizes a partilhar o mesmo treinador por tantos anos?

Maxim – O sistema no ocidente é baseado nos contratos. Tu pagas ao treinador e o treinador dá 100% porque ele entende que se o patinador estiver insatisfeito vai-se embora. Os patinadores são disciplinados por esse sistema: quando tu pagas do teu próprio dinheiro, tu vais obter do treinador tudo o que ele te pode dar. No nosso país o salário do treinador é uma piada e eles têm de procurar um rendimento adicional. Se o patinador decidir pedir ajuda a outro treinador, começam as conversas sobre traição. E tudo porque o treinador tem tanto medo de perder o patinador.

Elena – O sistema está errado?

Maxim – Não está errado. Está simplesmente ultrapassado.

Elena – Parece que a próxima temporada vai ser a primeira em que as senhoras vão começar a fazer quádruplos.

Maxim – Eu não me apressaria a anunciar isso.

Elena – Mas de certeza que viste os vídeos na internet.

Maxim – Eu vi. A cena é que muitos patinadores fazem coisas estupendas nos treinos. Saltos quádruplos, saltos quádruplos lançados. É compreensível – o estado de forma é melhor no final da temporada. Depois de regressarem de férias é outra conversa. Então eu prefiro esperar pelo início da temporada.

Elena – Agrada-te que a patinagem de senhoras se tenha tornado mais jovem?

Maxim – Eu penso que tem direito de existir assim. A patinagem individual tem-se tornado tão “asiática” como a ginástica, os saltos para a água e outros desportos. Os únicos que conseguem competir são aqueles que ainda não cresceram completamente. Se compararmos as possibilidades de Medvedeva e Zagitova (que vai competir no escalão sénior pela primeira vez) para os Jogos Olímpicos, eu diria que as possibilidades de Medvedeva são melhores. Se a Zhenya patinar de forma limpa na Coreia, ela vencerá independentemente do que as outras façam. No ano passado eu vi a Zagitova nos nacionais. Os saltos dela são bons mas eu acho que o seu segundo lugar é questionável simplesmente porque não foi uma patinagem de seniores. E é muito bom que o Daniil Gleihengause lhe tenha coreografado o “Dom Quixote”. Eu estava à espera dessa música para o circuito júnior.

Elena – Porquê?

Maxim – Essa música salientou os saltos muito bem. A patinagem júnior é primeiramente sobre os saltos. Eu não diria que estou amedrontado pelo aspecto geral da patinagem se tornar mais nova, como tu mencionaste. A Zagitova, independentemente dos saltos, não vai encher arenas. A Carolina Kostner sim.

Elena – Tu comentaste os nacionais na televisão. Foi difícil?

Maxim – Enquanto a Tanya e eu não competimos por causa da minha lesão, eu assisti a todas as transmissões televisivas, ouvi vários comentadores e não apenas os russos. Eu sei como a ESPN e os canais americanos fazem os comentários. Então foi interessante tentar.

Elena – Por que é que não continuaste?

Maxim – Porque ninguém precisou. Olha para os americanos; Deus sabe há quantos anos eles não ganham nada na patinagem artística e, no entanto, eles enviam 3 ou 4 canais para cada competição e os seus comentadores são pessoas como o Michael Weiss, a Tara Lipinski, o Johnny Weir, a Tanith Belbin e o Charlie White. Os japoneses mandam a Arakawa, o Takahashi e o Oda. A Eurosport francesa tem Pechalat & Bourzat. No entanto, é difícil chegar à nossa televisão. Eu comentei durante quase toda a temporada passada mas foi graças à Tatiana Tarasova, que falou com as pessoas certas, exigiu dinheiro para as deslocações e convenceu-os. Depois dos mundiais em Helsínquia foi doloroso ouvir o que muita gente disse sobre Tarasova. O que eles não percebem é que se a Tarasova for afastada não vai haver patinagem na nossa televisão.

Elena – Já pensaste em tornar-te num especialista técnico?

Maxim – Mais do que isso. Eu fui convidado a tornar-me num. O estado do ajuizamento na disciplina de pares não é bom.

Elena – Só nos pares?

Maxim – Nas outras disciplinas é menos. Não há muita gente que tenha patinado em pares e ficado na disciplina. Daí que a disciplina de pares é habitualmente julgada por antigos patinadores individuais. Em Boston, um dos especialistas técnicos deu-nos o nível 2 no twist apesar de em todos os anos anteriores nós termos sempre obtido o nível 4 e +3. Como é que é suposto eu lidar com isso sabendo que faço o elemento sempre da mesma maneira: a mesma entrada, a mesma técnica? Quando se iniciaram as conversas para eu me tornar num especialista técnico, de repente o Szolkowy abordou-me e ofereceu-se para tomarmos uma cerveja. Nós tomámos e o Robin disse que lhe propuseram o mesmo. E ele declinou. Nós começámos a conversar e percebemos que pensamos exactamente da mesma forma. Tanto eu e o Robin chegámos muitas vezes aos balneários depois de ganharmos com uma prestação miserável. Nós não sabíamos como olhar nos olhos dos que foram melhores do que nós e perderam. Depois daquela conversa com o Robin, eu percebi que não quero fazer parte desse sistema. Se os grandes campeões patinassem mal, eu não poderia marcá-los acima. Simplesmente porque eu já passei por isso e sei como me senti. Eu penso que essa é a razão pela qual não existem muitos grandes patinadores como juízes.

Elena – O que é que obtiveste do programa “Ice Age”? À parte do salário, claro está.

Maxim – Em primeiro lugar eu fui simplesmente convencido por pessoas a quem não podia dizer que não. Mais tarde, depois de pensar no assunto, eu encontrei vários pontos positivos. Primeiramente, eu não iria ficar a arrastar-me em casa mas ia patinar. Claro que eu não ensinei a Julianna Karaulova, a minha parceira no programa, a patinar. A cena não é tanto a patinagem mas dar a volta aos juízes. Além disso, a Julianna andava sempre ocupada. Então nós só patinávamos números em que ela quase não passava tempo nenhum no gelo. O que é que eu obtive? Acho que a experiência. Aprendi a criar um programa numa semana, a usar as ideias, conheci muitas pessoas novas – a companhia foi de facto óptima e nós ainda hoje nos mantemos em contacto.

Elena – A Tanya e tu estiveram constantemente na imprensa e fizeram sessões fotográficas até ao parto. Foi divertido ou é parte do trabalho?

Maxim – Essencialmente é parte do trabalho mas alguns dos projectos revelaram-se muito interessantes. Nós temos uma equipa de publicistas que trabalham para nós. Retirar-me, ir viver para uma casa campestre, trabalhar no campo e viver disso, não é uma coisa que eu ambicione. Para nos mantermos requisitados, nós precisamos de estar todo o tempo nos jornais, nos espectáculos e em anúncios.

Elena – E se pagar aos publicistas se tornar demasiado caro?

Maxim – Ainda não estou preocupado com isso. A Tanya e eu não esperamos gastar muito: nós temos uma casa e um carro, um apartamento, e eu penso conseguir ganhar o suficiente para comida e para as contas. Se as coisas ficarem realmente más, eu posso sempre dar treinos por fora.

Elena – Alguma vez tentaste?

Maxim – Não. Honestamente, eu sou geralmente contra isso.

Elena – Porquê?

Maxim – Porque nenhum dos nossos grandes campeões, começando pelo Panin-Kolomenkin e terminando na Medvedeva, alguma vez precisaram de treinos por fora e nunca o fizeram. Nenhum. Nem o Plushenko nem o Yagudin.

Elena – Mas isso é precisamente o que o Plushenko está a fazer agora na escola dele – treina não os mais talentosos mas os que podem pagar.

Maxim – Muitos têm-se ocupado de falar sobre os preços que o Plushenko cobra por mês ou por ano, mesmo não sendo muito dinheiro. Para treinar por fora, geralmente um míudo sem talento, os pais normalmente pagam 2.5 a 3 mil rublos por hora. Algumas vezes eles treinam o dia todo, sete vezes por semana. O Plushenko simplesmente tornou pública aquela lista de preços que estava na “sombra”.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Notícias - Volosozhar & Trankov

Antes da temporada 2016/2017 se iniciar, corriam as notícias de que os campões olímpicos de pares Tatiana Volosozhar & Maxim Trankov iriam abdicar de participar no circuito de grande prémio. Foi anunciado que eles iriam adiar o início da temporada e que a sua primeira competição oficial ocorreria nos campeonatos nacionais russos 2016. A ideia era que depois eles intensificassem a preparação para os campeonatos da Europa e do Mundo em 2017. Por altura da semana de testes na Rússia (início de Setembro 2016), a treinadora Nina Mozer disse que Volosozhar & Trankov iriam perder completamente a temporada 2016/2017 mas não adiantou pormenores.
Em 21-09-2016 foi tornado público que Tatiana está grávida de quatro meses. O par está muito feliz. O parto está previsto para Fevereiro. Em entrevista à comunicação social russa, o par não descarta a hipótese de tentar voltar à competição, tendo como objectivo os Jogos Olímpicos de 2018.
Entretanto foi também anunciado que Maxim será um dos patinadores que vão ajudar celebridades russas a aprender a patinar no programa "Ice Age" do canal público russo.


Tatiana Volosozhar & Maxim Trankov
Fonte: revista russa; créditos na foto;

terça-feira, 17 de maio de 2016

Tradução de entrevista de Nina Mozer

A treinadora russa Nina Mozer, conhecida pelo seu trabalho com os campeões olímpicos Tatiana Volosozhar & Maxim Trankov, concedeu uma entrevista interessante ao jornalista Felix Zagrebnoi. Mozer também é treinadora do par Ksenia Stolbova & Fedor Klimov e do par Evgenia Tarasova & Vladimir Morozov. Neste post podem ler a tradução de parte dessa entrevista para português. 
O link original é este: http://rsport.ru/interview/20160510/920608541.html


Entrevista com Nina Mozer

Pergunta (P) - Como é que correu a temporada? O que é que resultou e o que é que correu mal?
Nina Mozer - Foi uma época ambígua. Existem muitas perguntas que eu faço, essencialmente a mim própria. A patinagem artística mudou muito desde os Jogos Olímpicos de Sochi. Mudou no caminho de elementos mais complicados, que actualmente são o maior foco. Nós costumávamos ser ensinados não só sobre coisas profissionais mas também sobre o lado humano - a capacidade de compreender e analisar situações. Eu sei que existem desportos de coordenação como os saltos para a água, ginástica e patinagem artística. Os asiáticos estão a dominar estes desportos. Eles são velozes por natureza. Os seus músculos de velocidade são duas vezes maiores do que os dos europeus. Tudo o que tenha a ver com a rotação e coordenação rápida é muito importante nestes desportos. No que diz respeito a resultados, os que estão a ganhar são chineses nascidos no Canadá, cazaques, chineses e japoneses. Eles fazem coisas únicas. Existem coisas que nós não conseguimos fazer por natureza. O único europeu no pódio é o Javier Fernandez mas ele é latino - os latinos também são um pouco diferentes de nós. Claro que nós temos as nossas tradições mas o que é normal para as pessoas brancas é de um nível diferente. Parece que aquilo em que somos bons já não é competitivo.


P - Então por que é que as nossas meninas andam a ganhar tudo?
Nina Mozer - Como tu sabes, uma mulher russa é capaz de travar um cavalo que vai em velocidade máxima e entrar numa casa em chamas... Nós vemos uma nova campeã todos os anos porque as meninas são muito talentosas. Além disso, a mentalidade dos homens e mulheres orientais é diferente. Se o homem é um lutador, a mulher é uma dona de casa. E também há outro problema: assim que as meninas crescem e entram na puberdade elas mudam e os resultados também. Felizmente, as nossas escolas de patinagem trabalham bem e há uma longa linha de meninas que estão a crescer aqui e daí a esperança de que vamos nos manter no topo. No entanto, as americanas estão logo atrás de nós. 

Nota: fiquei estupefacta com algumas frases de Nina Mozer pois parecem um bocado preconceituosas quanto a etnias e nacionalidades....

P - A Adelina Sotnikova não conseguiu manter-se no topo depois de Sochi
Nina Mozer - Isso é algo pelo qual todas passaram. A Maria Butyrskaya, a Irina Slutskaya. Elas eram raparigas super talentosas e depois passaram por um período em que tudo desapareceu; elas voltaram como mulheres - bem formadas e a saber como lidar consigo próprias, o seu peso, a sua energia e as suas emoções. Tudo precisa de encaixar no seu devido lugar. Podem tornar-se campeãs se tudo se encaixar. Tal como na moda existem Udashkin, Versace e Dior e depois os outros que apenas cosem. É necessário ter talento natural, especialistas com quem trabalhar e a vontade do atleta. 

P - Quão difícil é treinar duas parcerias de grande nível?
Nina Mozer - É uma situação ambígua. Quando estão a patinar todos juntos e se vêem uns aos outros é estimulante. Mas eles não são parceiros de luta, porque nos parceiros de luta um é o líder e o outro está lá para puxar. Aqui todos querem ganhar. Por isso podem ver-se mas nunca patinam ao mesmo tempo. É impossível devido a várias razões que não são para aqui chamadas. Quando tu colocas dois pares iguais na pista ao mesmo tempo, acabas por prestar mais atenção a um do que ao outro mesmo sem ser intencionalmente. Quando surgiu a situação de ter diversas parcerias de topo no grupo, eu tomei a decisão de que eles não iam patinar ao mesmo tempo. Eu passarei mais tempo na pista.

P - Tu não tens um primeiro, um segundo e um terceiro par?
Nina Mozer - É complicado. Tu podes dizer isso dependendo das suas classificações. Mas é uma competição e tudo muda. Eu gosto de todos eles. A Tatiana e o Maxim estão no meu grupo há 6 anos. Eles começaram a patinar juntos no meu rinque, nós começámos este caminho juntos. Stolbova & Klimov também estão junto há 6 anos. Eles chegaram como uma equipa pronta - tinham sido sextos classificados nos campeonatos da Europa mas nunca tinham participado nos mundiais. Eles chegaram a uma equipa com um determinado sistema que lhes permitiu chegar ao topo de forma rápida. Eles tinham ambição e tudo funcionou. Eles chegaram aqui como o par n.º 4  da Rússia; eles tinham que provar que iriam representar o país de forma decente nos Jogos Olímpicos. A competição interna no país foi uma grande alavanca para eles.

P - O que é que podes dizer sobre Tarasova & Morozov?
Nina Mozer - Há uma escola nas montanhas Vorobioevy onde eu sou a treinadora principal. Estes dois cresceram nesse rinque. Eu fico muito surpreendida quando algumas pessoas dizem que eu só trabalho com atletas que já são bons. O Vladimir está comigo há mais de 8 anos. Ele veio aqui fazer testes quando ainda era um rapaz. O seu crescimento e desenvolvimento foi no rinque perante os meus olhos. Estivemos sempre perto. A Evgenia chegou como uma patinadora individual promissora mas sem muito sucesso. Ele mudou-se para a categoria de pares na nossa escola. Eu tive que convencer o treinador dela que a Evgenia era suficientemente decente para patinar e resultou! É o nosso par da casa. Esta temporada eles executaram um quádruplo twist nos nacionais. Nós tentámos um quádruplo salto lançado com o auxílio de cordas (nota: quando aprendem saltos lançados novos as patinadoras costumam estar seguradas por cordas que estão presas a uma estrutura para não caírem e não se lesionarem). É duro mas nós estamos a tentar chegar lá. 

 
Nina Mozer também é a treinadora principal do par Evgenia Tarasova & Vladimir Morozov


P - O que é que lhes falta para se tornarem líderes?
Nina Mozer - Penso que experiência. Esta é apenas a sua segunda temporada no escalão sénior. No primeiro ano eles chegaram à selecção devido às lesões dos outros. Eu fui com eles aos seus primeiros mundiais onde eles conseguiram um resultado fantástico (6.º). É um dos pares mais jovens no mundo. Este ano eles sabiam que eram os reservas. Mas mais uma vez conseguiram ir aos mundiais e foram quintos. Nós falámos sobre isso quando ainda não sabíamos que pares iriam participar nos campeonatos do mundo - haviam lesões. Eu disse-lhes que eles tinham de estar preparados para ir aos mundiais como líderes. Foi duro. Quando eu lhes disse mais ou menos a mesma coisa há dois anos, a Evgenia desligou-se. Foi como quando ela patinava sozinha - ser incapaz de mobilizar todas as suas habilidades no momento necessário. Agora ela já aprendeu. Eu sei exactamente que palavras têm de ser ditas à Evgenia Tarasova antes dela patinar. Eu não estou junto das barreiras mas sei exactamente o que lhe dizer depois do aquecimento. É muito importante.

P - Tu não estavas a planear a ida da Tatiana e do Maxim aos mundiais. Por que é que foi decidido que eles iam participar?
Nina Mozer - A competição principal foi o campeonato da Europa. Quando a selecção para os mundiais foi decidida, sucedeu que a Yuko Kavaguti estava lesionada e que Astakhova & Rogonov ficaram em sétimos nos europeus. Iam existir mais 5-6 pares fortes nos mundiais. Além disso o Fedor Klimov estava lesionado. Então a Tatiana, o Maxim e eu sentámo-nos depois dos europeus e percebemos uma coisa simples: nós podíamos ficar sem lugares suficientes nos mundiais na época pré-olímpica. Então simplesmente começámos a preparação. Não foi para nós próprios mas sim pelo país. 

Nina Mozer à esquerda com Maxim Trankov e Tatiana Volosozhar durante os Jogos Olímpicos em Sochi 2014. À direita da imagem está Stanislav Morozov que na altura era o seu assistente.
  P - A lesão do Klimov foi grave?
Nina Mozer - Nem fazes ideia. Ele quase ficou aleijado. O nosso favorito Jorje Fernandez salvou-nos. Ele foi capaz de trazer o Fedor de volta à vida. O seu ombro ficou pendurado e durante dois meses foi incapaz de levantar o braço acima do nível do ombro. Quando ele foi ter com o Jorje, este telefonou-nos e disse que os músculos do peito e os trícipites do Fedor estavam atrofiados. Nós nem sequer falávamos de continuar a carreira mas o Jorje disse que ia tentar o seu melhor. Tudo aconteceu (a evolução favorável) porque o Fedor é muito paciente. Em Novembro, ele fez qualquer coisa e não podia patinar então o nosso massagista de algum modo conseguiu trazê-lo de volta. O Fedor estava melhor mas ainda havia algo que o perturbava. Em Janeiro, quando os médicos voltaram a colocar as suas vértebras no sítio, soube-se que o nervo estava "quase morto".

Ksenia Stolbova & Fedor Klimov são treinados por Nina Mozer

P - Porquê tantas lesões?
Nina Mozer - Eles são fanáticos, todos eles querem ganhar, querem medalhas, eles têm vontade de tentar e arriscar. A disciplina de pares agora é um risco para a vida. As lesões são horríveis. Olha, na disciplina de pares quase todas as equipas de topo estiveram lesionadas nesta temporada. Especialmente aquelas que arriscaram um salto quádruplo lançado. Uma atleta americana ficou aleijada, uma das chinesas estava a patinar com -8% de visão num dos olhos, a canadiana campeã do mundo queria fazer dois saltos quádruplo lançados mas desistiu disso depois de se ter lesionado nos queixos, a Kavaguti rasgou o tendão de Aquiles fora da pista e que eu penso ser o resultado do quádruplo. Smirnov e ela tinham começado a realizar dois quádruplos. Mas o corpo não é imune.

P - Voltemos aos campeonatos do mundo. O que é que tu pensas do resultado dos nossos pares?
Nina Mozer - Alguns podem dizer que os 4.º, 5.º e 6.º lugares são um falhanço. Por amor de Deus. Sim, não houve medalhas mas os nossos pares ficaram no top 6. Claro que nós queríamos fazer melhor e lutar pelas medalhas; nós estamos habituados a estar no topo mas houveram muitas razões incluindo psicológicas. Deixa-me dizer-te um pequeno pormenor: cinco dias antes de partirmos para os mundiais, nós tivemos de mudar os patins do Maxim - o patim esquerdo estava mau, três dias antes da competição uma lâmina da Tatiana partiu-se. Então nós corremos a comprar patins novos e começamos a patinar com lâminas novas. Eu nem sei o que lhe chamar - destino, má sorte. Mas eles foram buscar a sua força interior para ir lá e lutar.

P - A Tatiana e o Maxim têm motivação suficiente?
Nina Mozer - É sempre uma pergunta difícil. Nós tentamos encontrá-la todas as vezes. Não consigo dar uma resposta mais assertiva. 

P - Há alguma certeza de que eles vão continuar a patinar até aos Jogos Olímpicos?
Nina Mozer - Só Deus sabe. Os pensamentos estão a mudar. Nós assumimos e Deus decide. A vontade existe mas existem coisas que não dependem de nós. Depois desta temporada, em que enfrentei tantos problemas, eu não posso ter a certeza. 

P - Quais são os objectivos dos teus três pares para a próxima época?
Nina Mozer - Nós vamos discutir isso. O seu principal objectivo é vencer, serem competitivos e efectuar os elementos de grande nível. Este ano vou deixá-los decidir eles próprios o que querem fazer. Coreógrafos diferentes. Só a Ksenia e o Fedor é que estão a trabalhar com o Nikolai Morozov. O resto é segredo.

P - Tens seguido os júniores?
Nina Mozer - Este ano não mas no próximo sim. Eu tenho dois pares interessantes: Albina Sokur & Roman Pleshkov e outro par novo interessante - Daria Loboda & Daniil Parkman. Eles podem tornar-se num par ideal. Eles têm três saltos triplos diferentes. Isso é uma coisa séria na disciplina de pares.