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domingo, 3 de setembro de 2017

Tradução de entrevista de Evgeny Plushenko


Evgeny Plushenko é um nome incontornável da patinagem artística mundial. O russo é detentor de quatro medalhas de olímpicas (incluindo duas de ouro), vários títulos mundiais e europeus. Além disso, ele é um dos principais responsáveis pela evolução técnica na categoria de homens e influenciou vários jovens que hoje dão cartas como é o caso de Yuzuru Hanyu. Actualmente, Evgeny Plushenko abraçou um projecto ambicioso, tendo iniciado uma academia, para continuar a sua carreira como treinador.

Apesar das suas responsabilidades como treinador serem recentes, Plushenko surpreendeu toda a gente ao aceitar orientar Adelina Sotnikova (campeã olímpica em 2014).

Entretanto foi anunciado que Adelina não irá competir na temporada 2017/2018 devido a uma lesão que inicialmente ninguém pensava que fosse tão grande.

Recentemente, Plushenko concedeu uma entrevista ao jornalista russo Anatoly Samokhvalov. O original pode ser consultado neste link: https://rsport.ria.ru/interview/20170901/1125084175.HTML

Evgeny Plushenko nos Jogos Olímpicos de Sochi em 2014 onde ajudou a Rússia a conquistar a medalha de ouro por equipas.


 

Tradução de entrevista

Jornalista: Muitos não acreditam que a lesão seja a verdadeira razão pela qual a Adelina vai perder a temporada. Muitos tendem a acreditar que se trata de outra manobra publicitária.

Evgeny Plushenko – É impossível, nós não andámos à procura de publicidade, (…) nem vamos fazê-lo no futuro. Por agora, a Adelina não faz declarações sobre nada mas pensamos que futuramente poderemos mostrar o veredicto dos médicos sobre a lesão dela. Isso pode ser feito abertamente. A Adelina veio ter comigo e estava pronta para treinar a tempo inteiro. Ela tinha um pouco de peso a mais, começámos a perdê-lo e depois aconteceu a lesão. Nós fomos a um espectáculo no Japão e numa noite ela realizou saltos mas passou o resto dos dias sem saltos. Em Itália ela também patinou sem os saltos. Sabes, muitos também não acreditaram em mim sobre se eu voltaria ou não… Se houve ou não uma cirurgia… Há tantas pessoas más. As pessoas bem-sucedidas não são muito amadas. Há uns dias eu disse à Adelina “Nós temos de provar que estamos no desporto. Ficando saudáveis.” Talvez ela até venha a participar em algumas pequenas competições nesta época.

Jornalista: Esta temporada?

Evegny Plushenko – Depois dos Jogos Olímpicos. Bem, talvez não. Talvez na próxima temporada. E depois vamos prepararmo-nos para as competições principais. Ela disse que está preparada. E deixa-me dizer-te que psicologicamente ela está preparada, ela tem vontade de competir. O principal agora é curar a lesão. Eu disse-te, ela sofreu um diagnóstico errado – primeiro os médicos disseram que foi um esticão no ligamento mas na verdade foi quase uma ruptura. E um pequeno osso partido. Agora estou à espera das radiografias que enviarei para os meus médicos na Alemanha. Para pessoas que eu conheço. Depois disso eu enviarei a Adelina para lá para ser tratada.

Jornalista: Ainda é muito prematuro falar sobre o tempo que isso demorará?

Evgeny Plushenko – Muito prematuro.

Jornalista: Muitos dizem que o que está a acontecer com a Sotnikova é uma cópia do que aconteceu contigo. Primeiro houve uma promessa grandiosa e depois foi adiada. Claro que sem saber a tua situação ao pormenor, eu tendo a pensar que vale apenas continuar como atleta na equipa porque é bom para promover o teu espectáculo.

Evgeny Plushenko – Disparates. Eu não precisei de ficar no desporto por causa disso. Durante a minha carreira, eu fui desqualificado por um ano depois dos Jogos Olímpicos de 2010 porque as minhas relações com a federação eram “assim assim”. Eu voltei depois, retirei-me novamente e regressei outra vez. Se o que tu estás a dizer fosse só para promoção, eu não me tinha preocupado em regressar. Eu teria-me retirado e prometido “Eu volto, eu volto” sem fazê-lo de facto. Mas eu voltei e competi com uma lesão horrível depois da cirurgia. A Adelina, olhando para o meu exemplo, veio até mim e disse “Tu sabes como recuperar e regressar. Eu quero trabalhar contigo.” Eu disse “Ok, sem problemas, tudo bem.” Sim, não resultou este ano, tudo bem, ela é jovem! Ela pode patinar durante o tempo que ela quiser. Quanto a eu manter-me no desporto para promover os meus espectáculos… disparate! Eu passei 30 anos no desporto, só o meu nome é suficiente para a promoção.

Jornalista: Então por que é que não te retiraste de uma vez por todas?

Evgeny Plushenko – Porque eu queria muito participar nos Jogos Olímpicos pela quinta vez. Eu estabeleci um objectivo – atingir um novo recorde, algo que nunca ninguém tivesse feito. Não resultou. Mas foi um sonho! Eu vivi-o, foi uma grande história. Uma super história, surreal. Mas quando eu comecei a treinar o triplo axel, os quádruplos, infelizmente as 15 cirurgias recordaram-me que elas aconteceram. 15! As minhas costas não me permitiram continuar e eu retirei-me. E eu fi-lo sem o drama que alguns fizeram. Sem nenhum espectáculo épico com lágrimas no palco. Alguns choram em público, eu apenas comecei uma nova vida. Abri a escola e trabalho com a minha grande equipa. Os meus espectáculos continuam – 23 datas do “Quebra-Nozes”, 6 datas do “Snow King”; brevemente nós teremos 10 espectáculos na Europa e 42 no Japão.

Jornalista: Nada mal.

Evgeny Plushenko – Está tudo bem.

Jornalista: Quando é que apareceu o momento “É isto. Acabou”?

Evgeny Plushenko – Eu tinha uma rotina de treinos, chegava ao balneário, sentava-me e não era capaz de prosseguir. As minhas costas doíam-me. Eu olhei-me ao espelho e perguntei-me “Para quê? Para que é que eu estou a mentir?” Eu podia continuar e dizer que me ia preparar para os Jogos Olímpicos mas naquele momento eu parei de acreditar nisso. “É isto. Os meus dias como atleta acabaram” e eu comecei a dar treinos.

Adelina Sotnikova


Jornalista: Tu precisavas da Sotnikova para patinadora de topo no teu grupo?

Evgeny Plushenko – Ela veio ter comigo. E não o contrário. Eu não a pedi nem implorei. Ela telefonou-me e disse “Zhenya, eu quero encontrar-me contigo”. Eu disse para ela aparecer na escola. Então ela disse essas palavras.

Jornalista: “Tu sabes como recuperar e regressar. Eu quero trabalhar contigo”?

Evgeny Plushenko – Sim. Mas eu tinha uma condição. Se tu estás preparada para trabalhar a tempo inteiro, então vamos fazer isto. E foi isto.

Jornalista: Tu ficaste surpreendido quando ela te abordou com estas palavras?

Evgeny Plushenko – Não. Ela participou nos meus espectáculos e eu vi o seu estado de espírito. Sabes, mesmo num espectáculo é óbvio quando tens um actor ou um atleta à tua frente. Nessa altura, eu falei com ela sobre os seus planos para o futuro e ela foi severa “Eu vou competir”. Eu disse-lhe “É muito duro. Muitíssimo duro”. Ela insistiu. Eu disse-lhe abertamente “Adelina, o mais importante é que a nossa decisão de ficar de fora nesta temporada não caia em saco roto. Nós temos de ir e competir na próxima época. Nós poderemos fazer pequenas competições. Eu comecei assim. Como em Riga. Depois as principais.” Eu sei como sair da situação em que a Adelina está agora. Mas há tanta conversa negativa à nossa volta.

Jornalista: Especialmente no nosso país.

Evgeny Plushenko – Especialmente. Todos esses “profissionais” que sabem mais do que nós. Na minha escola, eu deixo os pais assistirem aos treinos e deixa-me dizer que eles acham que sabem mais do que os treinadores. Na técnica, na coreografia – em tudo. Os pais sabem mais do que eu. Eles ficam ali e controlam os seus miúdos. Mas nós estamos a tentar mudar isso.

Jornalista: Muitos treinadores não permitem a presença dos pais nos treinos.

Evgeny Plushenko – Eu ainda não sinto que devo fazer isso. Eles que vejam. Por enquanto.

Jornalista: Eu percebi da tua explicação que enquanto trabalhavas com a Adelina num espectáculo, tu estavas a tentar perceber se ela precisa do desporto.

Evgeny Plushenko – Eu estava a tentar entender. O desporto profissional tem uma rotina muito exigente. Tu só treinas e mais nada. Quando a Adelina veio ter comigo, ela compreendeu a necessidade de se focar apenas no desporto.

Jornalista: Tu achas que ser tão requisitada para espectáculos e anúncios comerciais faz com que seja possível que ela volte à pista para ser uma atleta?

Evgeny Plushenko – Qualquer um pode regressar. O mais importante é que o atleta o queira por si próprio.

Jornalista: Ela terá de desistir de alguma coisa?

Evgeny Plushenko – De tudo.

Jornalista: De tudo o que ela tem agora?

Evgeny Plushenko – Claro. Ela não terá o direito de se desviar nem para a esquerda nem para a direita. Se tu és um atleta tens o treino matinal, descanso, treino do dia, descanso, treino nocturno, descanso. É isto. Isto é tudo o que tens.

Jornalista: Esta lesão está a convencê-la a desistir?

Evgeny Plushenko – Eu continuo a ver como ela está determinada.

Jornalista: Eu não consegui entrevistá-la. Quando ela declinou uma entrevista em Dezembro no ano passado, eu não sei porquê mas eu gritei nas costas dela “Vais regressar!” e ela respondeu “Com certeza”.

Evgeny Plushenko – E ela quis mesmo dizer isso. Ela tem um grande estado de espírito. Mas para voltar a ter o nível anterior, ela precisava de um ano de treinos. Um ano e ela voltará a ser competitiva com as miúdas que estão a patinar agora.

Jornalista: Para a Elena Buyanova, a anterior treinadora, a participação da Sotnikova no “Ice Age” foi uma surpresa.

Evgeny Plushenko – Eu penso que elas devem ter tido um mal-entendido porque, claro está, o treinador deve estar a par de tudo o que se passa com o atleta. Se elas tinham um plano então não deveria ter existido a participação no “Ice Age”. Os espectáculos deviam ter sido reduzidos ao mínimo e mesmo assim ela deveria ter patinado os programas curto e livre em vez de números de exibição. Então teria sido benéfico. O “Ice Age” não foi.

Jornalista: Se a Sotnikova for ter contigo e disser “Eu quero participar num programa de televisão”?

Evgeny Plushenko – Eu não irei continuar a treiná-la.

Jornalista: Esta Terça-feira tu estreaste-te como treinador numa competição. A Ksenia Pankova participou na competição júnior de Moscovo. Estás satisfeito?

Evgeny Plushenko – Com os elementos sim mas ela foi vagarosa em algumas ocasiões. Nós temos de dar-lhe mais velocidade. Anteriormente, ela costumava desmanchar muitos saltos; nós trabalhámos nisso e eu estou feliz. Ela efectua um duplo axel+meia volta+triplo flip e duplo axel+triplo toeloop no programa livre. Agora nós estamos a trabalhar no quádruplo salchow e espero que, no próximo ano, ela o faça nas competições. Nesta temporada, nós temos de mostrar que não somos piores do que os outros. Eu estou muito satisfeito com a equipa de treinadores e o David Avdysh trabalhou nos programas.

Jornalista: Tu também treinas o Vladimir Samoilov de 18 anos. Por que é que precisas de um patinador adulto?

Evgeny Plushenko – Olha, nós trabalhamos com que vem ter connosco. O Vladimir tem feito o quádruplo flip e ele tem o quádruplo salchow. Ele integra esses saltos no seu programa livre. Por que razão é que eu não haveria de trabalhar com ele? Sim, ele não é consistente mas ele trabalha comigo apenas há um mês e, no decorrer desse mês, ele aprendeu o quádruplo flip. Eu penso que é um resultado decente.

Jornalista: Alguns demoram tempo a habituarem-se a ser treinadores. Como é que te sentes?

Evgeny Plushenko – Eu apenas comecei e estou a gostar. Deve resultar para mim – é o meu caminho, nada mudou.

Jornalista: De que é que terás de abdicar?

Evgeny Plushenko – De nada.

Jornalista: Como assim? A Adelina terá de abdicar de tudo e tu de nada?

Evgeny Plushenko – Eu passo muito tempo com os meus espectáculos enquanto os treinadores permanecem aqui. Nós temos uma grande equipa e eu estou-lhes grato. Quando eu estou na Rússia, sou eu que dou os treinos, quando não estou, eu vejo os treinos através das câmaras que transmitem para o meu telefone. Depois falo com os atletas no Skype. Aliás, eu levei a Ksenia Pankova para um espectáculo no Cazaquistão e ela patinou e treinou lá. Eu não planeio mudar nada este ano e participarei em todos os espectáculos agendados.

Jornalista: É possível influenciar a preparação de um patinador à distância?

Evgeny Plushenko – Bem, parece funcionar por agora; veremos o que é que o futuro nos reserva.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Tradução de entrevista da treinadora Elena Buyanova

Elena Vodorezova Buyanova é uma lenda viva da patinagem artística russa. Nos seus tempos de atleta, Elena patinou na categoria de individuais femininos em representação da União Soviética. Talento precoce, Elena participou nos Jogos Olímpicos de Inverno em 1976, com apenas 12 anos de idade. Uma doença brutal obrigou-a a terminar a carreira competitiva. No entanto, ela nunca se afastou completamente da patinagem artística e construiu uma carreira de respeito como treinadora. O seu maior feito terá sido o de levar Adelina Sotnikova ao título olímpico em 2014. A relação com Adelina azedou depois disso e nesta entrevista ela fala bastante sobre a sua antiga pupila que agora está integrada na Academia de Evgeny Plushenko. Actualmente, Elena Buyanova é a treinadora responsável por Elena Radionova e Maria Sotskova.

O link original pode ser consultado aqui: http://www.sport-express.ru/se-velena/reviews/elena-buyanova-nam-s-sotnikovoy-nuzhno-bylo-perestat-sebya-obmanyvat-1297646/

Aviso: as marcações em itálico são notas feitas por mim para ajudar a contextualizar algumas coisas. 


Tradução de entrevista


A entrevistadora não perdeu tempo e começou logo por tocar na ferida: a quebra de confiança entre Adelina Sotnikova e Elena Buyanova.

Pergunta: Quando um atleta toma a decisão de mudar de treinador, há sempre um momento anterior em que a relação que existia esfria, um afastamento. A mudança da tua pupila para o Evgeny Plushenko foi algo inesperado para ti ou no fundo já sabias que isso acabaria por acontecer?

Elena Buyanova – Tudo acontece por uma razão. Eu penso que o primeiro momento em que fui atingida, como treinadora, foi a lesão da Adelina em 2015. Anteriormente, ela nunca tinha sido afectada por lesões graves. Nunca. A Sotnikova foi sempre não apenas muito disciplinada e trabalhadora como também estava em boa forma – não tinha um único ponto fraco no seu corpo. Os problemas começaram depois de uma pausa nos treinos. A Adelina começou a ser convidada para vários eventos; eu não me importei mas sempre disse: tu é que tens de decidir o que é que queres. Ela sempre respondeu que queria patinar. Enquanto treinadora, eu vi claramente o que queria fazer, e como, com a Adelina no futuro. Mas um ano mais tarde eu percebi que existiam certas coisas que não me estavam exactamente a aborrecer mas…

Pergunta: Querias mais clareza?

Elena Buyanova – Isso em primeiro lugar. Tu sabes que tipo de regime é que um atleta tem de cumprir para permanecer competitivo. Nós, por outro lado, tínhamos uma espécie de caos. Nós decidimos em conjunto que precisávamos de competir pelo menos nas competições de categoria B e nós criámos grandes programas. Claro que foi difícil para a Adelina. Ela ganhou peso. Não muito mas o suficiente para lhe causar dores nas costas quando ela treinava. Mesmo assim, ela trabalhou arduamente e queria competir. O assunto “Ice Age” não estava fora de questão. Eu sei que a Sotnikova estava sempre a ser convidada para participar e ofereceram-lhe muito dinheiro. Mais do que isso, nós discutimos esse assunto e eu pensei que a decisão estava tomada. Lembraste de quando eu e tu falámos sobre quão difícil é para um atleta campeão olímpico arranjar uma nova motivação para continuar? Na altura eu estava sempre a pensar nisso. Eu estava tão feliz quando nós apresentámos os planos para a nova temporada depois da semana de testes em Setembro: não fui eu mas sim a Adelina que deu voz à sua vontade de patinar e de competir. Então nós apresentámos os planos e literalmente poucos dias depois, quando regressámos a Moscovo vindas de Sochi, a Adelina disse que ia participar no “Ice Age”. Para mim isso foi… o ponto final, acho eu. Tu sabes que há um limite na confiança porque… bem, tem os seus limites.

“Ice Age” é um programa super popular na Rússia e é transmitido no canal estatal. Nesse programa, patinadores famosos formam parceria com personalidades artísticas de primeira linha e têm de patinar diversos temas em conjunto. As audiências são enormes e depois também existem digressões pelo país, normalmente sempre com lotação esgotada.


Vídeo de uma das actuações de Adelina Sotnikova no programa "Ice Age" com um famoso actor russo.




Adelina Sotnikova


Pergunta: Tu já pensaste que também podes ter culpa? Talvez não tenhas estado junto da tua pupila no momento em que ela precisou de ti, não disseste as palavras certas, se calhar não foste suficientemente dura?

Elena Buyanova – Eu pensei. Provavelmente devia tê-la pressionado mais e ter sido mais dura. No entanto, eu permiti que a atleta fizesse o que fez e claro que é culpa minha. Mas eu não podia ter feito diferente – eu vi como a Adelina estava a amar tudo aquilo. Durante muitos anos ela não pôde viver uma vida normal ou fazer o que queria. Ela é uma boa menina, muito amável e compassiva. Como um dos nossos treinadores disse uma vez: podias aplicar a Sotnikova nas feridas e elas curavam-se. Para que saibas o que é que acontece: estabeleces um objectivo, alcanças o objectivo e depois soltas-te um pouco. Parece fácil: basta dar um passo atrás e regressas à tua vida antiga. Só que isso não é verdade.


Pergunta: No início da nossa conversa tu disseste que sabias para onde orientar a Adelina. Quais eram os teus planos?

Elena Buyanova – A Adelina tem um potencial técnico muito elevado. Ela podia realizar um toeloop quádruplo mas o seu corpo tinha de estar preparado.

Pergunta: Porquê um toeloop quádruplo e não um triplo axel?

Elena Buyanova – Nós tentámos o triplo axel antes dos Jogos Olímpicos. A rotação da Adelina não era má mas o seu toeloop era melhor. Então eu pensei que talvez fosse mais fácil acrescentar uma volta ao toeloop. Além disso, pode-se dizer que a Adelina tinha esse objectivo. Em todos os momentos, eu sempre quis que ela se destacasse na sua patinagem – então eu mandei-a dançar quando a perna dela estava a sarar depois da lesão. A Adelina mexe-se bem e ela frequenta aulas de dança jazz desde a infância, ela sabe isso tudo. Ela tem participado nos nossos espectáculos desde criança – ela sempre esteve no palco. Todos os coreógrafos com quem ela trabalhou ficaram surpreendidos como ela aprende as coisas tão depressa – eles nunca tiveram de fazer explicações longas. Então eu sempre soube que a Adelina não se ia perder. Eu só queria que ela tivesse escolhido outro caminho e não o que ela está a fazer agora. Por outro lado, eu estou feliz por ter sido capaz de desenvolver uma atleta que, para além dos seus resultados grandiosos, é requisitada e pode se desenvolver profissionalmente. O resto é com a Adelina e quanto mais ela quererá. Esse é o seu caminho agora.

Pergunta – Não há muito tempo, eu estive a falar com um dos membros da equipa que venceu o ouro nos Jogos Olímpicos de Sochi que disse que participar em espectáculos tem dois lados. Por um lado estás a patinar e ganhar nova experiência mas o sentimento de ter dinheiro fácil muda-te. O atleta começa a perceber rapidamente que os treinos são duros e entediantes e nunca se sabe qual será o resultado. O espectáculo é fácil – patinas e és pago.

Elena Buyanova – Há espectáculos em que tu estás a prolongar o processo de treino e a desenvolver-te. Olha para os japoneses – eles patinam os seus programas com todos os saltos. Por que é que eu enviei a Sotnikova para um espectáculo de dança depois da lesão? Para que ela não ficasse parada mas trabalhasse a todo o gás. Ela recuperou mais depressa e a Adelina mudou no gelo; ela tornou-se diferente. Mesmo mais tarde eu disse-lhe muitas vezes: se tu participares num espectáculo torna os programas mais difíceis, ultrapassa-te, caso contrário vai ser muito complicado regressar. Há patinadoras boas na nossa equipa.

Nesta resposta Elena Buyanova refere-se ao facto de Adelina ter participado na versão russa do programa “Dança com as Estrelas” que tem um nível de exigência técnico muito elevado. Adelina fez um enorme sucesso nesse programa e terminou na segunda posição.

Video de uma das prestações de Adelina no programa "Dança com as Estrelas"

Pergunta: Quando é que tu achas que a Adelina atingiu o ponto de não retorno ao grande nível?

Elena Buyanova – Geralmente os atletas não entendem essas coisas. É sempre difícil retirar-se e avançar para o desconhecido – é como cair de um penhasco. Tu nunca vais conseguir fazer as coisas sozinho a menos que te empurrem. Eu vi muitos atletas que estavam prontos para retirar-se mas que não tomavam o último passo e regressavam. Não há muitos que se tenham mudado para uma nova vida assim de repente. Tu tens razão: quando há muitos espectáculos tudo descarrila. Os atletas param de ser exigentes. Eles deixam de entender que se entras na pista como campeão olímpico tens de estar a esse nível.

Pergunta: Estás a dizer que isso foi o que aconteceu com a Adelina?

Elena Buyanova – Infelizmente…

Pergunta: Quando o teu pupilo Maxim Kovtun se mudou para o grupo de Inna Goncharenko, tu contaste como era doloroso ver o teu atleta todos os dias a ser treinado por outra pessoa. Agora a situação é a inversa: tu concordaste em aceitar a Elena Radionova compreendendo que a Inna Goncharenko também ia sentir o mesmo. Por que é que fizeste isso?

Elena Buyanova – Eu não aceitei a Radionova por vingança. Ela pediu-me para se juntar à equipa e disse que estava pronta para trabalhar. Isto não foi sobre uma atleta que veio de fora. A Lena cresceu na nossa escola e, em muitas coisas, perante os meus olhos; eu sei que tipo de lutadora ela é e como ela pode patinar. Não importa os termos em que coloques a questão – é a nossa escola e são as nossas crianças.

Referência ao facto de tanto Elena Buyanova como Inna Goncharenko fazerem parte do quadro principal de treinadores do mesmo clube em Moscovo.

Pergunta:  Quando o Kovtun te deixou, eu não me lembro de teres falado na “nossa escola, as nossas crianças, não importa qual é o treinador”.

Elena Buyanova – Como líder do CSKA, eu podia ter impedido essa mudança de treinadora. Sim, foi difícil para mim. Mas se o meu atleta fez a escolha por que é que deveria impedi-lo?

Pergunta: Tu aceitaste a Radionova imediatamente?

Elena Buyanova – Não, eu pensei um pouco sobre isso. O que eu gostei foi que a Lena não estava a tentar desculpabilizar-se do que se passou na temporada anterior. O treinador não é um deus, nem sequer o mais genial. O atleta é igualmente responsável.


Elena Radionova


Pergunta: Tu nunca tiveste dúvidas que a Maria Sotskova, que estava a trabalhar contigo há cerca de um ano, ia reagir bem? Que, por assim dizer, ela podia ter levado isso a peito e ter ido procurar uma equipa mais confortável?

Elena Buyanova – Eu duvido que actualmente tenhamos atletas que possam ditar as regras quanto aos treinadores. Pelo menos eu não consigo compreender uma situação dessas. Obviamente que a Sotskova esteve um pouco desconfortável especialmente porque, depois dos Europeus, houve conversas sobre ela ser substituída pela Radionova. Isso foi falado a toda a hora. Mas eu penso que isso tornou a Maria mais forte e eu não vejo nada de errado nisso. Além de que o Javier Fernandez e o Yuzuru Hanyu treinam juntos – isso torna-os menos bons? Olha a Eteri Tutberidze: ela tem a Zagitova que cresceu na sombra da Medvedeva, que por sua vez estava a patinar na sombra da Lipnitskaya. Tu perguntaste-me sobre a Sotskova – não é certo que ela esteja desconfortável com a Radionova. A Elena não só entrou numa situação complicada mas numa das mais difíceis pois sabe que ninguém lhe dará atenção exclusiva. Se eu tiver de comparar as duas atletas, é mais difícil para a Lena porque ela praticamente perdeu um ano, ela tem de recuperar e isso dá muito trabalho. Quando o atleta ainda é uma criança e começa a vencer, é só trabalho, trabalho, trabalho. Por exemplo, o primeiro toeloop, o primeiro axel, o primeiro lutz, depois as combinações – coisas que são comuns a todos. No entanto, nós estamos num ponto em que nós podemos decorar os programas. Como uma árvore de natal.

Pergunta: Nos últimos dois anos, o mundo da patinagem artística só fala sobre a Rússia ter a Evgenia Medvedeva e que ela é imbatível. Eu penso que muitos atletas se sentem desencorajados pensando se é possível bater a Medvedeva. E os treinadores? Tu às vezes pensas que é impossível bater a Medvedeva?

Elena Buyanova – Tu sugeres que nos sentemos à espera que a Evgenia se retire? Bem, mais alguém há-de aparecer. Se um atleta tem a reputação de ser imbatível, enquanto treinadora eu sempre respeito isso. Mais do que ninguém, eu sei o quanto isso requer muito trabalho. O meu objectivo é ter a certeza que os meus patinadores competem com o líder e não que apenas partilhem o gelo na mesma competição. Eu adorei a entrevista recente do Shoma Uno onde ele diz que gosta de ser o perseguidor. É óptimo quando a pessoa não se sente apenas a chegar ao mesmo nível, mas sim a perseguir. Claro que aqueles que se tornam líderes marcam a fasquia. Mas isso não significa que não podes ultrapassá-los. O líder é aquele que quer mais, trabalha mais e ultrapassa mais. Essas pessoas tornam-se as primeiras. Quando os atletas se contentam com o que têm tornam-se medíocres.  Francamente, eu não entendo por que é que se trabalha tanto para depois ser medíocre. Eu nem sequer estou a falar de mim própria. Afinal treinar é a minha profissão e eu fiz essa escolha já adulta. Mas eu sempre tento explicar a todos aqueles que eu treino: quando tu és medíocre, tu não és ninguém. Talvez seja por isso que eu sou tão exigente – eu andei nesse caminho muitas vezes e eu sei como pode ser assustador retirar-se quando há um vazio por dentro e um sentimento de falhanço. Agora a Medvedeva tem um objectivo – garantir que ninguém a apanha. Ela tem de tornar-se melhor, ainda mais interessante. No entanto, eu sei que há pessoas que pensam “Ainda melhor? Para quê?”.

Pergunta: Quão sério é o desafio das canadianas Osmond e Dalleman?

Elena Buyanova – Eu gosto das duas: fortes, saltadoras, muito femininas e isso é uma grande vantagem. É um tipo de patinagem que eu sempre gostei: eu sempre gostei que os saltos não sejam grandes mas enormes. Então as duas podem ser perigosas nos Jogos Olímpicos. Nós não devemos subestima-las.

Pergunta: Falando nos Jogos Olímpicos: tu não vês que não importa o quanto Sotskova e Radionova trabalhem pois, no actual estado competitivo das senhoras, as duas podem ficar de fora da equipa?

Elena Buyanova – É algo para que todo o treinador tem de estar preparado. Eu só quero que os meus patinadores não percam as oportunidades que tiverem. É para isso que nós trabalhamos – não perder as oportunidades. Há um ano muitos duvidavam que a Sotskova conseguia qualificar-se para a final do circuito do grande prémio – eu vi a dúvida nos seus olhos. Mas quando nós apresentámos os planos, a própria Maria disse “Eu vou conseguir”. Quando ela começou a trabalhar eu fiquei maravilhada com a sua determinação. E imediatamente acreditei que a miúda ia conseguir. E depois aconteceram os campeonatos nacionais da Rússia e a Maria trabalhou como uma louca para se preparar.

Pergunta: E depois ela já não tinha mais energia?

Elena Buyanova – Eu diria que ela “expirou” ligeiramente depois de se ter qualificado para a equipa. Mas houve momentos específicos. No Inverno, a Maria esteve doente durante duas semanas e, claro está, o pensamento de que ela poderia ser substituída estava a pressioná-la. Apesar da sua técnica base ser muito boa, ela tem de trabalhar mais duro que outras patinadoras porque é muito alta.

Pergunta: Há alguma possibilidade da Sotnikova querer voltar a patinar e perguntar-te se pode regressar ao teu grupo?

Elena Buyanova – O que é que queres dizer com “querer patinar”? É o que ela diz. Ela está a preparar-se para os testes.

Pergunta: Apesar do facto de ela, assim que se mudou para o Plushenko, ter imediatamente rompido um ligamento?

Elena Buyanova – A lesão não tem nada a ver com isso apesar de ter sido séria. Quando o atleta revela à imprensa coisas sobre os novos programas e os planos mas não declina todos os outros eventos, é óbvio que os planos para regressar não devem ser levados a sério. Nada acontece assim no desporto.

Pergunta: Ainda estás chateada com a Adelina por ela te ter avisado da mudança para o Plushenko por sms?

Elena Buyanova – E não o escondo. Mas isso não é o ponto. Eu conheço a Adelina muito bem, se calhar ainda mais que a mãe dela. Em algumas coisas elas ainda é uma criancinha. É algo que todos os grandes atletas têm em comum: eles acreditam piamente que eles conseguiram tudo sozinhos. Eles não compreendem nem querem entender que o resultado é obtido parcialmente graças ao treinador que os puxou durante anos, que os levou aonde eles não conseguiam chegar sozinhos. Quando a Adelina e eu entrámos naquele período de falta de comunicação, ela uma vez disse-me “vais ter dificuldades comigo”. Eu respondi “E tu achas que alguma vez foi fácil contigo”. Houve uma altura em que eu pensei que não havia nada de novo para mim na patinagem artística. Que eu nunca ia ter atletas mais difíceis para trabalhar do que aqueles que eu já tinha tido. Que os próximos seriam mais fáceis. E depois aparece mais alguém e tu percebes como eles são todos diferentes. Que tu não podes aceitar alguém e simplesmente “copiar/colar” o trabalho anterior. Pelo menos eu não consigo fazer isso. Todos são diferentes; uma experiência diferente. E isso faz-te evoluir. Quando ao regresso – nós já passámos por isso e vimos o que aconteceu. Como eu disse, os limites da confiança foram quebrados. Eu não amo a Adelina menos do que antes; ela ainda é preciosa para mim como uma atleta com quem eu fiz uma longa e complicada viagem mas já não há volta a dar. Nós raramente nos vimos durante o ano passado por causa de todos esses espectáculos e treinar alguém entre espectáculos é algo que eu nunca faria. Eu não consigo acreditar que a Adelina realmente queira regressar. Eu não acho certo continuar a enganar-se a mim e a ela própria.

Pergunta: Se calhar é muito mais fácil? A Sotnikova, sabendo como tu és exigente, como tu metes a fasquia muito alto, teve medo de não conseguir estar à altura das expectativas? Tens de concordar que seria difícil regressar à equipa onde outra patinadora está a alcançar o topo de forma e onde não te sentirias igualmente boa. Ela tem alguma auto-estima.

Elena Buyanova – Eu penso que no fundo ela não conseguia partilhar-me com a Maria. Ela estava à espera que eu recusasse os outros todos por ela.

Pergunta: E?

Elena Buyanova – E que a convencesse a patinar. 

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Notícias da Rússia - A caminho da semana de testes

A semana de testes na Rússia é um dos momentos mais aguardados do início de temporada e este ano não é excepção.
Durante a semana de testes, os patinadores que fazem parte do grupo de elite e os que são os principais candidatos a um lugar na selecção nacional do país tem de apresentar-se perante os responsáveis da federação russa e de um conceituado grupo de especialistas. Os testes de 2017 irão realizar-se na cidade de Sochi. Aí, os patinadores terão a oportunidade de mostrar os programas que pensam patinar para a temporada 2017/2018. Todos os programas são sujeitos a avaliação. Consoante a avaliação, os patinadores e as suas respectivas equipas técnicas terão um prazo para realizar melhorias nos programas antes de poderem competir em competições internacionais. Na semana de testes, os patinadores também terão a hipótese de apresentar algum elemento novo em que tenham trabalhado durante a época baixa.
Entretanto já se sabe que o par Ksenia Stolbova & Fedor Klimov não irão apresentar-se na semana de testes. Fedor foi submetido a uma operação cirúrgica há cerca de um mês e ainda está em recuperação, sendo que há certos elementos que ele ainda nem sequer pode arriscar, nomeadamente o twist e as figuras de elevação. Como Ksenia e Fedor têm uma justificação médica para a falta de comparência nestes testes, é possível que sejam avaliados em privado assim que for possível. Consta que este par planeia iniciar o seu calendário competitivo no Troféu Finlândia.

Fedor Klimov está a braços com mais uma lesão complicada


Quem também ficará de fora da semana de testes é o famoso par Tatiana Volosozhar & Maxim Trankov. Tatiana e Maxim têm estado a patinar no espectáculo “Romeu e Julieta” produzido pela companhia de Ilya Averbukh e duvido que tenham tido tempo de preparar novas coreografias. Além disso, esta falta de comparência na semana de testes parece indicar uma coisa que já muitos suspeitam: Tatiana e Maxim não voltarão ao circuito competitivo.

Tatiana Volosozhar & Maxim Trankov


Adelina Sotnikova e Julia Lipnitskaya foram figuras maiores no Jogos Olímpicos de Sochi e arrebataram corações. Quem estava à espera de vê-las na semana de testes desengane-se. Julia e Adelina não irão marcar presença. No caso de Julia, tudo aponta para o final de carreira na patinagem de competição (pelo menos como individual). Adelina continua a trabalhar sob a orientação de Evgeny Plushenko mas é possível que ainda não esteja pronta para regressar.


Adelina Sotnikova


Na categoria masculina destaca-se a ausência de Artur Dmitriev Jr. pois a própria federação impediu a sua participação! Não sei qual é a justificação para este impedimento mas espero que não seja uma punição disciplinar.


Na categoria de dança aguarda-se com alguma ansiedade a confirmação da presença de Elena Ilinykh e Anton Shibnev. 

Elena Ilinykh & Anton Shibnev
(Fonte: Instagram)

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Tradução de entrevista de Tatiana Tarasova

A lendária treinadora Tatiana Tarasova concedeu uma entrevista a uma jornalista russa Elena Sobol em que respondeu às questões com a sua habitual frontalidade. Tarasova não se coibiu de demonstrar a sua falta de esperança em Adelina Sotnikova e Julia Lipnitskaya, para além de apontar o dedo a Maxim Kovtun e Mikhail Kolyada. Podem ler a tradução aqui em baixo e espero que gostem do trabalho.



Elena Sobol – Tatiana Anatolievna, o que é que tem feito durante o interregno entre temporadas?

Tatiana Tarasova – Estou de férias até ao meio de Julho e depois tratarei de coisas referentes ao meu trabalho como comentadora. Eu vou aprender coisas novas para poder comentar no futuro – as regras vão ser um pouco modificadas. Eu também estarei presente em alguns seminários para juízes para obter a informação correcta que depois vou processar e projectar para os telespectadores. Os telespectadores são diferentes. Agradeço-lhes por me adorarem como comentadora. Eles enviaram-me tantas mensagens que eu senti-me apoiada e amada.

Elena Sobol – E com razão.

Tatiana Tarasova – Eu tenho de corresponder então estou a planear reunir nova informação antes dos Jogos Olímpicos. Eu planeio ir aos rinques em Julho, ver os testes. Os testes dos juniores em Agosto e os testes dos seniores em Setembro em Sochi. Eu penso que o tempo antes da temporada começar vai passar muito depressa.

Elena Sobol – Algum patinador pediu a sua ajuda antes da temporada Olímpica?

Tatiana Tarasova – Não. Os nossos patinadores estão acompanhados e eu nem sequer estou a considerar os pedidos de patinadores estrangeiros, apesar de terem havido alguns.

Elena Sobol – Porque é a época Olímpica?

Tatiana Tarasova – Porque eu decidi assim.

Elena Sobol – E que é que vai apoiar?

Tatiana Tarasova – Eu já apoiei quem tinha de apoiar.

Elena Sobol – O que é que a fez feliz e o que é que a chateou na temporada passada?

Tatiana Tarasova – A época acabou e não vale a pena discutir. Todos estão a descansar. Vai haver uma época nova e um novo frenesim. O meu falecido pai costumava dizer “Olha para a frente. Vai em frente”.

Elena Sobol – E o que há em frente?

Tatiana Tarasova – Os Jogos Olímpicos. Eu espero uma luta para entrar na selecção. Os 30mx60m vão decidir. A nova temporada vai começar e os patinadores irão alcançar novos objectivos.




Elena Sobol - Você pensa que Medvedeva vai conseguir? Ela vai ter de provar que ela é a líder.

Tatiana Tarasova – Nós vamos ter de esperar e estar agradecidos pelo que ela e a Eteri Tutberidze têm feito a cada ano. Eu vou debater isso.

Elena Sobol – Você gosta da Medvedeva?

Tatiana Tarasova – Como não posso gostar? Ela é bicampeã mundial.

Elena Sobol – Você acredita que Adelina Sotnikova, campeã olímpica em 2014, irá regressar ao seu nível anterior?

Tatiana Tarasova – Não.

Elena Sobol – Você acredita no Plushenko como treinador?

Tatiana Tarasova – Quando ele der provas então eu acreditarei.




Elena Sobol – A Alina Zagitova está prestes a começar a sua carreira sénior. Ela e a treinadora vão decidir se ela irá tornar-se sénior nesta temporada.
Tatiana Tarasova – Eu falei nisso desde que vi a Alina. Eu disse que aquela menina, estando a patinar e a progredir como tem feito, pode vencer os Jogos Olímpicos. Ela é muito interessante e tem um potencial enorme.

Elena Sobol – Ela deve precipitar as coisas?

Tatiana Tarasova – Ela tem uma boa treinadora que deve responder a essa pergunta. Guardar-se como aconteceu com Stolbova & Klimov nunca devia ser feito. 

Elena Sobol – A Elena Radionova mudou-se para o grupo de Elena Buyanova. Esta vai ser uma relação de trabalho interessante?

Tatiana Tarasova – Sim. A Buyanova sabe como trabalhar com raparigas; resulta bem para ela. Elas já têm programas interessantes, um deles foi feito pelo Peter Tchernyshev. No que diz respeito à parte técnica isso é da responsabilidade da treinadora.

Elena Sobol – Será que iremos ver a Julia Lipnitskaya novamente?
Tatiana Tarasova – Eu penso que não. Ela é uma estrela que brilhou no seu tempo e agradecemos-lhe isso. A Julia foi uma pérola dos Jogos Olímpicos de Sochi. Ela jamais será esquecida – a menina do vestido vermelho. O grande Spillberg enviou-lhe uma carta. Tu alguma vez recebeste uma carta dessas? Não. Eu também não. Mas ela recebeu. Ela foi totalmente reconhecida. Foi o caminho dela. Um novo caminho se abrirá para ela.




Elena Sobol – Os estado da nossa patinagem masculina está longe de ser alegre. O que você nos pode dizer sobre Kovtun? Ele conseguiu medalhas nos Europeus e no World Team Trophy deste ano. Ele progrediu?

Tatiana Tarasova – O progresso às vezes não tem a ver com classificações pois não está relacionado. Há uns tempos ele foi o primeiro a incluir dois quádruplos no programa curto. Agora já não faz isso. Ele costumava arriscar 3 quádruplos no programa livre e já não o faz. De que progresso é que eu posso falar? Ele foi 4.º nos mundiais e agora é 10.º. É um retrocesso. Eu gosto do Maxim mas ele pensou que tinha todo o tempo do mundo. O tempo tem os seus limites. Ele devia trabalhar muito duro. O que é que eu posso dizer sobre o Kovtun ou até sobre o Kolyada? Eles têm de chegar lá e patinar. Ter um “enorme potencial”… Talvez eu seja demasiado exigente. Mas eu não sei ser de outra forma – o meu pai costumava dizer que se era despedido por ter a medalha de prata. Para mim o único lugar que existe é o primeiro. Eles têm o que é preciso para se tornarem primeiros, ou pelo menos conseguir uma medalha, mas eles mal conseguem chegar ao top 10. Ninguém os proíbe de nada. Eles deviam reconsiderar o seu sistema de preparação juntamente com os seus treinadores. Há qualquer coisa que não está a funcionar. E dizer “nós estamos a aprender”… Tu fazes o que fazes. Houve patinadores que integraram novos quádruplos durante a temporada. Então por agora eu não posso responder nada sobre o progresso de Kovtun e de Kolyada. Eu posso afirmar com confiança que não existe progresso.

Elena Sobol – Falando de quádruplos – as senhoras começaram a apresentá-los nos treinos. Esta é uma direcção interessante?

Tatiana Tarasova – Eu gosto.

Elena Sobol – Você acha que Volosozhar & Trankov deviam continuar a competir?

Tatiana Tarasova – Cada um precisa encontrar a sua motivação e a sua força. Essa é que é a questão. Um ponto importante para eles.

Elena Sobol – E Kavaguti & Smirnov?

Tatiana Tarasova – Eu não posso falar por eles mas se tivesse no seu lugar eu não voltaria. São demasiadas lesões. Além disso parece que o Alexander quer tornar-se treinador. Para já ele tem uma professora com quem aprender – a Tamara Nikolaevna Moskvina. Não é comum que os grandes atletas queiram tornar-se treinadores e isso é de apreciar.

Elena Sobol – Você imagina o Trankov como treinador?

Tatiana Tarasova – No passado eu sei que ele quis. Não falei com ele recentemente. O caminho de um treinador é longo. É toda uma vida. Por exemplo, a Nina Mozer tem sido treinadora desde muito jovem, enquanto a sua mãe ainda era treinadora. No entanto, os seus primeiros Jogos Olímpicos foram os de Sochi, quando o público se apercebeu dela.

Elena Sobol – O que é que você pode dizer sobre Tarasova & Morozov?

Tatiana Tarasova – Eles estiveram muito bem este ano. A Tarasova é uma heroína.

Elena Sobol – Eles têm estado na sombra de Stolbova & Klimov?

Tatiana Tarasova – Isso não é verdade. Deixem Stolbova & Klimov em paz, deixem o seu talento em paz. Se eles se recuperarem serão a nossa grande alegria. O ano passado eles foram fuzilados logo à partida…

Elena Sobol – Os dançarinos Bobrova & Soloviev tornaram-se 5.ºs e Stepanova & Bukin 10.ºs.

Tatiana Tarasova – É o melhor resultado que eles podiam ter esperado.

Elena Sobol – É um resultado objectivo?

Tatiana Tarasova – Tu achas que eles foram rebaixados nas notas?

Elena Sobol – Existiram opiniões nesse sentido depois dos mundiais em Helsínquia.

Tatiana Tarasova – Os que dizem isso deviam realmente abrir os olhos e ver quem patinou de que maneira. A Katia e o Dima, que perderam duas temporadas, estiveram muito bem para o seu nível. O que é que nós podemos tentar na categoria de dança? Estes patinadores estão em quinto. Eles devem ficar em quinto nos Jogos Olímpicos se trabalharem no duro e prepararem novos programas interessantes. Já seria um grande resultado.

Elena Sobol – Quantas medalhas é que nós devemos esperar obter nos Jogos Olímpicos?

Tatiana Tarasova – Seria excelente se as meninas conseguissem duas medalhas. Há a hipótese de uma medalha nos pares mas depende de qual. Para alguns a medalha de bronze é muito boa, para outros é um falhanço. Vamos fazer o nosso melhor. Afinal nós não fazíamos ideia que iríamos estar tão bem em Sochi. Mas correu bem. Eu desejo que todos estejam saudáveis e sem dores. Que Stolbova & Klimov recuperem das suas lesões que evitaram que eles estivessem no seu melhor. Que a Evgenia Medvedeva encontre o seu estilo. Que todos melhorem. Brevemente veremos os resultados. Nós temos de ser pacientes.


quarta-feira, 5 de abril de 2017

Notícias da Rússia - O "golpe de teatro" de Plushenko e outras novidades

O lendário patinador Evgeny Plushenko aproveitou a semana em que decorreram os campeonatos do mundo de 2017 para anunciar formalmente a sua retirada da patinagem de competição. Depois da lesão gravíssima que ele sofreu nas costas e das operações cirúrgicas a que foi sujeito, esta notícia não surpreende. Se não fosse esse problema físico penso que ele ainda arriscaria participar na temporada olímpica 2017/2018.
No entanto, os fãs de Plushenko não devem ficar tristes. Ele planeia continuar a abrilhantar diversos espectáculos nomeadamente com a famosa digressão Kings on Ice.
As novidades sobre Plushenko não se ficam por aqui. Plushenko inaugurou a sua própria academia de patinagem artística em Moscovo. São inúmeros os jovens que já se apresentaram a testes para ingressar na nova academia.
Evgeny Plushenko está a abraçar uma nova fase da sua vida mas a patinagem de competição vai continuar a ter um lugar muito importante na sua vida. É que ele pretende tornar-se treinador.
Numa conferência de imprensa realizada em 05-04-2017, Evgeny Plushenko confirmou os rumores que tinham começado a circular de que ele é o novo treinador de Adelina Sotnikova!
Adelina Sotnikova, campeã olímpica em 2014, praticamente abdicou da temporada 2016/2017 e nem sequer participou nos campeonatos nacionais. Ela esteve ocupada com o popular programa de televisão "Ice Age" onde formou parceria com um famoso actor russo. A participação neste programa de tv não caiu bem junto da sua então treinadora Elena Buianova. Essa treinadora foi uma das principais responsáveis pela sucesso de Adelina tanto no escalão júnior como na conquista do título olímpico em 2014. Consta que Buianova se sentiu atraiçoada por Adelina por esta ter decidido participar no programa de tv sem o seu conhecimento ou consentimento. Este mal-estar levou a que Adelina saísse do seu clube de sempre: o CSKA de Moscovo. A jovem russa parece estar determinada em regressar à patinagem de competição e contará com o apoio de Plushenko. Se isto vai resultar, só o tempo nos dirá...


Adelina Sotnikova



No rescaldo dos mundiais 2017, a patinadora Anna Pogorilaya foi excluída da selecção russa para o próximo World Team Trophy que decorrerá no Japão durante o mês de Abril. As coisas não correram bem a Pogorilaya durante os mundiais e ela desperdiçou uma excelente hipótese de conquistar a medalha de prata depois de falhar redondamente no programa livre. Parece que os responsáveis da Federação Russa não gostaram nada desse desaire e a exclusão de Anna da selecção nacional para esse evento é uma punição. Quem vai beneficiar com isto tudo é a patinadora Elena Radionova pois já foi anunciado que o lugar na selecção é oficialmente dela.


Elena Radionova


Se seguem o blog Magia Gelada no facebook e no twitter, já devem ter lido diversos posts meus sobre as mais recentes notícias do par Tatiana Volosozhar & Maxim Trankov. O casal está radiante com o nascimento da sua filha Angelika e já baptizou a menina numa cerimónia que decorreu na Igreja Ortodoxa. O patinador Fedor Klimov é o padrinho da menina. Entretanto, Tatiana e Maxim regressaram aos treinos. Mas calma... ainda é só para espectáculos :)


Volosozhar & Trankov


É sabido que os russos vivem a patinagem artística com muita intensidade. Mais uma prova disso é que nem no que diz respeito a comentadores ficam livres de polémicas. A veterana treinadora/coreografa Tatiana Tarasova, figura muito respeitada, tem assegurado os comentários em várias transmissões televisivas de campeonatos de patinagem artística, incluindo os mundiais 2017. Ora, depois do final dos mundiais desta temporada, Tarasova denunciou que está a ser "perseguida" pela ex-campeã do mundo de pares Irina Rodnina. Consta que Rodnina, que por sinal já exerceu cargos políticos, não gostou de certos comentários de Tarasova durante as transmissões televisivas e pretende que ela seja substituída! Tarasova, com a frontalidade que sempre lhe foi reconhecida, afirmou que Rodnina não é exactamente muito inteligente. Alguém quer ir buscar as pipocas?

Tatiana Tarasova





sábado, 17 de setembro de 2016

Semana de testes na Rússia 2016



Um dos momentos mais aguardados pela maioria dos fãs de patinagem artística no gelo é a semana de testes na Rússia. Este evento trata-se de uma semana de testes organizados pela federação russa de patinagem em que os principais patinadores da selecção nacional são convocados para participar. Durante os testes estão presentes vários responsáveis da federação russa bem como diversos especialistas e treinadores de renome como é o caso de Tatiana Tarasova. Os patinadores devem mostrar os elementos em que trabalharam durante a pré-temporada e os esboços dos programas com que planeiam competir durante a época.
Como os patinadores russos são dos que mais interesse geram junto dos fãs da modalidade, muita gente quer satisfazer a curiosidade de ver um pouco do que está para vir. Cada vez mais o foco das atenções é a categoria feminina devido ao grande número de atletas russas que se destacam internacionalmente.
Nos testes deste ano houve alguns patinadores que acabaram por ser dispensados como foi o caso do par Ilinykh & Zhiganshin e do par Stolbova & Klimov. Zhiganshin está a braços com uma lesão num joelho e Stolbova ainda está a recuperar de uma lesão mais antiga.
Tatiana Volosozhar e Maxim Trankov, campões olímpicos em Sochi, não marcaram presença pois decidiram não participar em competições durante a temporada 2016/2017.
Em baixo podem disfrutar de alguns dos vídeos amadores captados por vários fãs que puderam assistir aos testes ao vivo.




Evgenia Medvedeva
Programa curto
Programa livre


Anna Pogorilaya
Programa curto
Programa livre

Elena Radionova
Programa curto

Adelina Sotnikova
Programa curto
Programa livre



Julia Lipnitskaya
Programa curto
Programa livre

Maria Sotskova


Bobrova & Soloviev
Dança livre
https://www.youtube.com/watch?v=UECLJu1aXD4




Sinitsina & Katsalapov
Dança curta

Kavaguti & Smirnov
Programa curto

Tarasova & Morozov
Programa curto