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quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Tradução de entrevista de Evgenia Medvedeva

A bicampeã mundial Evgenia Medvedeva concedeu uma entrevista à jornalista Olga Ermolina depois da sua bem-sucedida participação no Open do Japão 2017. O principal tópico da entrevista foi o programa livre de Evgenia para esta temporada.







O link original pode ser consultado aqui: http://www.fsrussia.ru/intervyu/3242-evgeniya-medvedeva-proizvolnuyu-programmu-my-pomenyali-posle-turnira-v-bratislave.html


Tradução de entrevista


Olga Ermolina - Zhenya (*diminutivo de Evgenia), por que é que decidiste mudar o programa livre e por quê "Anna Karenina"?


Evgenia Medvedeva - O programa "Anna Karenina" foi inicialmente criado para um número de exibição. Eu patinei-o pela primeira vez num espectáculo no Japão. A reacção do público foi óbvia - o programa foi muito bem aceite. Eu senti o personagem, vivi-o. É uma linda e poderosa música da banda sonora do filme "Anna Karenina" que me penetra, eu moldo-me a essa peça. Toda a equipa adorou a exibição e alguém sugeriu entredentes por que não usá-la como programa livre. Será errado dizer que o programa livre anterior coreografado pelo Ilya Averbukh não resultou. Pelo contrário, no Ondrej Nepela o feedback do público foi bom e as notas atribuídas pelos juízes foram altas. Mas o personagem Karenina emocionou-me tanto que eu decidi que tinha de mudar. Em conjunto com os treinadores, nós decidimos que "Anna Karenina" resultaria melhor para mim na temporada olímpica.


Olga Ermolina - Os programas na época olímpica devem ser diferentes? Em caso afirmativo - de que modo?


Evgenia Medvedeva - Eu considero que os programas olímpicos devem ter uma música poderosa facilmente reconhecida que deve ser óbvia para os teus compatriotas sem necessitar de traduções. Anna Karenina é assim. Alguns podem não ter lido o livro de Leon Tolstoy mas é provável que o filme de 2012, que venceu um Oscar, protagonizado pela Keira Knightley, e com actores como o Jude Law, tenha sido visto por muita gente. Todos os amantes da patinagem artística e profissionais: não percam mais tempo e assistam ao filme se ainda não o viram. Vocês vão gostar muito. Isto é o que estou a mostrar no gelo e se virem o filme vão perceber tudo. A música do programa faz parte da banda sonora e foi nomeada para o Oscar de melhor trilha. É poderosa, penetrante, vai directa ao coração. Sempre foi importante para mim entender o que eu estou a patinar, que história é que eu estou a contar no gelo. Eu entendo o tema de Karenina - a sua história de amor, as suas preocupações. Uma personagem tão específica é fora do comum para mim. É muito interessante trabalhar nela.


Olga Ermolina - Quando é que foi tomada a decisão de mudar o programa livre?


Evgenia Medvedeva - Depois da competição em Bratislava. Foi decidido que mudaríamos o programa livre para "Anna Karenina". Esta não foi uma decisão fácil. Claro que é um risco mudar o programa durante a temporada. Mas como a época ainda estava no início, nós tivemos tempo suficiente.


Olga Ermolina - Quão diferente é o programa livre da exibição?


Evgenia Medvedeva - Um número de exibição é diferente de um programa de competição, então nós tivemos de proceder a alterações para acomodar o conteúdo, acrescentar os saltos. Mas a ideia geral, o desenho, os passos, os peões são os mesmos. Depois de Bratislava até ao Open do Japão, nós trabalhámos no novo programa livre. Como o programa me é tão confortável, o trabalho foi fácil e divertido.


Olga Ermolina - Por favor relembra-nos quem é que coreografou "Anna Karenina"?


Evgenia Medvedeva - O Daniil Gleikhengauz e a Eteri Tutberidze. Mas deixa-me salientar que gostei muito do programa livre feito pelo Ilya Averbukh. Eu não o rejeitei e poderei patiná-lo novamente no futuro.


Olga Ermolina - Os resultados no Open do Japão, de acordo com as notas, demonstram que a decisão foi acertada?


Evgenia Medvedeva - As notas nos componentes foram mais elevadas para a "Anna Karenina". E repito que eu me sinto muito confortável a patinar este programa. Eu adoro o personagem. Eu penso que o programa é um sucesso. Mas não sou eu que devo julgar, isso fica para os juízes e para o público.





sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Tradução de entrevista de Elizaveta Tuktamysheva

Elizaveta Tuktamysheva está na ribalta da patinagem feminina desde o escalão júnior. Na temporada 2014/2015, Elizaveta conquistou o título europeu e o título mundial e parecia imbatível, com o triplo axel à mistura. No entanto, na época passada, ela afundou-se nos campeonatos nacionais, onde a concorrência é muito forte, e foi deixada de fora da selecção nacional russa para as principais competições internacionais. Esta temporada é especial devido aos Jogos Olímpicos de 2018 e Elizaveta é uma das candidatas a representar a Rússia nessa importante competição. Nos testes organizados pela federação russa as coisas parecem ter corrido bem a Elizaveta e muita gente gostou especialmente do seu novo programa curto. 

Entretanto, ela concedeu uma entrevista a um órgão de comunicação social da Rússia cujo original pode ser consultado neste link: http://www.sport-express.ru/figure-skating/reviews/elizaveta-tuktamysheva-opyt-nepopadaniya-na-olimpiadu-moe-preimuschestvo-1307288/




Tradução de entrevista

Jornalista – Como está a decorrer a preparação para a temporada?

Elizaveta – Já há algum tempo que estamos a treinar os programas completos. Eu encontro-me numa forma decente. Certamente em melhor forma do que na mesma fase no ano passado.

Jornalista – O que é que foi mais importante nos testes em Sochi?

Elizaveta – Mostrar os programas completos. Claro que eles estavam a verificar a parte técnica mas o mais importante é o estado do programa: as transições, os peões, os passos. Essas coisas fazem realçar o programa. O ambiente estava algo nervoso apesar de compreenderes que não é um evento importante. Mesmo assim é o primeiro evento da época e, como diz o meu treinador, “só um idiota não ficaria preocupado”.

Jornalista – Tu e o teu treinador já compilaram o plano da temporada?

Elizaveta – De momento estamos a planear um início de temporada intenso. O Troféu Lombardia e depois talvez mais algumas competições. Eu penso que antes dos grandes prémios vamos fazer pelo menos 3 competições.

Jornalista – A triste experiência de não teres ido aos jogos olímpicos – esse é o teu ponto fraco ou uma vantagem?

Elizaveta – Eu vou tentar transformar isso numa vantagem. Especialmente porque tantas pessoas acreditam em mim. É motivador.

Jornalista – Qual é o estado da tua técnica?

Elizaveta – Eu recuperei todos os triplos, agora só tenho de fazê-los em competição. Só tenho feito o triplo axel nos treinos. Para já, nós pensamos colocá-lo só num programa. O programa livre.

Jornalista – Olhando para o conteúdo técnico das miúdas juniores, tu pensas em ti própria no início do teu caminho com “eu também conseguia saltar com essa facilidade”?

Elizaveta – Não de todos. Parabéns às garotas. É óptimo que a patinagem artística se desenvolva. Eu desejo que as garotas possam patinar aos 20 anos como elas patinam agora, quando as hormonas, etc, já fizeram estragos. Eu não penso nos “tempos antigos”. Pelo menos eu tento não pensar. Eu prefiro que os meus saltos sejam mais fáceis na actualidade.  

Jornalista – Os comentários do género “A Liza nunca regressará ao seu nível anterior” chateiam-te?

Elizaveta – É engraçado que as pessoas que me descartam são as que já nem estão no sistema. Quanto aos fãs, eles são pessoas emocionais e sentem pelo seu atleta. Então há aqueles que são a favor e os que são contra. Mas, francamente, eu não tenho tempo para ler os comentários. Se eu estive fora dos Europeus e Mundiais, isso significa que esse tempo me foi dado para outra coisa. Eu curei-me, tentei novas personagens no gelo, passei mais tempo com os meus entes queridos. Isso é uma coisa má?

Jornalista – Uma das últimas tendências são os saltos na segunda metade do programa ao modo ‘tano ou Rippon. Vais tentar aumentar o valor base dos teus programas com isso?

Elizaveta – Claro que posso. Levantar assim os braços não é nada de especial. Quanto a integrar os saltos na segunda metade do programa, bem, no meu programa curto dois elementos são na segunda metade. Mesmo assim, apesar da mudança para a segunda parte do programa dar mais pontos, eu não gosto de programas em que a garota patina às voltas durante dois minutos. O conjunto do programa é parcialmente conseguido pela boa distribuição dos saltos. Os programas têm de ser um mini-teatro no gelo.

Jornalista – No entanto, muitos especialistas consideram-te uma tecnicista pois os componentes não são o teu ponto forte.

Elizaveta – De facto, eu sou muitas vezes considerada uma saltadora. Eu espero que nesta temporada eu também brilhe nos meus programas.

Jornalista – O que é que podes dizer sobre os novos programas?

Elizaveta – Eu adoro os meus programas e penso que não vamos mudá-los. Eles saíram coloridos, emocionais e divertidos. Pelo menos no programa curto. Eu penso que será a minha personagem habitual mas um pouquinho diferente.

Jornalista – E como é que vais parecer?

Elizaveta – Alegre, divertida, brincalhona. Claro que haverá paixão e elegância. Claro que é sobre os dois programas e não tudo de uma vez.

Jornalista – Os fãs questionam-se sobre o porquê de nas exibições usares vestidos coloridos e sexys e, no entanto, nas competições habitualmente vestidos largos e escuros.

Elizaveta – Nós escolhemos os vestidos de acordo com as minhas preferências. Eu gosto dos vestidos flutuantes nas competições.

Jornalista – O teu treinador Alexey Mishin é conhecido por ser tão calmo durante as competições, enquanto outros preparam os seus patinadores para uma luta e habitualmente começam uma dissecação logo após a prestação…

Elizaveta – Isso simplesmente não resultaria comigo. Além disso, o Alexey Nikolaevich não é pessoa que te obrigue a fazer coisas. Ele sabe perfeitamente que se um atleta for inteligente, ele saberá atingir a atitude certa e saberá o que é que precisa. Não faz sentido gritar ou exigir.

Jornalista – Ele desdenha-te pelo menos em algumas ocasiões?

Elizaveta – Se alguma está errada, ele diz de uma vez. Ele nunca desdenha mas pode ser rígido nas suas opiniões. Eu gosto disso e penso que essa é a abordagem correcta.

Jornalista – Ele alguma vez colocou a Kostner como um exemplo ou a ti como um exemplo para ela?

Elizaveta – Isso raramente acontece. Além disso, nós trabalhamos com a coreógrafa Tatiana Prokofieva que me ajuda muito. Mesmo quando o Alexey Nikolaevich está focado na Carolina, eu fico sob a orientação da Tatiana Nikolaevna. Assim há atenção suficiente para todos.

Jornalista – Mas os treinos mudaram desde a chegada da Carolina?

Elizaveta – No geral não, é mais como se a competição passasse a fazer parte disso. Afinal nós fazemos habitualmente todos os elementos, todos os saltos. De certo modo, ter uma oponente tão forte é uma coisa positiva. Nós temos boas relações e tenho de me enquadrar.

Jornalista – Estás satisfeita com as inscrições nos grandes prémios – China e França?

Elizaveta – Na minha situação seria patético falar em preferências. Eu estou feliz por ter conseguido a França e sou sempre bem aceite na China.

Jornalista – De entre os patinadores, com quem é que mantiveste mais contacto durante o ano passado?

Elizaveta – Eu dou-me bem com a Kaitlyn Weaver. No geral gosto muito da equipa canadiana. Nós começámos a falar durante as competições e descobrimos que temos muitos interesses em comum. Além disso, a Kaitlyn é uma pessoa muito interessante e sã. Eu gosto.

Jornalista – Essa é a patinadora a quem os fãs russos chamam ‘Katusha’.

Elizaveta – Exactamente. Ela chama-me ‘Lizonchik’.

Jornalista – A língua é uma barreira?

Elizaveta – O meu inglês falado não é muito mau. Claro que, quando começamos a falar de temas que não estão relacionados com patinagem artística, há algumas dificuldades. Mas nós descobrimos sempre uma maneira. Para além dela, eu mantenho contacto com a Ekaterina Ryazanova. Ela retirou-se mas ainda se mantém no mundo da patinagem artística.

Jornalista – Há uma ideia de que os patinadores se tornam adultos no gelo mas que fora do rinque ainda são uns bebés.

Elizaveta – Disparate. Talvez seja verdade para alguns mas eu não conheço patinadores desses. Eu não sei como explicar mas eu não sinto diferença na vida dentro do desporto e fora dele. E não conheci muitos que façam essa diferença.

Jornalista – Duas temporadas de fora da selecção, com muito tempo livre, tu não encontraste algo que gostasses de fazer à margem da patinagem artística?

Elizaveta – Mesmo quando eu não estava a competir, eu continuei a treinar e a curar as minhas costas. Houve sempre algo para fazer e a minha vida continua a girar em torno da patinagem artística. Eu não quero dispersar-me e eu ainda não decidi o que quero fazer depois disto. Então, mesmo que não haja competições, os meus treinadores arranjam sempre em que trabalhar durante os treinos.

Jornalista – Não há muito tempo tu paraste de esconder a tua relação com o Andrey Lazukin. Se não fôr segredo, quem é que paquerou quem?

Elizaveta – Nós fomos amigos durante algum tempo – nós começámos a comunicar assim que ele se mudou para o nosso grupo. Penso que desde os treze anos. Nós conhecemo-nos há muito tempo. A iniciativa partiu dos dois – os nossos caminhos cruzavam-se frequentemente. É mais comum nos pares pois patinam juntos e veem-se o tempo todo. Nós sabemos de muitos exemplos de pares que, quando começaram a namorar, se esqueceram de trabalhar. Os atletas são pessoas muito disciplinadas e são espertas o suficiente para não deixarem as emoções atrapalhar os treinos. Pelo menos no nosso caso não atrapalham.

Jornalista – Os rapazes do grupo fazem piadas sobre vocês?

Elizaveta – O humor é uma grande parte do nosso grupo portanto há muitas piadas à nossa custa. Isso não perturba os treinos mas adiciona divertimento e cria um ambiente positivo.

Jornalista – O que é que dirias àqueles que pensam que se há amor na tua vida então a patinagem artística torna-se a segunda coisa mais importante?

Elizaveta – Para que se metam na sua própria vida e sejam felizes!

Jornalista – Mesmo apesar das duas últimas temporadas, tu és uma patinadora com títulos. No entanto, o teu namorado ainda não alcançou títulos. Isso influencia a vossa relação? Afinal de contas é importante para os homens serem os primeiros…


Elizaveta – Nós apenas nos apoiamos mutuamente, é só isso. A nossa relação não é construída no desporto mas sim dos nossos sentimentos. Assim sendo, o Andrey, como o jovem inteligente que é, compreende que os meus feitos não são motivo para ciúme ou inveja. São uma razão para patinar melhor.  

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Tradução de entrevista de Julia Lipnitskaya


Julia Lipnitskaya

Julia Lipnitskaya começou a dar nas vistas no escalão júnior onde chegou a conquistar o título mundial. A pequena russa conquistou imediatamente o coração de milhares de fãs em todo o mundo. Nem aqueles que conhecem pouco sobre a patinagem artística ficaram indiferentes às capacidades de Julia. Quando ascendeu ao escalão sénior, Julia impôs-se imediatamente, tendo alcançado resultados muito importantes como a medalha de ouro olímpica por equipas nos Jogos que decorreram em Sochi, o título europeu em 2014 e a medalha de prata nos mundiais do mesmo ano. Esperavam-se muitos mais feitos por parte de Julia mas as coisas começaram a não correr bem e ela foi ficando de fora da selecção russa para as competições mais importantes. Um grande sinal de alerta ocorreu quando Julia decidiu abandonar o grupo de Eteri Tutberidze que era a sua treinadora de longa data. Na altura não faltaram rumores sobre o porquê dessa separação ter ocorrido. Falou-se que Julia não gostava de dividir a atenção da sua treinadora com a jovem em ascensão Evgenia Medvedeva. Foi dito que Julia sentiu que Tutberidze preferia focar mais a sua atenção em Medvedeva. Também se falou da hipótese da ruptura ter sido provocada pelo plano alimentar que Tutberidze obrigava Julia a cumprir. Talvez tudo isso afinal seja verdade ou talvez seja tudo mentira. Os rumores sobre o facto de Julia sofrer de anorexia desde que estava no grupo de Tutberidze é que parecem ser todos verdadeiros. A própria Julia acabou por confirmar isso nesta entrevista concedida à jornalista russa Olga Ermolina.

Desde a Primavera que havia muita expectativa sobre se Julia iria patinar nos testes da federação russa que foram marcados para o início de Setembro. Entretanto, Julia anunciou a sua retirada da patinagem artística. Essa notícia deixou muitos fãs entristecidos mas temos de compreender que a saúde desta jovem está em primeiro lugar. Resta-nos desejar que tudo corra bem a Julia no futuro e desfrutar dos vídeos dos programas magníficos com que ela nos brindou na sua curta mas intensa carreira.

Nesta entrevista, Julia não se esquivou de falar sobre um assunto pessoal incómodo pois houve um homem que foi entrevistado por vários órgãos de comunicação social na Rússia e que afirmou ser o pai de Julia. Esse assunto fez correr muita tinta mas Julia fez agora questão de denunciá-lo publicamente como um impostor.

O link original da entrevista pode ser visto aqui: http://www.fsrussia.ru/intervyu/3126-yuliya-lipnitskaya-stranitsa-perevernuta-u-menya-novaya-zhizn-i-novye-plany.html

 

Tradução de entrevista

Jornalista – Julia, quão bem ponderada foi a tua decisão de te retirares?

Julia – Desta vez foi a 100%. Eu não passei um mês ou dois ou três a pensar sobre isso, eu demorei algum tempo, levando em consideração todos os prós e contras. Durante o Inverno, quando eu fui para o hospital, e estive lá algum tempo, foi o suficiente para reconsiderar. Foi muito difícil decidir afastar-me. A sério, todos os dias eu ia dormir e acordava com um pensamento: e agora? Quando eu estive lá trabalhámos muito com psiquiatras, e eles têm uns muito bons, eles ajudaram-me a estabelecer correctamente as prioridades para a minha vida. Eu tive de pensar sobre muitas coisas porque eu estava segura de que eu iria recuperar e voltar a patinar. Eu estava segura. Todos estávamos – a minha mãe, o treinador… Nas minhas primeiras semanas no hospital em Israel, o meu telefone foi roubado e a comunicação com o mundo exterior foi cortada. Foi completamente ao acaso mas como resultado eu fiquei algum tempo offline. Só agora é que compreendo o motivo. Eu pude realmente pensar sobre o que se estava a passar na minha vida. Isso foi de uma enorme importância. Sim, eu poderia simplesmente ter comprado outro telefone, mas eu decidi que se isso aconteceu então foi por uma razão. Então eu estava noutro país, onde toda a gente fala uma língua estrangeira que nem sequer é inglês, sem conexão com o mundo exterior. Eu só me lembrava do número de telefone da minha mãe. Eu acabei por comprar um telefone barato para poder telefonar à minha mãe e aos meus parentes. E foi isto. Então o que é que eu podia fazer lá senão curar-me e pensar no que faria de seguida.

Jornalista – Qual foi a coisa mais assustadora?

Julia – O desconhecido. Compreender o que vem a seguir. Eu sair do hospital e depois o quê? Especialmente quando eu comecei a perceber que estava 99,9% acabada para a patinagem. Eu estava em pânico com o desconhecido. Foi um pesadelo. Quando eu regressei a casa, eu passei a primeira semana a pensar ‘e agora’? O que é que eu devo fazer agora? O desconhecido é uma coisa terrível. Em falei com a minha mãe e ela compreendeu-me. Nós decidimos que é uma nova vida. Então eu tive de ir à Federação Russa de Patinagem Artística assinar a minha retirada, explicar o que aconteceu e foi o que eu fiz. Eu fiz um acordo com a federação para que todos nós esperássemos até Setembro e que durante os testes anunciaríamos a minha retirada. Foi isto. Então eu gostaria de agradecer a todas as pessoas que me apoiaram e aos fãs por esperarem.

Jornalista – A Federação Russa de Patinagem Artística pediu-te para repensares porque és uma patinadora de topo e não podes ser dispensada facilmente?

Julia – Claro, em Abril perguntaram-me se era uma decisão espontânea e emocional. Mas tu não podes pensar por tanto tempo e acabar com uma decisão emocional. Então sim, foi-me dado tempo para pensar até aos testes. Mas eu já tinha decidido.

Jornalista – Achas que alcançaste tudo o que podias no desporto?

Julia – Claro que não. Havia muitas coisas que eu queria alcançar e fazer, melhorar. Mas as coisas são o que são. Depois dos jogos de Sochi eu queria experimentar a dança no gelo. Eu pensei nisso durante alguns anos mas havia tanta gente contra que essa ideia foi deixada.

Jornalista – O que é que te impediu de alcançar tudo o que querias?

Julia – 99% foram as lesões. O resto foi resultado disso. Depois de eu ter tido um diagnóstico, eu recebi muitas questões sobre o porquê de tê-lo feito. Mas se eu não tivesse anunciado a decisão por mim própria, a informação acabaria por saber-se à mesma. A anorexia é a doença do século XXI. Não é uma raridade. Infelizmente nem todas conseguem ultrapassá-la. Eu decidi que não seria nada de mais se eu a revelasse. A única coisa de que eu me arrependo é de não ter falado sobre isso mais cedo. Isto prolongou-se não por um ano ou dois ou três. Depois da Taça da Rússia, eu fui para casa, coloquei os patins no roupeiro e não os voltei a ver desde então. Eu fui hospitalizada em Janeiro. Esta é a história toda.

Jornalista – Depois dos Jogos Olímpicos de Sochi foste atingida pela fama – isso foi uma coisa que te deu motivação para continuar ou foi um fardo que tiveste de carregar?

Julia – Foi desgastante. Eu não tinha força para mais nada, foi muito duro. Eu não sou uma “pessoa pública”. Nunca fui. Sou uma introvertida desde a minha infância. Eu tinha de fazer um esforço enorme para falar com alguém que não me fosse familiar. Agora é mais fácil comunicar, eu tornei-me mais aberta. Mas eu desenvolvi algumas habilidades, hábitos e estereótipos e eu sigo-os. Eu não acho que tenha de estar em todos os jornais, todos os programas de televisão para onde sou convidada. Eu não gosto disso e provavelmente nunca gostarei. Eu prefiro ir directa ao assunto e simplesmente dizer o que precisa ser dito; especialmente depois do meu prolongado silêncio houve muitas especulações, de repente apareceram tantas pessoas que foram entrevistadas, incluindo pessoas que eu nem sequer conheço. Inicialmente até era engraçado mas depois tornou-se insano. Houve tantos factos falsos que eu gostaria de explicar. O motivo principal foi um programa no Canal 1 em que tudo foi falso. Quando eu perguntei aos editores “como é que isto foi exibido”, foi-me respondido “mas tu nunca disseste pessoalmente que era uma mentira, então podia ser verdade”, portanto parece que agora tenho de dizê-lo.

Jornalista – OK, então começa a falar.

Julia – Vamos começar pelo programa de televisão depois do qual a minha mãe ficou com cabelos brancos, eu provavelmente também ganhei alguns cabelos brancos, mas os produtores de tv conseguiram as suas audiências. Eles falaram com uma pessoa chamada Zanozin. Essa pessoa disse que eu fui aceite na Universidade de Moscovo e isso é uma certeza. Eu estava somente a planear frequentar a Universidade e será óptimo se resultar. Eu só planeio candidatar-me e fazer os exames dentro de um ano. Eu gostaria de tornar-me numa manager desportiva. É interessante e estaria relacionado com a minha vida antiga. Em segundo lugar, há uma pessoa que vai de programa de tv em programa de tv e ousa dizer que é meu pai. Uma pergunta: como é que os editores permitem uma coisa destas? Esta pessoa é falsa. Mesmo que ele tenha o mesmo sobrenome não tirem conclusões precipitadas. Essa pessoa não me é nada. O que ele disse sobre mim – eu quis silenciá-lo fisicamente. É impossível de ouvir!  Quanto ao meu verdadeiro pai, eu sei muito bem quem é ele e onde vive. Portanto deixa-me dar um aviso: se esses casos continuarem e os meus “pais” ou “familiares” forem a programas de televisão com vontade de obter alguma fama às minhas custas, nós vamos encontrar-nos em tribunal. Um dos jornais publicou um artigo. Enquanto eu estava a lê-lo, eu pensei que era uma piada. As únicas coisas verdadeiras eram os nomes Julia e Lipnitskaya. Só isso. Eles inventaram um jovem que supostamente teria influenciado a minha decisão de retirar-me? Foram apresentadas algumas declarações de alguns familiares que preferiram manter-se anónimos. Eu não tenho familiares ou amigos que pudessem fazer uma coisa dessas. Todo o artigo é uma fantasia do jornalista. Ó autor, nota alta pela história!

Jornalista – É óptimo que consigas manter o sentido de humor nessa situação. O que é que sonhas agora?

Julia – Sonhar? Eu gostaria de encontrar algo que eu pudesse fazer para o resto da minha vida. Agora estou numa encruzilhada porque tenho muitas ofertas, opções e projectos. Mas eu não vou e não quero ir para um lugar e simplesmente ficar lá como “Julia Lipnitskaya”. Eu quero participar, eu quero fazer alguma coisa interessante e isso não acontecerá sem educação. Então isso é a primeira coisa na minha lista. Eu estudo inglês com um tutor. Num futuro próximo, eu ficarei completamente focada nos meus estudos e depois logo se vê. Simultaneamente, é claro que eu experimentarei algumas coisas novas e tentarei encontrar o meu caminho. Eu tenho sido questionada sobre se participarei em espectáculos. De momento eu não posso e não quero apesar de haver propostas. Talvez com o tempo as coisas mudem e eu possa querer regressar ao gelo. Vamos ver. Uma coisa é certa: eu não serei treinadora. Tornar-me numa profissional do desporto é uma coisa diferente. Mas eu preciso de estudar. Uma passatempo é um passatempo mas uma profissão precisa de educação.

Jornalista – Tu viraste a página e todos os teus sonhos e planos são para o futuro?

Julia – Sim, eu tenho uma nova vida e novos planos. O desporto deixou-me o hábito de ser organizada, de ter um horário rigoroso. Quando eu tenho tempo livre, e agora tenho muito mais, começo a pensar “como é que eu posso preenche-lo?”, eu tenho um planeamento para não ficar ociosamente sentada. Quando o dia está todo preenchido, eu sinto-me óptima e tento fazer tudo. Eu passo os meus dias livre na casa de campo. Toda a gente sabe que eu sempre adorei cavalos. Agora eu tenho um. Em Moscovo. Não muito longe da casa de campo há um estábulo privado e eu posso fazer desporto aí, montar a cavalo por 30-40Km. É um dos meus hábitos favoritos e eu não me importo de gastar tanto tempo com isso porque eu adoro fazê-lo. O nome do cavalo é Dakota. É alto, giro e calmo. Um sonho.

Jornalista – Isso é óptimo! Há mais alguma coisa que gostasses de acrescentar?

Julia – Eu gostaria de agradecer à federação e a todos os que me ajudaram e apoiaram. Um agradecimento especial ao agora meu ex-treinador Alexey Urmanov, que durante o nosso tempo juntos trabalhou muito duro e reagiu imediatamente a todos os problemas e resolveu-os com rapidez. Eu estive confortável a trabalhar em Sochi embora a vida lá seja tão diferente. A equipa em Sochi é óptima, todos são muito encorajadores. Teria ficado muito feliz se tivéssemos alcançado alguns resultados com aquela equipa e tenha muita pena que isso não tenha acontecido. Mas mais uma vez, foi excelente trabalhar com pessoas assim. Eu gostaria de agradecer aos fãs pelo seu amor, fé, compreensão e paciência. Esta foi a forma como as coisas tiveram de ser feitas. Para mim e não só. Agora eu recebo tantas mensagens. Eu às vezes tento responder porque algumas pessoas escrevem do fundo do seu coração e quando eu leio essas mensagens eu não consigo evitar as lágrimas mas na maior parte das vezes elas fazem-me sorrir. É muito bom saber que as pessoas gostam tanto de mim. Eu também gostaria de agradecer àqueles que me espicaçaram e até aos “haters” pois, algumas vezes, eles fizeram-me pensar e seguir em frente. Simplesmente agradecer a toda a gente!

Jornalista – Obrigado Julia.

Este foi o lindíssimo programa curto que Julia patinou na Taça Rostelecom 2016

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Tradução de entrevista de Evgenia Medvedeva


A bicampeã mundial Evgenia Medvedeva concedeu recentemente uma entrevista à jornalista Olga Ermolina. Evgenia demonstrou mais uma vez a sua maturidade e revelou as músicas escolhidas para os seus novos programas. A jovem patinadora aproveitou também para manifestar o seu amor pelo Japão.


Evgenia Medvedeva


TRADUÇÃO DE ENTREVISTA

Olga Ermolina – Evgenia, para ti este calendário tenso é usual: os programas novos, os exames da escola, umas pequenas férias, o estágio, espectáculo, baile de finalistas, outro espectáculo e depois de volta ao trabalho?

Evgenia Medvedeva – Tudo o que disseste faz parte da minha vida. É a minha escolha. E há sempre uma escolha. Há sempre uma maneira mais fácil. Mas a maneira mais fácil não é necessariamente a correcta. A patinagem artística, tal como qualquer outro desporto, é exigente. Se tiveres sorte a tua profissão é também o teu passatempo. Então os treinos são uma alegria. É assim que as coisas acontecem para mim.

Olga Ermolina – Podes falar sobre os teus novos programas?

Evgenia Medvedeva – Para o programa curto nós escolhemos “Nocturne N.º 20, C-Sharp Minor, Op. Posth” de Chopin tocada por Joshua Bell. Para o livre, “January Stars” de George Winston, “Departure” (Lullaby) de Max Ritcher e “Pacem 2” de Donna Nobis. Nós começamos a trabalhar nos programas no início de Junho. Eles foram coreografados pelo Daniil Gleihengause e o Ilya Averbukh em conjunto com a treinadora Eteri Tutberidze. Eu vou patinar os meus novos programas nos testes em Sochi. Quanto à nova exibição, esta é feita com música do filme “Anna Karenina” e vou patiná-la no espectáculo em Yokohama. Mas ainda não será a versão final. Nós vamos continuar a trabalhar para melhorar a exibição durante a temporada.

Olga Ermolina – Existirão algumas mudanças técnicas?

Evgenia Medvedeva – Eu vou manter os elementos que tinha para o programa curto. Nós tentámos elevar a dificuldade no programa livre e passámos a primeira combinação triplo-triplo para a segunda parte do programa. Agora eu só vou ter um salto na primeira parte.

Evgenia Medvedeva


Olga Ermolina – Muitos patinadores participam em espectáculos durante o Verão. É divertido ou uma maneira de ganhar dinheiro ou outra coisa?

Evgenia Medvedeva – Isso depende da abordagem. Para mim o espectáculo no início da época é uma forma de ligar-me à audiência, recordar a sensação de estar sozinha no gelo com tantos olhos focados em mim. Eu não sei como é que é para os outros mas cada vez que eu vou para a pista, seja para um espectáculo ou para uma competição, há sempre adrenalina, nervos e um certo estado de espírito. De certo modo um espectáculo assemelha-se a uma competição. E, obviamente, eu tenho de cumprir as minhas obrigações. Normalmente a participação num espectáculo é decidida com antecedência.

Olga Ermolina – Aconteceu alguma coisa de especial no último espectáculo?

Evgenia Medvedeva – O mais interessante é conhecer pessoas, atletas que ainda não conheceste e que te inspiraram durante a tua carreira desportiva.

Olga Ermolina – Como por exemplo?

Evgenia Medvedeva – Há muitos. Por exemplo eu estava interessada em ver o Johnny Weir, para ver como ele sente o gelo, como é que ele patina. Eu não cheguei a vê-lo competir; nunca o tinha visto patinar ao vivo.  Nós conhecemo-nos no Japão e eu tive a oportunidade de assistir aos seus treinos. Eu fiquei muito surpreendida com o facto do Johnny falar russo sem sotaque.

Olga Ermolina – E que como vais com as línguas estrangeiras?

Evgenia Medvedeva – Eu quero muito aprender japonês, melhorar o meu inglês e ler muitos livros. Na escola, eu não tive tempo por isso eu tenho uma lista do que eu devo ler.

Olga Ermolina – Durante as férias tu foste ao Japão e à China. Outra vez o Japão?

Evgenia Medvedeva – Sim, eu amo esse país. Eu já lá estive várias vezes mas foi durante competições quando eu estava totalmente focada no meu trabalho. Eu quero aprender mais da história, da cultura e ver o verdadeiro Japão – Osaka, Kyoto, visitar Tóquio. Nós passámos dois dias em Tóquio. Nós perdemo-nos e tivemos de usar o GPS para encontrar o hotel. Nós andámos 8KM. Foi tão bom. Eu vi o palácio imperial, os altares, andámos nas pequenas ruas de Kyoto, desfrutámos da natureza japonesa, experimentei roupa tradicional e, claro está, a comida japonesa. Eu quis experimentar tudo!

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Tradução de entrevista de Tatiana Tarasova

A lendária treinadora Tatiana Tarasova concedeu uma entrevista a uma jornalista russa Elena Sobol em que respondeu às questões com a sua habitual frontalidade. Tarasova não se coibiu de demonstrar a sua falta de esperança em Adelina Sotnikova e Julia Lipnitskaya, para além de apontar o dedo a Maxim Kovtun e Mikhail Kolyada. Podem ler a tradução aqui em baixo e espero que gostem do trabalho.



Elena Sobol – Tatiana Anatolievna, o que é que tem feito durante o interregno entre temporadas?

Tatiana Tarasova – Estou de férias até ao meio de Julho e depois tratarei de coisas referentes ao meu trabalho como comentadora. Eu vou aprender coisas novas para poder comentar no futuro – as regras vão ser um pouco modificadas. Eu também estarei presente em alguns seminários para juízes para obter a informação correcta que depois vou processar e projectar para os telespectadores. Os telespectadores são diferentes. Agradeço-lhes por me adorarem como comentadora. Eles enviaram-me tantas mensagens que eu senti-me apoiada e amada.

Elena Sobol – E com razão.

Tatiana Tarasova – Eu tenho de corresponder então estou a planear reunir nova informação antes dos Jogos Olímpicos. Eu planeio ir aos rinques em Julho, ver os testes. Os testes dos juniores em Agosto e os testes dos seniores em Setembro em Sochi. Eu penso que o tempo antes da temporada começar vai passar muito depressa.

Elena Sobol – Algum patinador pediu a sua ajuda antes da temporada Olímpica?

Tatiana Tarasova – Não. Os nossos patinadores estão acompanhados e eu nem sequer estou a considerar os pedidos de patinadores estrangeiros, apesar de terem havido alguns.

Elena Sobol – Porque é a época Olímpica?

Tatiana Tarasova – Porque eu decidi assim.

Elena Sobol – E que é que vai apoiar?

Tatiana Tarasova – Eu já apoiei quem tinha de apoiar.

Elena Sobol – O que é que a fez feliz e o que é que a chateou na temporada passada?

Tatiana Tarasova – A época acabou e não vale a pena discutir. Todos estão a descansar. Vai haver uma época nova e um novo frenesim. O meu falecido pai costumava dizer “Olha para a frente. Vai em frente”.

Elena Sobol – E o que há em frente?

Tatiana Tarasova – Os Jogos Olímpicos. Eu espero uma luta para entrar na selecção. Os 30mx60m vão decidir. A nova temporada vai começar e os patinadores irão alcançar novos objectivos.




Elena Sobol - Você pensa que Medvedeva vai conseguir? Ela vai ter de provar que ela é a líder.

Tatiana Tarasova – Nós vamos ter de esperar e estar agradecidos pelo que ela e a Eteri Tutberidze têm feito a cada ano. Eu vou debater isso.

Elena Sobol – Você gosta da Medvedeva?

Tatiana Tarasova – Como não posso gostar? Ela é bicampeã mundial.

Elena Sobol – Você acredita que Adelina Sotnikova, campeã olímpica em 2014, irá regressar ao seu nível anterior?

Tatiana Tarasova – Não.

Elena Sobol – Você acredita no Plushenko como treinador?

Tatiana Tarasova – Quando ele der provas então eu acreditarei.




Elena Sobol – A Alina Zagitova está prestes a começar a sua carreira sénior. Ela e a treinadora vão decidir se ela irá tornar-se sénior nesta temporada.
Tatiana Tarasova – Eu falei nisso desde que vi a Alina. Eu disse que aquela menina, estando a patinar e a progredir como tem feito, pode vencer os Jogos Olímpicos. Ela é muito interessante e tem um potencial enorme.

Elena Sobol – Ela deve precipitar as coisas?

Tatiana Tarasova – Ela tem uma boa treinadora que deve responder a essa pergunta. Guardar-se como aconteceu com Stolbova & Klimov nunca devia ser feito. 

Elena Sobol – A Elena Radionova mudou-se para o grupo de Elena Buyanova. Esta vai ser uma relação de trabalho interessante?

Tatiana Tarasova – Sim. A Buyanova sabe como trabalhar com raparigas; resulta bem para ela. Elas já têm programas interessantes, um deles foi feito pelo Peter Tchernyshev. No que diz respeito à parte técnica isso é da responsabilidade da treinadora.

Elena Sobol – Será que iremos ver a Julia Lipnitskaya novamente?
Tatiana Tarasova – Eu penso que não. Ela é uma estrela que brilhou no seu tempo e agradecemos-lhe isso. A Julia foi uma pérola dos Jogos Olímpicos de Sochi. Ela jamais será esquecida – a menina do vestido vermelho. O grande Spillberg enviou-lhe uma carta. Tu alguma vez recebeste uma carta dessas? Não. Eu também não. Mas ela recebeu. Ela foi totalmente reconhecida. Foi o caminho dela. Um novo caminho se abrirá para ela.




Elena Sobol – Os estado da nossa patinagem masculina está longe de ser alegre. O que você nos pode dizer sobre Kovtun? Ele conseguiu medalhas nos Europeus e no World Team Trophy deste ano. Ele progrediu?

Tatiana Tarasova – O progresso às vezes não tem a ver com classificações pois não está relacionado. Há uns tempos ele foi o primeiro a incluir dois quádruplos no programa curto. Agora já não faz isso. Ele costumava arriscar 3 quádruplos no programa livre e já não o faz. De que progresso é que eu posso falar? Ele foi 4.º nos mundiais e agora é 10.º. É um retrocesso. Eu gosto do Maxim mas ele pensou que tinha todo o tempo do mundo. O tempo tem os seus limites. Ele devia trabalhar muito duro. O que é que eu posso dizer sobre o Kovtun ou até sobre o Kolyada? Eles têm de chegar lá e patinar. Ter um “enorme potencial”… Talvez eu seja demasiado exigente. Mas eu não sei ser de outra forma – o meu pai costumava dizer que se era despedido por ter a medalha de prata. Para mim o único lugar que existe é o primeiro. Eles têm o que é preciso para se tornarem primeiros, ou pelo menos conseguir uma medalha, mas eles mal conseguem chegar ao top 10. Ninguém os proíbe de nada. Eles deviam reconsiderar o seu sistema de preparação juntamente com os seus treinadores. Há qualquer coisa que não está a funcionar. E dizer “nós estamos a aprender”… Tu fazes o que fazes. Houve patinadores que integraram novos quádruplos durante a temporada. Então por agora eu não posso responder nada sobre o progresso de Kovtun e de Kolyada. Eu posso afirmar com confiança que não existe progresso.

Elena Sobol – Falando de quádruplos – as senhoras começaram a apresentá-los nos treinos. Esta é uma direcção interessante?

Tatiana Tarasova – Eu gosto.

Elena Sobol – Você acha que Volosozhar & Trankov deviam continuar a competir?

Tatiana Tarasova – Cada um precisa encontrar a sua motivação e a sua força. Essa é que é a questão. Um ponto importante para eles.

Elena Sobol – E Kavaguti & Smirnov?

Tatiana Tarasova – Eu não posso falar por eles mas se tivesse no seu lugar eu não voltaria. São demasiadas lesões. Além disso parece que o Alexander quer tornar-se treinador. Para já ele tem uma professora com quem aprender – a Tamara Nikolaevna Moskvina. Não é comum que os grandes atletas queiram tornar-se treinadores e isso é de apreciar.

Elena Sobol – Você imagina o Trankov como treinador?

Tatiana Tarasova – No passado eu sei que ele quis. Não falei com ele recentemente. O caminho de um treinador é longo. É toda uma vida. Por exemplo, a Nina Mozer tem sido treinadora desde muito jovem, enquanto a sua mãe ainda era treinadora. No entanto, os seus primeiros Jogos Olímpicos foram os de Sochi, quando o público se apercebeu dela.

Elena Sobol – O que é que você pode dizer sobre Tarasova & Morozov?

Tatiana Tarasova – Eles estiveram muito bem este ano. A Tarasova é uma heroína.

Elena Sobol – Eles têm estado na sombra de Stolbova & Klimov?

Tatiana Tarasova – Isso não é verdade. Deixem Stolbova & Klimov em paz, deixem o seu talento em paz. Se eles se recuperarem serão a nossa grande alegria. O ano passado eles foram fuzilados logo à partida…

Elena Sobol – Os dançarinos Bobrova & Soloviev tornaram-se 5.ºs e Stepanova & Bukin 10.ºs.

Tatiana Tarasova – É o melhor resultado que eles podiam ter esperado.

Elena Sobol – É um resultado objectivo?

Tatiana Tarasova – Tu achas que eles foram rebaixados nas notas?

Elena Sobol – Existiram opiniões nesse sentido depois dos mundiais em Helsínquia.

Tatiana Tarasova – Os que dizem isso deviam realmente abrir os olhos e ver quem patinou de que maneira. A Katia e o Dima, que perderam duas temporadas, estiveram muito bem para o seu nível. O que é que nós podemos tentar na categoria de dança? Estes patinadores estão em quinto. Eles devem ficar em quinto nos Jogos Olímpicos se trabalharem no duro e prepararem novos programas interessantes. Já seria um grande resultado.

Elena Sobol – Quantas medalhas é que nós devemos esperar obter nos Jogos Olímpicos?

Tatiana Tarasova – Seria excelente se as meninas conseguissem duas medalhas. Há a hipótese de uma medalha nos pares mas depende de qual. Para alguns a medalha de bronze é muito boa, para outros é um falhanço. Vamos fazer o nosso melhor. Afinal nós não fazíamos ideia que iríamos estar tão bem em Sochi. Mas correu bem. Eu desejo que todos estejam saudáveis e sem dores. Que Stolbova & Klimov recuperem das suas lesões que evitaram que eles estivessem no seu melhor. Que a Evgenia Medvedeva encontre o seu estilo. Que todos melhorem. Brevemente veremos os resultados. Nós temos de ser pacientes.


terça-feira, 13 de setembro de 2016

Tradução de entrevista - Sinitsina & Katsalapov


A jornalista russa Olga Ermolina conduziu uma entrevista com o par russo composto por Victoria Sinitsina e Nikita Katsalapov. A entrevista foi originalmente disponibilizada em língua russa no sítio fsrussia.ru.


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P – Quais foram as maiores dificuldades que tiveram na preparação da temporada que se aproxima?

Nikita: A “preparação” começou com a minha operação ao ombro dois dias após os mundiais em Boston. Foi feita nos Estados Unidos. Foi falado que a reabilitação podia demorar entre 6 e 7 meses, talvez até mais, pois o problema não ocorreu na articulação mas sim no músculo que rasgou. Foi semelhante à lesão do Maxim Trankov e eu sei que ele demorou algum tempo a recuperar. Mas a cirurgia era necessária, daí termos decidido fazê-la imediatamente e deixar isto para trás. Foi bem sucedida. Até pude começar a treinar as figuras de elevação mais cedo que os médicos tinham previsto. Mesmo assim ainda me encontro sob observação. Foi-me recomendado que fizesse sessões de reabilitação, que eu vou fazer em Moscovo.

P – Durante todo esse tempo a Victoria treinou sozinha?

Victoria: Sim, eu treinava sozinha. O Nikita tratava da música, sentado junto das tabelas, com os seus auscultadores. Ele fazia isso só com um braço porque o ombro ainda estava dorido devido à cirurgia. Mas nós planeámos os programas, os novos elementos e, dentro do possível, eu tentei demonstrar coisas no gelo.

P – Nikita, quando é que voltaste ao gelo?

Nikita: A primeira dificuldade era atar os atacadores das minhas botas. Tudo o que me deixavam fazer inicialmente era patinar um pouco, trabalhar com os meus joelhos para que os músculos das pernas se habituassem. Eu comecei realmente a treinar no gelo apenas dois meses após a cirurgia. Os médicos avisaram-me para não cair pois isso levaria a uma nova cirurgia. Eu comecei a trabalhar a tempo inteiro no mês passado mas mesmo assim nós tivemos tempo suficiente para criar dois novos programas, que nós vamos mostrar nos testes. Durante o tempo em que eu não patinei, fizemos um enorme trabalho com os treinadores. Nós reunimos informação, trabalhámos nos programas, discutimos os detalhes. Eu estive presente em todas as sessões de treino. Então eu tinha uma ideia sobre como os novos programas iam parecer.

P – Quais são os programas? Quem escolheu a música?

Nikita: A Marina Zoueva trouxe-nos um trecho musical de Blues, da autoria de Ellingtone, para a primeira parte da nossa dança curta. Foi óbvio que esse estilo nos ia cair bem. A Marina também marcou isso. Nós gostámos dos blues. Depois começámos a procurar pela segunda parte – o swing. Eu pesquisei em todos os sítios possíveis e encontrei “if it ain’t got that swing” da Lady Gaga e do Tony Bennet. Nessa altura, eu aprendi a fazer os arranjos para a música, então nós testámos versões diferentes e acabámos com trecho desses músicos na nossa primeira parte. É uma composição muito gira.

P – E a dança livre?

Victoria: É um tango. Nós desejávamos isto há já algum tempo, queríamos ter patinado um tango na época passada. Eu adoro esse estilo. Nós achámos que estávamos prontos para tentar algo novo nesta temporada. Nós assistimos a imensos vídeos, recolhemos os movimentos, dançámos nós próprios, todo o Verão foi passado nos trabalhos preparativos. Quando começámos a trabalhar no programa foi muito mais fácil pois nós sabíamos o que tínhamos de fazer, como nos mexermos e fazer um tango real.

Nikita: A música é de trechos raros de Piazolla.

P – Uma vez que o Nikita tem de estar constantemente sob observação médica, os vossos planos mudaram?

Nikita: Depois dos testes nós vamos permanecer em Moscovo. Nós vamos prepararmo-nos para os nacionais aqui na Rússia para que eu possa passar pela reabilitação. Isso foi decidido em 05/09 com a Federação russa de patinagem.

Victoria: Nós vamos trabalhar em Moscovo com o Oleg Volkov, supervisionados pela nossa treinadora Marina Zoueva e os seus assistentes. Nós estamos sempre em contacto com a Marina via Skype e internet. Nós mandamos-lhe gravações de todos os nossos treinos, ela faz correcções e diz-nos em que é que nós temos de trabalhar.

Nikita: Nós conhecemos o Oleg Volkov há algum tempo. Eu costumava treinar sob as suas ordens quando patinava no grupo do Alexander Zhulin. Ele é um grande treinador de técnica. Acho que nós os três vamos encontrar uma linguagem comum.

P – O que é que mudou na vossa relação? Os da disciplina de pares dizem que é preciso três anos para se tornarem um verdadeiro par.

Nikita: É verdade. Eu compreendo a Victoria e ela compreende-me. Nós tentamos ver as coisas pelo melhor, gostar do trabalho, gostar do que fazemos.

Victoria: Juntos. Nós temos um objectivo em comum e é para aí que caminhamos.

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Esta entrevista foi concedida por Nikita e Victoria numa altura em que há diversos rumores em torno deles. Um dos factos que começou a levantar dúvidas foi o porquê de Victoria e Nikita estarem longe da sua treinadora principal nesta altura crucial da temporada. Uma coisa é a deslocação para os testes na Rússia pois isso é praticamente uma exigência feita aos principais patinadores russos em cada disciplina. Os patinadores têm de apresentar o seu trabalho de pré-temporada em frente de conceituados especialistas para que estes os avaliem e sugiram eventuais alterações ou concedam a sua aprovação. Só que Victoria e Nikita já confirmaram, tal como nesta entrevista, que se irão manter a treinar na Rússia pelo menos até Dezembro, altura dos campeonatos nacionais. Isso parece estranho visto que eles têm de participar no circuito do grande prémio e precisam da sua treinadora. Tem-se falado sobre a lesão de Nikita. É verdade que ele foi operado nos Estados Unidos e que durante vários meses seguiu um programa de reabilitação por lá. Em fóruns e redes sociais começou a questionar-se o porquê de ele não ficar a ser seguido pela mesma equipa de médicos e agora ter-se mudado para a Rússia usando o argumento da reabilitação. Entretanto surgiu uma informação na página da jornalista russa Elena Vaisekhovskaya em que a própria respondeu a um comentário dizendo que não há possibilidades deste par voltar para Marina Zoueva. No entanto não adiantou pormenores. Já recentemente o TSL confirmou que terá ocorrido um "incidente" em Canton e por isso é que Victoria e Nikita tiveram de voltar para a Rússia. Canton é o quartel-general do grupo de Marina Zoueva e é o sítio onde Victoria e Nikita sempre treinaram desde que se mudaram para os Estados Unidos. Ora, antes de viajarem para a Rússia, Victoria e Nikita foram vistos por diversas vezes (há vídeos) a treinar na pista de Ann Arbor em vez de Canton onde era suposto estarem. Nesse lapso de tempo os rumores dispararam sobre a natureza do "incidente" em Canton. Há quem diga que o "incidente" tem a ver com uma situação em que Nikita supostamente terá agredido Victoria fisicamente. Outros dizem que o incidente tem a ver com uma agressão ou tentativa de agressão a outra equipa que treina com Marina Zoueva e por isso eles foram castigados. A história de que Nikita teria agredido Victoria chegou a ser publicada num post (penso que no Twitter) mas entretanto o post e os respectivos comentários foram apagados. Normalmente a informação prestada pela TSL sobre histórias de bastidores é fiável mas também é verdade que há muita gente capaz de inventar coisas para prejudicar a reputação de atletas. Infelizmente, em situações passadas, algumas informações falsas foram prestadas por pessoas ligadas a equipas adversárias. Esta situação é complexa pois tratam-se de rumores graves e, além disso, Victoria e Nikita são namorados e já vivem juntos há algum tempo. Eu estava relutante em postar aqui algo relacionado com isto e acabei por fazê-lo depois de ver o post do TSL a confirmar a existência de um "incidente" em Canton. Seja como for, logo teremos oportunidade de saber se este par regressará ou não a Canton. Espero sinceramente que nada disto se confirme especialmente no que diz respeito à suposta agressão a Victoria.