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quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Tradução de entrevista de Ksenia Stolbova

Olá a todos e bem-vindos ao blogue :)

A russa Ksenia Stolbova é uma das patinadoras mais populares e juntamente com Fedor Klimov conquistou a medalha de prata nos Jogos Olímpicos 2014, na disciplina de pares, para além de alcançar outros feitos.
O ano de 2018 tem sido particularmente turbulento para ela. Inexplicavelmente, Ksenia não fez parte da lista de atletas convidados para competir nos Jogos Olímpicos de PeyongChang, no âmbito dos problemas ocorridos com o Comité Olímpico russo. Ksenia viu-se envolvida num processo kafkiano em que foi impedida de competir sem nunca ter sido formalmente acusada de nada. Depois ela lesionou-se e não pôde participar nos campeonatos do mundo que decorreram em Milão. Ksenia afastou-se por uns tempos mas os rumores sobre o estado da parceria dela com Fedor Klimov não pararam de crescer. No Verão confirmou-se a separação. Entretanto foi noticiado que Ksenia Stolbova vai continuar a carreira na competição ao lado de Andrei Novoselov. 


Por favor cliquem no link para o artigo para ver as fotos e ajudar a jornalista: https://rsport.ria.ru/figure_skating/20180911/1141664497.html


Ksenia Stolbova
Fonte: Instagram


Tradução de entrevista

Jornalista - Em Dezembro do ano passado tu e o teu parceiro ficaram em segundo lugar nos campeonatos nacionais, foram escalados para a selecção nacional e venceram a prata nos Europeus. A partir de quando é que as coisas começaram a correr mal? Foi quando soubeste que não podias competir nos Jogos Olímpicos?

Ksenia Stolbova - Os Jogos Olímpicos são outro assunto. Mas mesmo antes de saber que eu não tinha sido convidada para PyeongChang, eu percebi que não estava feliz de todo - o ambiente esteve assim desde o início da temporada.

Jornalista - Contudo vocês eram esperados nos Mundiais em Milão. Tu falhaste esta competição porque estavas mesmo lesionada ou isso foi só uma desculpa?

Ksenia - Eu sofri mesmo uma lesão grave. Aconteceu no dia 18 ou 19 de Fevereiro; não me recordo com exactidão. Eu torci a perna duas vezes durante a execução do triplo flip - que é provavelmente o meu elemento favorito. Eu continuei a patinar por mais vinte minutos. Eu percebi que algo de errado se estava a passar com a minha perna mas decidi que iria aguentar, terminar o treino e depois ver o que era. No dia seguinte fizeram-me um exame e o diagnóstico não foi bom: o ligamento estava quase rasgado em três sítios. A perna inchou e parecia um elefante. 

Jornalista - E tu foste para a América em busca de tratamento?

Ksenia - Não. Colocaram-me um suporte e eu fiquei sozinha durante três semanas - ninguém quis saber o que se estava a passar comigo.

Jornalista - Mas houve alguma reacção por parte do teu parceiro e da treinadora?

Ksenia - Assim que a Nina Mikhailovna Mozer regressou dos Jogos Olímpicos, nós conversámos sobre a necessidade de fazer uma longa pausa. Essa foi a única coisa que nós os quatro falámos sentados - eu, o Fedor, a Nina Mikhailovna e o Vladislav Zhovnirsky, que era, de facto, o nosso treinador.

Jornalista - Qual era o significado de "longa pausa"?

Ksenia - Pelo menos meio ano. Eu fiquei confusa quando percebi que, dos quatro, três tinham tomado essa decisão: eu não compreendi, fiquei ressentida e isso somou-se à ausência recente nos Jogos Olímpicos - ainda por cima havia a minha lesão. Eu realmente não compreendi por que é que não podíamos passar os próximos meses a curar a minha perna para depois trabalharmos duramente para que o início da temporada fosse decente e não como a anterior. Eu comuniquei logo à equipa que não podia terminar a minha carreira desta maneira porque iria arrepender-me e iria sentir que desapontei a minha família, a federação de patinagem artística e os meus fãs. Portanto os meus objectivos foram  recuperar o mais rápido possível e continuar a patinar. Mas disseram-me novamente que todos precisávamos de uma pausa.

Jornalista - Quais foram as razões apontadas para a pausa?

Ksenia - Cada um deu a sua justificação. Nina Mikhailovna quis tirar algum tempo para cuidar da sua saúde. Fedor tinha os seus próprios planos e assuntos tal como Zhovnirsky.

Jornalista - Naquele momento não sentiste que eras um empecilho para os teus próprios treinadores? Que Zhovnirsky e Mozer já tinham Zabiiako & Enbert a progredir e tu, com as tuas lesões recorrentes, já não eras necessária?

Ksenia - Não vou esconder que senti isso bem dentro de mim. Mas esses pensamentos apareceram muito antes dessa conversa.

Jornalista - Chegaste a perceber por que é que não foste convidada para os Jogos Olímpicos?

Ksenia - Eu ainda gostaria muito de saber. Eu, como sempre, fui a última a saber que não fui convidada para competir em PeyongChang. Nem os treinadores nem a minha mãe me disseram - todos sabiam mas estavam com medo de me dizer. Um dos meus colegas ligou-me. Claro que fiquei chocada - posso honestamente admitir isso agora. Eu não saí de casa o dia todo. Não houve histeria mas chorei. Durante muito tempo. Até que percebi que chorar não ia adiantar nada e que ainda tinha duas semanas, por isso eu tinha de fazer alguma coisa. Pelo menos para perceber a razão pela qual não me deixaram ir aos Jogos Olímpicos. Eu fui à federação, conversei com a Nina Mikhailovna. Rapidamente me explicaram que eu não podia ir para tribunal. Foi como uma festa em que só se entra por convite e eu não fui convidada. Como é que eu podia processá-los? Por não estar na lista de convidados? 

Jornalista - Sentiste culpa naquele momento? Perante o teu parceiro e os treinadores?

Ksenia - Não, eu estava absolutamente limpa perante todos. Eu sabia, com certeza, que não havia um problema geral pelo qual eu tivesse de responder, simplesmente isso não existia. Eu só queria saber a verdade e não que o COI* mudasse a sua decisão. De qualquer forma eu já não conseguia ir à Coreia. Eu não seria capaz de continuar a humilhar-me - ter que usar aquele uniforme cinzento** como um rato. Eu estava determinada a lutar pela minha equipa mas não por mim própria. 

*Comité Olímpico Internacional

**os atletas russos que competiram em PeyongChang não foram autorizados a usar as cores da Rússia. O uniforme oficial era neutro e em cor cinzenta. 


Ksenia Stolbova
Fonte: Instagram


Jornalista - Quanto tempo é que foi preciso para curar a tua perna?

Ksenia - Estive com gesso durante três semanas, fiz sessões de fisioterapia, como me foi receitado, e a perna ficou mais ou menos boa. Depois tive umas pequenas férias porque psicologicamente estava muito cansada. Em Abril, eu estava pronta para começar a trabalhar e escrevi ao Fedor. Achei que tinha passado tempo suficiente para serenar, esfriar os ânimos e conversar as coisas com mais calma. Encontrámo-nos no rinque e eu perguntei ao Fedor se ele tinha mudado de ideias sobre a pausa de meio ano. E se ele tinha a certeza de que iria querer voltar depois dessa pausa. Ele respondeu com indiferença que não tinha a certeza de nada mas que não mudaria a sua decisão. 

Jornalista - Foi doloroso ouvir isso?

Ksenia - Na verdade não. Para mim, muito claramente, o meu cérebro começou a funcionar e as emoções foram deixadas para segundo plano. Eu sei que não sou mais uma garota, que já sofri muitas lesões e que precisava de perceber claramente se eu seria capaz de patinar ou não.  Esta foi a minha única dúvida. Quando um homem de 27 anos não sabe claramente o que quer ou o que deseja, o que é que eu posso fazer? Sim, posso dizer que eu era a força motriz, como alguns me chamavam. Mas nesse momento eu percebi perfeitamente que não queria carregar tudo sozinha. Especialmente por alguém que, desde Fevereiro, nem sequer perguntou como estava a minha perna. Se eu precisava de ajuda, de apoio.

Jornalista - Quando é que começaste a procurar um novo parceiro?

Ksenia - Não foi imediatamente. No início do Verão, eu estava a fazer reabilitação em Nova Iorque com o nosso médico Jorge - ele trabalha há vários anos com patinadores do nosso grupo. Eu recebi muito apoio da Tatiana Tarasova, que também estava nos Estados Unidos, e que disse reiteradamente que a minha parceria com o Klimov não devia acabar. Que eu devia fazer o possível para manter a parceria. Depois a Tatiana Anatolyevna regressou a Moscovo e eu comecei a treinar lentamente no rinque de Nikolai Morozov - o Jorge e outros especialistas que eu consultei deram-me "luz verde" - eles disseram que a minha perna aguentaria. Eu tive um encontro fugaz com Fedor nos Estados Unidos, porque nos encontrámos acidentalmente na mesma companhia. Nós até nos cumprimentámos e tudo. Mais tarde eu soube que ele enviou um SMS ao Kolya*: ele tinha considerado tudo e não queria continuar a patinar.

*Kolya é o diminutivo de Nikolai. Por isso ela está a referir-se a Nikolai Morozov.

Jornalista - Recomeçar uma carreira a partir do zero com 26 anos de idade, com um novo parceiro, para uma patinadora com o teu palmarés, é uma decisão difícil.

Ksenia - Isto acontece-me desde que eu tinha 14 anos - desde a puberdade. Houve uma altura em que eu decidi que estava farta de competir individualmente e que queria patinar na categoria de pares. Eu disse isso à minha mãe e ao meu treinador com toda a certeza. Podes ficar surpreendida mas eu nunca duvidei que ia encontrar um parceiro, que ia ter uma boa equipa e que as coisas iam funcionar. Quando eu me separei do meu primeiro parceiro, eu estava confiante que ia encontrar outro e que nós iríamos aos Jogos Olímpicos. Não sei porquê mas tinha a certeza. E, passados dois meses, apareceu o Fedor. Seja como for, a nossa caminhada de nove anos acabou por ser boa. 

Jornalista - Com a tua determinação, não tens pena de não ter procurado um novo parceiro mais cedo ou de ter mudado de treinadores quando começaram a aparecer os primeiros problemas no grupo?

Ksenia - Eu quis fazer isso.

Jornalista - O que é que te impediu?

Ksenia - Provavelmente a minha personalidade. Quando eu começo uma coisa é para ir até ao fim. Quando, em 2014, decidimos avançar para mais um ciclo olímpico, eu tinha de consegui-lo. Apesar das lesões, incompreensões, mentiras, intrigas e provocações - fosse o que fosse. Eu tinha de fazê-lo e isso era o mais importante. Mesmo apesar das dúvidas que eu tinha sobre a equipa e o parceiro.

Jornalista - O exemplo da Aljona Savchenko, que mudou de parceiro depois dos Jogos de Sochi e venceu os Jogos Olímpicos na Coreia com 34 anos, tem alguma coisa a ver com o que se está a passar agora contigo?

Ksenia - Nada a ver. Eu respeito muito a Aljona e felicito-a. Mas o seu exemplo não é o único - não apenas entre os atletas olímpicos e paralímpicos, mas também entre as pessoas comuns que recomeçam a vida do zero e atingem o sucesso. Se falarmos em motivação, a minha mãe motiva-me muito. E ela apoia-me nos momentos difíceis e estimula-me quando é preciso.

Jornalista - Estou a ouvir-te agora e a pensar em como estavas totalmente satisfeita com a tua vida após Sochi. O que é que te fez pensar que afinal a vida não estava a correr como tu desejavas?

Ksenia - Se calhar… Se calhar não, de certeza - a faísca foi-se. A faísca nos olhos da nossa equipa. De repente tudo se tornou mais confortável: ele comprou o carro com que tinha sonhado a vida toda, outros compraram um apartamento, uma casa de férias. Por muitos anos eu tive o sonho de comprar um apartamento e um carro para dar à minha mãe. E de repente tudo isso foi possível. Ou seja, nós todos caímos numa enorme zona de conforto, em que todos os nossos sonhos se podiam tornar realidade e onde não havia mais fome. Fome pelos resultados. Percebi que as coisas estavam a correr mal quando eu e o Fedor não fomos aos mundiais de Xangai em 2015. Antes disso, o final do programa livre nos campeonatos da Europa, em Estocolmo, não foi bem sucedido pois o Fedor caiu e perdemos para a Yuko Kavaguti e o Alexander Smirnov. Mas isso pode ser encarado como um acidente. Mas o facto de não termos ido aos mundiais e começado a trabalhar nos saltos quádruplos lançados foi, na minha opinião, um erro colossal.

Jornalista - Que eu saiba, a ideia de aprender esse elemento partiu de ti.

Ksenia - Eu não escondo que sempre quis aprender esse elemento. Eu aprendi, eu fiz isso. Simultaneamente entendi que era inútil integrar o quádruplo lançado num programa de competição. 

Jornalista - O que é que aconteceu depois, na temporada seguinte? Vocês venceram a Final do Grande Prémio, em Barcelona, com um programa brilhante mas a retirada dos campeonatos nacionais e dos Europeus parece que foi feita para vos tirar do caminho para que Volosozhar & Trankov pudessem vencer ambas as competições sem empecilhos.

Ksenia -  Posso apenas dizer que algumas coisas não me caíram bem. Logo após a Final do Grande Prémio, os treinadores disseram-nos que, como as coisas estavam a correr bem, fazia sentido abdicar dos Campeonatos Nacionais da Rússia para trabalhar no quádruplo lançado. Ou seja, ficou claro que estava a ocorrer algum jogo. Eu tentei ficar fora disso - já estava a ser suficientemente difícil dessa forma. 


Programa livre de Stolbova & Klimov na Final do Grande Prémio 2015

Jornalista - Tu e o Klimov sempre pareceram muito diferentes. Mas nessa temporada tornou-se óbvio que tinham problemas de comunicação.

Ksenia - Nós nunca a tivemos. Nós íamos aos treinos, fazíamos o nosso trabalho e sabíamos o que estávamos a fazer e porquê. 

Jornalista - Vocês discutiam muito?

Ksenia - Acontecia. Eu sou muito temperamental, emocional e perfeccionista. Não importava o quanto nós trabalhávamos, eu sempre queria fazer mais e melhor. Eu estava sempre no limite e compreendi isso.

Jornalista - E a zona de conforto que mencionaste no início da nossa conversa?

Ksenia - Demorei algum tempo a perceber que tinha de sair rapidamente dessa zona de conforto. Eu tentei que o Fedor fizesse o mesmo mas falhei. Naquela altura eu estava constantemente a irritá-lo. Nesses casos, a pessoa simplesmente coloca uma armadura e pára de compreender o que tu estás a querer dizer. Além disso houve outras pessoas que atiraram achas para a fogueira. 

Jornalista - Como é que encontraste o teu novo parceiro?

Ksenia - Na verdade foi muito simples. Eu continuei a recuperar da lesão, a patinar e, posso dizer, à espera. Eu não andei a ler os fóruns na internet, não pedi a ninguém para perguntar, não quis quebrar a parceria dos outros. Claro que eu li algumas notícias porque eu sabia que o período após os Jogos Olímpicos é sempre turbulento. Mas, no geral, as coisas aconteceram por acaso. De momento não acho apropriado falar sobre detalhes do nosso trabalho porque oficialmente o nosso par ainda não existe mas não há dúvida de que seremos capazes de patinar juntos - nem eu nem ele duvidamos disso. Provavelmente é como em qualquer relacionamento: uma pessoa simplesmente sente-se confortável com a outra ou não. Pelo olhar, pelo toque, pela maneira de falar, pelo cuidado.  Eu percebi imediatamente que não tinha de procurar mais. É claro que será necessário ajustar algumas coisas, adquirir novos hábitos, mas é um prazer. Eu estou a começar a repensar e a reaprender algumas coisas. Eu gosto de sentir a química com o novo parceiro, com o meu cérebro a trabalhar novamente. 

Jornalista - Não tens medo de não ter chama suficiente até ao fim? Que vais ficar cansada e aborrecida se os resultados não aparecerem tão depressa como tu queres?

Ksenia - Eu não tenho medo disso. Eu fiquei muito magoada. Eu amo patinar e sei o que quero. Mesmo agora, às 22h30, eu estava quase morta de cansaço e, apesar de tudo, eu gosto desta dor. Eu realmente voltei a gostar de patinagem artística. Estou por tudo. Absolutamente tudo. 



O que é que acharam da entrevista? Se quiserem mandem-me os vossos comentários aqui no blogue ou no Facebook/Twitter.
Por hoje é tudo aqui no blogue mas brevemente vou publicar mais coisas.

Fiquem atentos e boa patinagem! 

terça-feira, 20 de março de 2018

Evgenia Medvedeva - Tradução de entrevista

Apesar de todos os percalços que lhe aconteceram durante a temporada 2017/2018, a russa Evgenia Medvedeva continua a ser a grande protagonista da patinagem feminina a nível mundial. Muitos fãs ficaram por isso muito tristes com a notícia de que ela abdicou da participação nos campeonatos do mundo 2018 que vão decorrer em Itália entre os dias 21 e 24 de Março. 
Nessa sequência aqui fica a tradução de uma entrevista que a patinadora concedeu à RT.

Link para original: https://russian.rt.com/sport/article/492281-medvedeva-intervyu-rt


Pergunta: A tua desistência dos campeonatos do mundo foi anunciada no início desta semana. Foi uma decisão difícil de tomar?
Evgenia - Qualquer desistência de uma competição é difícil seja em que altura for. Infelizmente esta não é a primeira competição que eu vou falhar esta temporada. E sim, é difícil. Vai ser ainda mais difícil estar sentada no sofá a ver a transmissão em directo de Milão. As pessoas devem entender que não é por eu estar cansada após os Jogos Olímpicos, é que o meu pé dói-me muito. Nestas condições eu estou fisicamente incapaz de patinar com toda a força. Eu nem sequer consigo treinar como deve ser. Eu submeti-me a um exame médico e o veredicto foi de dois meses para recuperação - ponto final. 

Pergunta: O comunicado de imprensa diz: "para restringir o alto esforço específico no pé". Podes clarificar se vais parar de patinar completamente durante dois meses ou se apenas vais parar de saltar?
Evgenia - Eu não posso saltar. Eu posso patinar mas com calma.

Pergunta: Vais fazer alguns treinos durante estes dois meses? Parece que está toda a gente muito preocupada com isso...
Evgenia - De momento a coisa mais importante é curar a minha lesão antiga. Já se passaram seis meses, eu quero deixar isto para trás e esquecer tudo isto. 

Pergunta: Quando começaste a sentir os sintomas, deves ter compreendido que terias de tomar uma decisão destas?
Evgenia - Ninguém sabia de nada com antecipação por isso é que adiámos a decisão até ao último momento. Nós tínhamos esperança de que não chegasse a este ponto. Mas só falta uma semana, eu não conseguiria ficar em forma para os mundiais mesmo se quisesse.

Pergunta: Mas tu estavas pronta para patinar com o pé enfaixado ou com analgésicos?
Evgenia - Eu estou sempre pronta para aguentar porque faz parte do desporto; é um axioma. Se não tiveres isso em ti, não vais conseguir resultados. Então se houver uma oportunidade e a minha condição permitir e se não prejudicar a minha carreira, que eu espero que dure por muitos anos, eu estou pronta para estes sacrifícios. 

Pergunta: Quando a FFKR publicou estas notícias, a internet explodiu. De repente todos são especialistas, todos discutem por que é que ainda não tens os programas para a próxima temporada. Podes explicar ao público por que é que não tens um plano a longo prazo?
Evgenia - É simples. Os Jogos Olímpicos acabaram mas a temporada ainda não terminou. Os programas novos são criados no intervalo entre temporadas, quando todas as competições terminaram. Há muitos meses para criar, coreografar e aperfeiçoar os programas novos. 

Pergunta: Tiveste a hipótese de fazer uma pausa depois dos Jogos Olímpicos? O que é que fizeste?
Evgenia - Eu tentei preencher a minha alma. Eu li livros, ouvi música nova, descarreguei muitos jogos novos para o meu telefone, tentei fazer coisas novas. Eu faço muitas coisas. Eu sinto que preciso de preencher o recipiente com coisas novas.

Pergunta: Quando estavas a viajar para PeyongChang provavelmente percebeste que quando regressasses o mundo estaria diferente. O país inteiro estava à espera que tu ou a Alina Zagitova vencesse o ouro, o primeiro ouro destes Jogos Olímpicos. 
Evgenia - Eu penso que estávamos preparadas para isso. Aliás, devemos sempre perceber que hoje vivemos num mundo e amanhã vamos acordar num mundo diferente. É a vida, ela muda como imagens num ecrã. 

Pergunta: Quando tu chegaste, tu foste directamente do aeroporto para a tua pista de gelo. Sentiste o apoio dos outros patinadores? Qual é o sentimento de ter toda uma nova geração a olhar para ti como modelo?
Evgenia - Eles manifestaram o seu apoio ao ficar na pista de gelo até tarde. Todos tinham os seus próprios planos, muitos tinham que estar na escola de manhã muito cedo. Muitos pais perguntaram aos filhos: "Se calhar devíamos ir para casa? Amanhã tens de levantar-te às seis da manhã." Mas as crianças responderam "Não, mãe, eu quero tirar uma foto com a Evgenia e com a Alina." Isto é o mais precioso. As crianças são o nosso maior público, elas são sinceras e não mentem.

Pergunta: O teu sucesso é a melhor publicidade para a escola? (Nota: referência à escola Sambo 70)
Evgenia - A patinagem artística está cada vez mais popular a cada ano. Eu penso que, se comparares com há cinco, não havia tanto hype.

Pergunta: As mudanças de regras que estão a ser discutidas, na sequência dos teus sucessos, podem estragar o interesse na patinagem artística?
Evgenia - O nosso desporto não é estático. Há sempre algo novo, a complexidade está sempre a aumentar e o número de rotações dos saltos está constantemente a crescer. Bastou ver os campeonatos do mundo de juniores para perceber isso. A patinagem artística está a fazer avanços enormes. Isso é bom, é como deve ser. Porque a humanidade evolui. E as regras vão sempre sofrer mudanças. E o que é que nós, os atletas, podemos fazer? Adaptarmo-nos às novas condições e continuar a lutar. Ninguém vai dizer "Estou fora" na primeira oportunidade. É o nosso desporto favorito e nós não vamos desistir. É ainda mais interessante desta forma, há um novo entusiasmo, nova motivação. 

Pergunta: Então os dois quádruplos da Alexandra Trusova é o novo desafio que tu vais aceitar?
Evgenia - Claro. Eu não vou entrar em pânico, isso é inútil. O mais importante é sentar-me e analisar a situação. Há um facto que é o ponto de partida para começar a trabalhar. Resume-se a trabalho árduo, paciência e uma enorme vontade. 


Pergunta: Foste elogiada até aos píncaros durante dois anos mas, desde que falhaste o ouro e depois do triunfo de Trusova, correm rumores de que vais desistir, deixar a Eteri Tutberidze e mudar de país. Eles arreliam-te?
Evgenia - Todos têm o direito à sua opinião. Nós vivemos num país livre, todos podem dar a sua opinião. Pessoalmente, eu penso que é melhor não colocar palavras na boca dos outros e não falar pelos outros se ainda não existir informação oficial. É melhor não começar a entrar em pânico e fazer estes vazamentos nas redes sociais.

Pergunta: Na tua opinião por que é que isso acontece?
Evgenia - Eu penso que as pessoas têm sentimentos muito fortes por mim; é a sua mensagem emocional. Eu estou muito grata pelo seu amor e atenção mas parece que algumas pessoas não conseguem entender a ideia de que eu amo o meu país e só o vou representar a ele. 



Pergunta: Voltemos aos Jogos Olímpicos. Depois da competição de Senhoras tu disseste: "Acho que aconteceu da maneira que tinha que acontecer".
Evgenia - Eu sou aquela pessoa que tenta ver a situação com os olhos dos outros. Eu penso que mais tarde vamos compreender por que é que as fichas caíram da maneira que caíram.

Pergunta: Tu reviste o teu programa livre?
Evgenia - Sim.

Pergunta: Quantas vezes?
Evgenia - Uma.

Pergunta: Qual foi a tua impressão?
Evgenia - Quando eu estava a viajar para PeyongChang, o meu maior medo era de regressar a sentir remorsos, dúvidas, pensando que deveria ter patinado melhor os meus programas. Mas eu não tenho esses sentimentos e estou muito contente por poder dizer "Eu dei tudo de mim".

Pergunta: Então não sentes amargura por ti própria?
Evgenia - Porquê? Eu fiz tudo o que aprendi e coloquei a minha alma nisso.

Pergunta: Toda a gente viu as tuas lágrimas depois do programa livre e o teu abraço sentido à Alina depois das notas terem sido anunciadas mas há um momento que foi deixado de fora. A Eteri Tutberidze foi ter contigo, abraçou-te e começou a dizer-te qualquer coisa. Podes partilhar o que é que ela te disse?
Evgenia - Não, não posso.

Pergunta: Foram as palavras que querias ter ouvido naquele momento?
Evgenia - Acho que sim.

Pergunta: Mais tarde, na zona mista, tu disseste que o teu programa é muito básico e que tinhas de acrescentar mais dificuldade. Tu já sabes como fazer isso?
Evgenia - Eu gostaria de manter isso em segredo.

Pergunta: O que é que tu sentiste depois de vencer duas medalhas de prata?
Evgenia - Sabes, o ambiente em torno destes jogos foi muito estranho. Tudo podia acontecer. Então para mim a coisa mais importante foi continuar a trabalhar e depois deixar tudo no gelo, abrindo a minha alma e mostrar tudo o que podia. Eu só queria patinar.

Pergunta: Qual foi a parte mais memorável dos Jogos Olímpicos?
Evgenia - Depois da minha prestação eu ouvi as pessoas falar em russo. O público cantou "Zhenya* muito bem". Foi muito estranho porque estávamos na Coreia mas tudo o que eu ouvia era falar russo. (*Zhenya é o diminuitivo de Evgenia).

Pergunta: Houve algum momento em que estiveste quase a perder o ânimo por causa de todos os problemas políticos e escândalos que afectaram a equipa russa?
Evgenia - Eu tinha um objectivo e trabalhei para atingi-lo. Eu penso que o mesmo pode ser dito sobre qualquer um dos atletas da nossa equipa. Mas eu senti o apoio e pude concentrar-me na minha tarefa. É muito difícil trabalhar quando estás sempre a ouvir "A Rússia isto, a Rússia aquilo, a Rússia vai ser banida dos Jogos Olímpicos". Algumas vezes estava a ser muito difícil mas eu não vi televisão, não li as notícias, apenas me concentrei no meu trabalho e aqui está o resultado: duas medalhas de prata.


Pergunta: E as tuas colegas de equipa? Como é que elas lidaram com a pressão?
Evgenia - Para ser honesta eu não falei com elas sobre isso porque, um mês antes dos Jogos Olímpicos, eu concentrei-me completamente no meu trabalho. Eu só falei com os meus treinadores e com os meus pais.

Pergunta: Sentiste o apoio dos atletas dos outros países nos Jogos Olímpicos?
Evgenia - Sim, com certeza. Nós não nos vemos com muita assiduidade, então nós tentamos desfrutar de cada competição e nós falamos uns com os outros porque pode não haver outra oportunidade. É um sentimento maravilhoso quando os estrangeiros te apoiam.

Pergunta: Tu estavas à espera de marcar presença na cerimónia de encerramento com a bandeira da Rússia; como é que te sentiste sobre isso?
Evgenia - Eu decidi marcar presença na cerimónia porque pensei que talvez fosse a minha única oportunidade de participar num evento destes, apesar de, claro está, eu ter esperança de fazer parte da equipa em Pequim. (Nota: os Jogos Olímpicos de 2022 vão realizar-se em Pequim)

Pergunta: O teu último post no Instagram é dos bastidores de uma sessão fotográfica para uma revista de moda. Isso é mais interessante para ti do que a patinagem?
Evgenia - Eu sou uma pessoa criativa, eu gosto de coisas diferentes, eu gosto de novas imagens, experiências com maquilhagem e penteados. Eu gosto de desenhar apesar de não ser muito boa nisso. Eu adoro música, eu gosto de teatro e de filmes. Eu gosto de todos os tipos de arte.

Pergunta: Gostarias de tentar a tua sorte como actriz depois de parares de patinar?
Evgenia - Não, eu já estou demasiado envolvida com o desporto. Eu penso que ficarei ligada à patinagem artística para o resto da minha vida.

Pergunta: Tu és uma miúda culta e educada. Isso ajuda-te no gelo?
Evgenia - Tu não conseguirás atingir resultados se tiveres uma cabeça oca. Todos os desportos exigem cálculos frios. Tu tens de saber muitas coisas diferentes independentemente de qual é a tua principal especialização. Tu precisas de matemática, tu precisas de ser um bom comunicador porque se falares de forma desarticulada isso significa que a tua mente também está uma bagunça. Falar de forma eloquente e apropriada é uma arte tal como a patinagem artística.

Pergunta: Não há campeões estúpidos?
Evgenia - Não. Cabeça saudável num corpo saudável.



Pergunta: Dizem que os japoneses estão a fazer um documentário sobre ti...
Evgenia - Sim. Se bem me recordo vai estrear no dia 30 de Junho mas não vou falar sobre isso.

Pergunta: E se houvesse um filme ficcional sobre Evgenia Medvedeva, quem é que podia representar-te?
Evgenia - Keira Knightley. Eu já a representei no gelo.

Pergunta: Onde é que vais buscar ideias para os programas novos?
Evgenia - Eu tenho uma imaginação fértil. Às vezes eu tenho ideias malucas que nem sequer posso contá-las aos meus pais ou aos meus treinadores porque eles podem pensar que eu perdi o juízo.

Pergunta: Qual foi a última das tuas ideias malucas?
Evgenia - Que eu quero aprender a cantar.

Pergunta: E como é que ias arranjar tempo para isso?
Evgenia - O problema é esse: eu não tenho tempo.

Pergunta: Tu tens uns gostos musicais invulgares. Tu disseste que antes do programa livre, tu ouviste quatro álbuns de seguida da tua banda favorita. Porque não música clássica?
Evgenia - Porque quando tu ouves a música que vais patinar, tu já não te sentes a voar quando patinas essa música. Isso desgasta-te, faz o teu cérebro pesado. Provavelmente detestas o som do despertador por isso não o colocas nos auscultadores e ficas a ouvir isso. Porque precisas de ouvi-lo para acordar. Passa-se o mesmo com a música que patinamos. Eu tenho a certeza que muitos patinadores não ouvem as suas músicas. Eu nem sequer as tenho na minha lista. Porque tens de colocar a tua alma nela e se começares a ouvir essas músicas muitas vezes isso vai sugar a tua alma.

Pergunta: O que é que tu pensas quando patinas? Tu olhas para o público, vês a reacção?
Evgenia - Por algum motivo eu nunca vejo o público; eu apenas olho para os juízes e para dentro de mim. Habitualmente eu penso sobre se há alguma coisa de errado e como corrigir isso. É um cálculo frio que eu referi há pouco. Infelizmente não há tempo para pensamentos românticos durante a prestação. Quer dizer, eu senti qualquer coisa durante o programa livre nos Jogos Olímpicos. Foi um sentimento mágico...

Pergunta: Então foi a primeira vez na tua carreira que foste dominada pelas emoções?
Evgenia - Sim. Mas foram as emoções e o ambiente. A minha própria patinagem não me faz chorar.

Pergunta: Antes dos Jogos Olímpicos tu disseste que eles são um evento especial e que ia haver electricidade no ar e depois do teu regresso disseste que foi mais calmo dos que nos Europeus e nos Mundiais.
Evgenia - Muito mais calmo. Eu penso que é por acontecer apenas um ou duas vezes na vida e não podes dar-te ao luxo de te deixares levar pelas emoções. Por isso é que eu fui para o gelo totalmente concentrada. Eu compreendi que se não controlasse os meus nervos podia estragar tudo.

Pergunta: Tu disseste que depois dos Jogos Olímpicos ganhaste mais 400.000 seguidores nas redes sociais. Como é que lidas com isso?
Evgenia - Agora são mais 500.000. Eu estou a habituar-me. Agora quase toda a gente me reconhece nas ruas de Moscovo. Motiva-me a conseguir ainda mais.

Pergunta: Os fãs da Alina Zagitova deram-lhe um cachorro. Que presentes é que os fãs te deram?
Evgenia - O seu amor. É suficiente.

Pergunta: Depois da cerimónia de encerramento tu mostras-te no Instagram todos os peluches que recebeste. Quantos sacos?
Evgenia - Seis. Eu guardo-os todos. Um peluche recolhido do gelo olímpico é considerado uma relíquia. A Alina e eu demos uma parte dos peluches às crianças da nossa escola, outra parte foi enviada para um orfanato. Quantos mais peluches, mais crianças felizes.

Pergunta: Já te atiraram objectos fora do vulgar para a pista?
Evgenia - Não. Mas a alguns patinadores já. Alguns dos rapazes receberam roupa interior feminina. É muito estranho e fora do vulgar.

Pergunta: As pessoas estavam a falar sobre os teus planos de patinar um programa em conjunto com Yuzuru Hanyu?
Evgenia - Eu não ouvi nada sobre isso. É impossível pois nós treinamos em países diferentes. Para patinarmos um programa de exibição em conjunto, temos de trabalhar nisso, escolher a música, coreografar as sequências de passos, etc.

Pergunta: Muitos patinadores mantêm-se em forma e continuam a patinar mesmo depois de terminarem a sua carreira competitiva. Imaginaste fora do gelo?
Evgenia - Com dificuldade e apenas num futuro muito muito distante.


quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Tradução de entrevista de Evgenia Medvedeva

A bicampeã mundial Evgenia Medvedeva concedeu uma entrevista à jornalista Olga Ermolina depois da sua bem-sucedida participação no Open do Japão 2017. O principal tópico da entrevista foi o programa livre de Evgenia para esta temporada.







O link original pode ser consultado aqui: http://www.fsrussia.ru/intervyu/3242-evgeniya-medvedeva-proizvolnuyu-programmu-my-pomenyali-posle-turnira-v-bratislave.html


Tradução de entrevista


Olga Ermolina - Zhenya (*diminutivo de Evgenia), por que é que decidiste mudar o programa livre e por quê "Anna Karenina"?


Evgenia Medvedeva - O programa "Anna Karenina" foi inicialmente criado para um número de exibição. Eu patinei-o pela primeira vez num espectáculo no Japão. A reacção do público foi óbvia - o programa foi muito bem aceite. Eu senti o personagem, vivi-o. É uma linda e poderosa música da banda sonora do filme "Anna Karenina" que me penetra, eu moldo-me a essa peça. Toda a equipa adorou a exibição e alguém sugeriu entredentes por que não usá-la como programa livre. Será errado dizer que o programa livre anterior coreografado pelo Ilya Averbukh não resultou. Pelo contrário, no Ondrej Nepela o feedback do público foi bom e as notas atribuídas pelos juízes foram altas. Mas o personagem Karenina emocionou-me tanto que eu decidi que tinha de mudar. Em conjunto com os treinadores, nós decidimos que "Anna Karenina" resultaria melhor para mim na temporada olímpica.


Olga Ermolina - Os programas na época olímpica devem ser diferentes? Em caso afirmativo - de que modo?


Evgenia Medvedeva - Eu considero que os programas olímpicos devem ter uma música poderosa facilmente reconhecida que deve ser óbvia para os teus compatriotas sem necessitar de traduções. Anna Karenina é assim. Alguns podem não ter lido o livro de Leon Tolstoy mas é provável que o filme de 2012, que venceu um Oscar, protagonizado pela Keira Knightley, e com actores como o Jude Law, tenha sido visto por muita gente. Todos os amantes da patinagem artística e profissionais: não percam mais tempo e assistam ao filme se ainda não o viram. Vocês vão gostar muito. Isto é o que estou a mostrar no gelo e se virem o filme vão perceber tudo. A música do programa faz parte da banda sonora e foi nomeada para o Oscar de melhor trilha. É poderosa, penetrante, vai directa ao coração. Sempre foi importante para mim entender o que eu estou a patinar, que história é que eu estou a contar no gelo. Eu entendo o tema de Karenina - a sua história de amor, as suas preocupações. Uma personagem tão específica é fora do comum para mim. É muito interessante trabalhar nela.


Olga Ermolina - Quando é que foi tomada a decisão de mudar o programa livre?


Evgenia Medvedeva - Depois da competição em Bratislava. Foi decidido que mudaríamos o programa livre para "Anna Karenina". Esta não foi uma decisão fácil. Claro que é um risco mudar o programa durante a temporada. Mas como a época ainda estava no início, nós tivemos tempo suficiente.


Olga Ermolina - Quão diferente é o programa livre da exibição?


Evgenia Medvedeva - Um número de exibição é diferente de um programa de competição, então nós tivemos de proceder a alterações para acomodar o conteúdo, acrescentar os saltos. Mas a ideia geral, o desenho, os passos, os peões são os mesmos. Depois de Bratislava até ao Open do Japão, nós trabalhámos no novo programa livre. Como o programa me é tão confortável, o trabalho foi fácil e divertido.


Olga Ermolina - Por favor relembra-nos quem é que coreografou "Anna Karenina"?


Evgenia Medvedeva - O Daniil Gleikhengauz e a Eteri Tutberidze. Mas deixa-me salientar que gostei muito do programa livre feito pelo Ilya Averbukh. Eu não o rejeitei e poderei patiná-lo novamente no futuro.


Olga Ermolina - Os resultados no Open do Japão, de acordo com as notas, demonstram que a decisão foi acertada?


Evgenia Medvedeva - As notas nos componentes foram mais elevadas para a "Anna Karenina". E repito que eu me sinto muito confortável a patinar este programa. Eu adoro o personagem. Eu penso que o programa é um sucesso. Mas não sou eu que devo julgar, isso fica para os juízes e para o público.





sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Tradução de entrevista de Elizaveta Tuktamysheva

Elizaveta Tuktamysheva está na ribalta da patinagem feminina desde o escalão júnior. Na temporada 2014/2015, Elizaveta conquistou o título europeu e o título mundial e parecia imbatível, com o triplo axel à mistura. No entanto, na época passada, ela afundou-se nos campeonatos nacionais, onde a concorrência é muito forte, e foi deixada de fora da selecção nacional russa para as principais competições internacionais. Esta temporada é especial devido aos Jogos Olímpicos de 2018 e Elizaveta é uma das candidatas a representar a Rússia nessa importante competição. Nos testes organizados pela federação russa as coisas parecem ter corrido bem a Elizaveta e muita gente gostou especialmente do seu novo programa curto. 

Entretanto, ela concedeu uma entrevista a um órgão de comunicação social da Rússia cujo original pode ser consultado neste link: http://www.sport-express.ru/figure-skating/reviews/elizaveta-tuktamysheva-opyt-nepopadaniya-na-olimpiadu-moe-preimuschestvo-1307288/




Tradução de entrevista

Jornalista – Como está a decorrer a preparação para a temporada?

Elizaveta – Já há algum tempo que estamos a treinar os programas completos. Eu encontro-me numa forma decente. Certamente em melhor forma do que na mesma fase no ano passado.

Jornalista – O que é que foi mais importante nos testes em Sochi?

Elizaveta – Mostrar os programas completos. Claro que eles estavam a verificar a parte técnica mas o mais importante é o estado do programa: as transições, os peões, os passos. Essas coisas fazem realçar o programa. O ambiente estava algo nervoso apesar de compreenderes que não é um evento importante. Mesmo assim é o primeiro evento da época e, como diz o meu treinador, “só um idiota não ficaria preocupado”.

Jornalista – Tu e o teu treinador já compilaram o plano da temporada?

Elizaveta – De momento estamos a planear um início de temporada intenso. O Troféu Lombardia e depois talvez mais algumas competições. Eu penso que antes dos grandes prémios vamos fazer pelo menos 3 competições.

Jornalista – A triste experiência de não teres ido aos jogos olímpicos – esse é o teu ponto fraco ou uma vantagem?

Elizaveta – Eu vou tentar transformar isso numa vantagem. Especialmente porque tantas pessoas acreditam em mim. É motivador.

Jornalista – Qual é o estado da tua técnica?

Elizaveta – Eu recuperei todos os triplos, agora só tenho de fazê-los em competição. Só tenho feito o triplo axel nos treinos. Para já, nós pensamos colocá-lo só num programa. O programa livre.

Jornalista – Olhando para o conteúdo técnico das miúdas juniores, tu pensas em ti própria no início do teu caminho com “eu também conseguia saltar com essa facilidade”?

Elizaveta – Não de todos. Parabéns às garotas. É óptimo que a patinagem artística se desenvolva. Eu desejo que as garotas possam patinar aos 20 anos como elas patinam agora, quando as hormonas, etc, já fizeram estragos. Eu não penso nos “tempos antigos”. Pelo menos eu tento não pensar. Eu prefiro que os meus saltos sejam mais fáceis na actualidade.  

Jornalista – Os comentários do género “A Liza nunca regressará ao seu nível anterior” chateiam-te?

Elizaveta – É engraçado que as pessoas que me descartam são as que já nem estão no sistema. Quanto aos fãs, eles são pessoas emocionais e sentem pelo seu atleta. Então há aqueles que são a favor e os que são contra. Mas, francamente, eu não tenho tempo para ler os comentários. Se eu estive fora dos Europeus e Mundiais, isso significa que esse tempo me foi dado para outra coisa. Eu curei-me, tentei novas personagens no gelo, passei mais tempo com os meus entes queridos. Isso é uma coisa má?

Jornalista – Uma das últimas tendências são os saltos na segunda metade do programa ao modo ‘tano ou Rippon. Vais tentar aumentar o valor base dos teus programas com isso?

Elizaveta – Claro que posso. Levantar assim os braços não é nada de especial. Quanto a integrar os saltos na segunda metade do programa, bem, no meu programa curto dois elementos são na segunda metade. Mesmo assim, apesar da mudança para a segunda parte do programa dar mais pontos, eu não gosto de programas em que a garota patina às voltas durante dois minutos. O conjunto do programa é parcialmente conseguido pela boa distribuição dos saltos. Os programas têm de ser um mini-teatro no gelo.

Jornalista – No entanto, muitos especialistas consideram-te uma tecnicista pois os componentes não são o teu ponto forte.

Elizaveta – De facto, eu sou muitas vezes considerada uma saltadora. Eu espero que nesta temporada eu também brilhe nos meus programas.

Jornalista – O que é que podes dizer sobre os novos programas?

Elizaveta – Eu adoro os meus programas e penso que não vamos mudá-los. Eles saíram coloridos, emocionais e divertidos. Pelo menos no programa curto. Eu penso que será a minha personagem habitual mas um pouquinho diferente.

Jornalista – E como é que vais parecer?

Elizaveta – Alegre, divertida, brincalhona. Claro que haverá paixão e elegância. Claro que é sobre os dois programas e não tudo de uma vez.

Jornalista – Os fãs questionam-se sobre o porquê de nas exibições usares vestidos coloridos e sexys e, no entanto, nas competições habitualmente vestidos largos e escuros.

Elizaveta – Nós escolhemos os vestidos de acordo com as minhas preferências. Eu gosto dos vestidos flutuantes nas competições.

Jornalista – O teu treinador Alexey Mishin é conhecido por ser tão calmo durante as competições, enquanto outros preparam os seus patinadores para uma luta e habitualmente começam uma dissecação logo após a prestação…

Elizaveta – Isso simplesmente não resultaria comigo. Além disso, o Alexey Nikolaevich não é pessoa que te obrigue a fazer coisas. Ele sabe perfeitamente que se um atleta for inteligente, ele saberá atingir a atitude certa e saberá o que é que precisa. Não faz sentido gritar ou exigir.

Jornalista – Ele desdenha-te pelo menos em algumas ocasiões?

Elizaveta – Se alguma está errada, ele diz de uma vez. Ele nunca desdenha mas pode ser rígido nas suas opiniões. Eu gosto disso e penso que essa é a abordagem correcta.

Jornalista – Ele alguma vez colocou a Kostner como um exemplo ou a ti como um exemplo para ela?

Elizaveta – Isso raramente acontece. Além disso, nós trabalhamos com a coreógrafa Tatiana Prokofieva que me ajuda muito. Mesmo quando o Alexey Nikolaevich está focado na Carolina, eu fico sob a orientação da Tatiana Nikolaevna. Assim há atenção suficiente para todos.

Jornalista – Mas os treinos mudaram desde a chegada da Carolina?

Elizaveta – No geral não, é mais como se a competição passasse a fazer parte disso. Afinal nós fazemos habitualmente todos os elementos, todos os saltos. De certo modo, ter uma oponente tão forte é uma coisa positiva. Nós temos boas relações e tenho de me enquadrar.

Jornalista – Estás satisfeita com as inscrições nos grandes prémios – China e França?

Elizaveta – Na minha situação seria patético falar em preferências. Eu estou feliz por ter conseguido a França e sou sempre bem aceite na China.

Jornalista – De entre os patinadores, com quem é que mantiveste mais contacto durante o ano passado?

Elizaveta – Eu dou-me bem com a Kaitlyn Weaver. No geral gosto muito da equipa canadiana. Nós começámos a falar durante as competições e descobrimos que temos muitos interesses em comum. Além disso, a Kaitlyn é uma pessoa muito interessante e sã. Eu gosto.

Jornalista – Essa é a patinadora a quem os fãs russos chamam ‘Katusha’.

Elizaveta – Exactamente. Ela chama-me ‘Lizonchik’.

Jornalista – A língua é uma barreira?

Elizaveta – O meu inglês falado não é muito mau. Claro que, quando começamos a falar de temas que não estão relacionados com patinagem artística, há algumas dificuldades. Mas nós descobrimos sempre uma maneira. Para além dela, eu mantenho contacto com a Ekaterina Ryazanova. Ela retirou-se mas ainda se mantém no mundo da patinagem artística.

Jornalista – Há uma ideia de que os patinadores se tornam adultos no gelo mas que fora do rinque ainda são uns bebés.

Elizaveta – Disparate. Talvez seja verdade para alguns mas eu não conheço patinadores desses. Eu não sei como explicar mas eu não sinto diferença na vida dentro do desporto e fora dele. E não conheci muitos que façam essa diferença.

Jornalista – Duas temporadas de fora da selecção, com muito tempo livre, tu não encontraste algo que gostasses de fazer à margem da patinagem artística?

Elizaveta – Mesmo quando eu não estava a competir, eu continuei a treinar e a curar as minhas costas. Houve sempre algo para fazer e a minha vida continua a girar em torno da patinagem artística. Eu não quero dispersar-me e eu ainda não decidi o que quero fazer depois disto. Então, mesmo que não haja competições, os meus treinadores arranjam sempre em que trabalhar durante os treinos.

Jornalista – Não há muito tempo tu paraste de esconder a tua relação com o Andrey Lazukin. Se não fôr segredo, quem é que paquerou quem?

Elizaveta – Nós fomos amigos durante algum tempo – nós começámos a comunicar assim que ele se mudou para o nosso grupo. Penso que desde os treze anos. Nós conhecemo-nos há muito tempo. A iniciativa partiu dos dois – os nossos caminhos cruzavam-se frequentemente. É mais comum nos pares pois patinam juntos e veem-se o tempo todo. Nós sabemos de muitos exemplos de pares que, quando começaram a namorar, se esqueceram de trabalhar. Os atletas são pessoas muito disciplinadas e são espertas o suficiente para não deixarem as emoções atrapalhar os treinos. Pelo menos no nosso caso não atrapalham.

Jornalista – Os rapazes do grupo fazem piadas sobre vocês?

Elizaveta – O humor é uma grande parte do nosso grupo portanto há muitas piadas à nossa custa. Isso não perturba os treinos mas adiciona divertimento e cria um ambiente positivo.

Jornalista – O que é que dirias àqueles que pensam que se há amor na tua vida então a patinagem artística torna-se a segunda coisa mais importante?

Elizaveta – Para que se metam na sua própria vida e sejam felizes!

Jornalista – Mesmo apesar das duas últimas temporadas, tu és uma patinadora com títulos. No entanto, o teu namorado ainda não alcançou títulos. Isso influencia a vossa relação? Afinal de contas é importante para os homens serem os primeiros…


Elizaveta – Nós apenas nos apoiamos mutuamente, é só isso. A nossa relação não é construída no desporto mas sim dos nossos sentimentos. Assim sendo, o Andrey, como o jovem inteligente que é, compreende que os meus feitos não são motivo para ciúme ou inveja. São uma razão para patinar melhor.  

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Tradução de entrevista de Julia Lipnitskaya


Julia Lipnitskaya

Julia Lipnitskaya começou a dar nas vistas no escalão júnior onde chegou a conquistar o título mundial. A pequena russa conquistou imediatamente o coração de milhares de fãs em todo o mundo. Nem aqueles que conhecem pouco sobre a patinagem artística ficaram indiferentes às capacidades de Julia. Quando ascendeu ao escalão sénior, Julia impôs-se imediatamente, tendo alcançado resultados muito importantes como a medalha de ouro olímpica por equipas nos Jogos que decorreram em Sochi, o título europeu em 2014 e a medalha de prata nos mundiais do mesmo ano. Esperavam-se muitos mais feitos por parte de Julia mas as coisas começaram a não correr bem e ela foi ficando de fora da selecção russa para as competições mais importantes. Um grande sinal de alerta ocorreu quando Julia decidiu abandonar o grupo de Eteri Tutberidze que era a sua treinadora de longa data. Na altura não faltaram rumores sobre o porquê dessa separação ter ocorrido. Falou-se que Julia não gostava de dividir a atenção da sua treinadora com a jovem em ascensão Evgenia Medvedeva. Foi dito que Julia sentiu que Tutberidze preferia focar mais a sua atenção em Medvedeva. Também se falou da hipótese da ruptura ter sido provocada pelo plano alimentar que Tutberidze obrigava Julia a cumprir. Talvez tudo isso afinal seja verdade ou talvez seja tudo mentira. Os rumores sobre o facto de Julia sofrer de anorexia desde que estava no grupo de Tutberidze é que parecem ser todos verdadeiros. A própria Julia acabou por confirmar isso nesta entrevista concedida à jornalista russa Olga Ermolina.

Desde a Primavera que havia muita expectativa sobre se Julia iria patinar nos testes da federação russa que foram marcados para o início de Setembro. Entretanto, Julia anunciou a sua retirada da patinagem artística. Essa notícia deixou muitos fãs entristecidos mas temos de compreender que a saúde desta jovem está em primeiro lugar. Resta-nos desejar que tudo corra bem a Julia no futuro e desfrutar dos vídeos dos programas magníficos com que ela nos brindou na sua curta mas intensa carreira.

Nesta entrevista, Julia não se esquivou de falar sobre um assunto pessoal incómodo pois houve um homem que foi entrevistado por vários órgãos de comunicação social na Rússia e que afirmou ser o pai de Julia. Esse assunto fez correr muita tinta mas Julia fez agora questão de denunciá-lo publicamente como um impostor.

O link original da entrevista pode ser visto aqui: http://www.fsrussia.ru/intervyu/3126-yuliya-lipnitskaya-stranitsa-perevernuta-u-menya-novaya-zhizn-i-novye-plany.html

 

Tradução de entrevista

Jornalista – Julia, quão bem ponderada foi a tua decisão de te retirares?

Julia – Desta vez foi a 100%. Eu não passei um mês ou dois ou três a pensar sobre isso, eu demorei algum tempo, levando em consideração todos os prós e contras. Durante o Inverno, quando eu fui para o hospital, e estive lá algum tempo, foi o suficiente para reconsiderar. Foi muito difícil decidir afastar-me. A sério, todos os dias eu ia dormir e acordava com um pensamento: e agora? Quando eu estive lá trabalhámos muito com psiquiatras, e eles têm uns muito bons, eles ajudaram-me a estabelecer correctamente as prioridades para a minha vida. Eu tive de pensar sobre muitas coisas porque eu estava segura de que eu iria recuperar e voltar a patinar. Eu estava segura. Todos estávamos – a minha mãe, o treinador… Nas minhas primeiras semanas no hospital em Israel, o meu telefone foi roubado e a comunicação com o mundo exterior foi cortada. Foi completamente ao acaso mas como resultado eu fiquei algum tempo offline. Só agora é que compreendo o motivo. Eu pude realmente pensar sobre o que se estava a passar na minha vida. Isso foi de uma enorme importância. Sim, eu poderia simplesmente ter comprado outro telefone, mas eu decidi que se isso aconteceu então foi por uma razão. Então eu estava noutro país, onde toda a gente fala uma língua estrangeira que nem sequer é inglês, sem conexão com o mundo exterior. Eu só me lembrava do número de telefone da minha mãe. Eu acabei por comprar um telefone barato para poder telefonar à minha mãe e aos meus parentes. E foi isto. Então o que é que eu podia fazer lá senão curar-me e pensar no que faria de seguida.

Jornalista – Qual foi a coisa mais assustadora?

Julia – O desconhecido. Compreender o que vem a seguir. Eu sair do hospital e depois o quê? Especialmente quando eu comecei a perceber que estava 99,9% acabada para a patinagem. Eu estava em pânico com o desconhecido. Foi um pesadelo. Quando eu regressei a casa, eu passei a primeira semana a pensar ‘e agora’? O que é que eu devo fazer agora? O desconhecido é uma coisa terrível. Em falei com a minha mãe e ela compreendeu-me. Nós decidimos que é uma nova vida. Então eu tive de ir à Federação Russa de Patinagem Artística assinar a minha retirada, explicar o que aconteceu e foi o que eu fiz. Eu fiz um acordo com a federação para que todos nós esperássemos até Setembro e que durante os testes anunciaríamos a minha retirada. Foi isto. Então eu gostaria de agradecer a todas as pessoas que me apoiaram e aos fãs por esperarem.

Jornalista – A Federação Russa de Patinagem Artística pediu-te para repensares porque és uma patinadora de topo e não podes ser dispensada facilmente?

Julia – Claro, em Abril perguntaram-me se era uma decisão espontânea e emocional. Mas tu não podes pensar por tanto tempo e acabar com uma decisão emocional. Então sim, foi-me dado tempo para pensar até aos testes. Mas eu já tinha decidido.

Jornalista – Achas que alcançaste tudo o que podias no desporto?

Julia – Claro que não. Havia muitas coisas que eu queria alcançar e fazer, melhorar. Mas as coisas são o que são. Depois dos jogos de Sochi eu queria experimentar a dança no gelo. Eu pensei nisso durante alguns anos mas havia tanta gente contra que essa ideia foi deixada.

Jornalista – O que é que te impediu de alcançar tudo o que querias?

Julia – 99% foram as lesões. O resto foi resultado disso. Depois de eu ter tido um diagnóstico, eu recebi muitas questões sobre o porquê de tê-lo feito. Mas se eu não tivesse anunciado a decisão por mim própria, a informação acabaria por saber-se à mesma. A anorexia é a doença do século XXI. Não é uma raridade. Infelizmente nem todas conseguem ultrapassá-la. Eu decidi que não seria nada de mais se eu a revelasse. A única coisa de que eu me arrependo é de não ter falado sobre isso mais cedo. Isto prolongou-se não por um ano ou dois ou três. Depois da Taça da Rússia, eu fui para casa, coloquei os patins no roupeiro e não os voltei a ver desde então. Eu fui hospitalizada em Janeiro. Esta é a história toda.

Jornalista – Depois dos Jogos Olímpicos de Sochi foste atingida pela fama – isso foi uma coisa que te deu motivação para continuar ou foi um fardo que tiveste de carregar?

Julia – Foi desgastante. Eu não tinha força para mais nada, foi muito duro. Eu não sou uma “pessoa pública”. Nunca fui. Sou uma introvertida desde a minha infância. Eu tinha de fazer um esforço enorme para falar com alguém que não me fosse familiar. Agora é mais fácil comunicar, eu tornei-me mais aberta. Mas eu desenvolvi algumas habilidades, hábitos e estereótipos e eu sigo-os. Eu não acho que tenha de estar em todos os jornais, todos os programas de televisão para onde sou convidada. Eu não gosto disso e provavelmente nunca gostarei. Eu prefiro ir directa ao assunto e simplesmente dizer o que precisa ser dito; especialmente depois do meu prolongado silêncio houve muitas especulações, de repente apareceram tantas pessoas que foram entrevistadas, incluindo pessoas que eu nem sequer conheço. Inicialmente até era engraçado mas depois tornou-se insano. Houve tantos factos falsos que eu gostaria de explicar. O motivo principal foi um programa no Canal 1 em que tudo foi falso. Quando eu perguntei aos editores “como é que isto foi exibido”, foi-me respondido “mas tu nunca disseste pessoalmente que era uma mentira, então podia ser verdade”, portanto parece que agora tenho de dizê-lo.

Jornalista – OK, então começa a falar.

Julia – Vamos começar pelo programa de televisão depois do qual a minha mãe ficou com cabelos brancos, eu provavelmente também ganhei alguns cabelos brancos, mas os produtores de tv conseguiram as suas audiências. Eles falaram com uma pessoa chamada Zanozin. Essa pessoa disse que eu fui aceite na Universidade de Moscovo e isso é uma certeza. Eu estava somente a planear frequentar a Universidade e será óptimo se resultar. Eu só planeio candidatar-me e fazer os exames dentro de um ano. Eu gostaria de tornar-me numa manager desportiva. É interessante e estaria relacionado com a minha vida antiga. Em segundo lugar, há uma pessoa que vai de programa de tv em programa de tv e ousa dizer que é meu pai. Uma pergunta: como é que os editores permitem uma coisa destas? Esta pessoa é falsa. Mesmo que ele tenha o mesmo sobrenome não tirem conclusões precipitadas. Essa pessoa não me é nada. O que ele disse sobre mim – eu quis silenciá-lo fisicamente. É impossível de ouvir!  Quanto ao meu verdadeiro pai, eu sei muito bem quem é ele e onde vive. Portanto deixa-me dar um aviso: se esses casos continuarem e os meus “pais” ou “familiares” forem a programas de televisão com vontade de obter alguma fama às minhas custas, nós vamos encontrar-nos em tribunal. Um dos jornais publicou um artigo. Enquanto eu estava a lê-lo, eu pensei que era uma piada. As únicas coisas verdadeiras eram os nomes Julia e Lipnitskaya. Só isso. Eles inventaram um jovem que supostamente teria influenciado a minha decisão de retirar-me? Foram apresentadas algumas declarações de alguns familiares que preferiram manter-se anónimos. Eu não tenho familiares ou amigos que pudessem fazer uma coisa dessas. Todo o artigo é uma fantasia do jornalista. Ó autor, nota alta pela história!

Jornalista – É óptimo que consigas manter o sentido de humor nessa situação. O que é que sonhas agora?

Julia – Sonhar? Eu gostaria de encontrar algo que eu pudesse fazer para o resto da minha vida. Agora estou numa encruzilhada porque tenho muitas ofertas, opções e projectos. Mas eu não vou e não quero ir para um lugar e simplesmente ficar lá como “Julia Lipnitskaya”. Eu quero participar, eu quero fazer alguma coisa interessante e isso não acontecerá sem educação. Então isso é a primeira coisa na minha lista. Eu estudo inglês com um tutor. Num futuro próximo, eu ficarei completamente focada nos meus estudos e depois logo se vê. Simultaneamente, é claro que eu experimentarei algumas coisas novas e tentarei encontrar o meu caminho. Eu tenho sido questionada sobre se participarei em espectáculos. De momento eu não posso e não quero apesar de haver propostas. Talvez com o tempo as coisas mudem e eu possa querer regressar ao gelo. Vamos ver. Uma coisa é certa: eu não serei treinadora. Tornar-me numa profissional do desporto é uma coisa diferente. Mas eu preciso de estudar. Uma passatempo é um passatempo mas uma profissão precisa de educação.

Jornalista – Tu viraste a página e todos os teus sonhos e planos são para o futuro?

Julia – Sim, eu tenho uma nova vida e novos planos. O desporto deixou-me o hábito de ser organizada, de ter um horário rigoroso. Quando eu tenho tempo livre, e agora tenho muito mais, começo a pensar “como é que eu posso preenche-lo?”, eu tenho um planeamento para não ficar ociosamente sentada. Quando o dia está todo preenchido, eu sinto-me óptima e tento fazer tudo. Eu passo os meus dias livre na casa de campo. Toda a gente sabe que eu sempre adorei cavalos. Agora eu tenho um. Em Moscovo. Não muito longe da casa de campo há um estábulo privado e eu posso fazer desporto aí, montar a cavalo por 30-40Km. É um dos meus hábitos favoritos e eu não me importo de gastar tanto tempo com isso porque eu adoro fazê-lo. O nome do cavalo é Dakota. É alto, giro e calmo. Um sonho.

Jornalista – Isso é óptimo! Há mais alguma coisa que gostasses de acrescentar?

Julia – Eu gostaria de agradecer à federação e a todos os que me ajudaram e apoiaram. Um agradecimento especial ao agora meu ex-treinador Alexey Urmanov, que durante o nosso tempo juntos trabalhou muito duro e reagiu imediatamente a todos os problemas e resolveu-os com rapidez. Eu estive confortável a trabalhar em Sochi embora a vida lá seja tão diferente. A equipa em Sochi é óptima, todos são muito encorajadores. Teria ficado muito feliz se tivéssemos alcançado alguns resultados com aquela equipa e tenha muita pena que isso não tenha acontecido. Mas mais uma vez, foi excelente trabalhar com pessoas assim. Eu gostaria de agradecer aos fãs pelo seu amor, fé, compreensão e paciência. Esta foi a forma como as coisas tiveram de ser feitas. Para mim e não só. Agora eu recebo tantas mensagens. Eu às vezes tento responder porque algumas pessoas escrevem do fundo do seu coração e quando eu leio essas mensagens eu não consigo evitar as lágrimas mas na maior parte das vezes elas fazem-me sorrir. É muito bom saber que as pessoas gostam tanto de mim. Eu também gostaria de agradecer àqueles que me espicaçaram e até aos “haters” pois, algumas vezes, eles fizeram-me pensar e seguir em frente. Simplesmente agradecer a toda a gente!

Jornalista – Obrigado Julia.

Este foi o lindíssimo programa curto que Julia patinou na Taça Rostelecom 2016

domingo, 3 de setembro de 2017

Tradução de entrevista de Evgeny Plushenko


Evgeny Plushenko é um nome incontornável da patinagem artística mundial. O russo é detentor de quatro medalhas de olímpicas (incluindo duas de ouro), vários títulos mundiais e europeus. Além disso, ele é um dos principais responsáveis pela evolução técnica na categoria de homens e influenciou vários jovens que hoje dão cartas como é o caso de Yuzuru Hanyu. Actualmente, Evgeny Plushenko abraçou um projecto ambicioso, tendo iniciado uma academia, para continuar a sua carreira como treinador.

Apesar das suas responsabilidades como treinador serem recentes, Plushenko surpreendeu toda a gente ao aceitar orientar Adelina Sotnikova (campeã olímpica em 2014).

Entretanto foi anunciado que Adelina não irá competir na temporada 2017/2018 devido a uma lesão que inicialmente ninguém pensava que fosse tão grande.

Recentemente, Plushenko concedeu uma entrevista ao jornalista russo Anatoly Samokhvalov. O original pode ser consultado neste link: https://rsport.ria.ru/interview/20170901/1125084175.HTML

Evgeny Plushenko nos Jogos Olímpicos de Sochi em 2014 onde ajudou a Rússia a conquistar a medalha de ouro por equipas.


 

Tradução de entrevista

Jornalista: Muitos não acreditam que a lesão seja a verdadeira razão pela qual a Adelina vai perder a temporada. Muitos tendem a acreditar que se trata de outra manobra publicitária.

Evgeny Plushenko – É impossível, nós não andámos à procura de publicidade, (…) nem vamos fazê-lo no futuro. Por agora, a Adelina não faz declarações sobre nada mas pensamos que futuramente poderemos mostrar o veredicto dos médicos sobre a lesão dela. Isso pode ser feito abertamente. A Adelina veio ter comigo e estava pronta para treinar a tempo inteiro. Ela tinha um pouco de peso a mais, começámos a perdê-lo e depois aconteceu a lesão. Nós fomos a um espectáculo no Japão e numa noite ela realizou saltos mas passou o resto dos dias sem saltos. Em Itália ela também patinou sem os saltos. Sabes, muitos também não acreditaram em mim sobre se eu voltaria ou não… Se houve ou não uma cirurgia… Há tantas pessoas más. As pessoas bem-sucedidas não são muito amadas. Há uns dias eu disse à Adelina “Nós temos de provar que estamos no desporto. Ficando saudáveis.” Talvez ela até venha a participar em algumas pequenas competições nesta época.

Jornalista: Esta temporada?

Evegny Plushenko – Depois dos Jogos Olímpicos. Bem, talvez não. Talvez na próxima temporada. E depois vamos prepararmo-nos para as competições principais. Ela disse que está preparada. E deixa-me dizer-te que psicologicamente ela está preparada, ela tem vontade de competir. O principal agora é curar a lesão. Eu disse-te, ela sofreu um diagnóstico errado – primeiro os médicos disseram que foi um esticão no ligamento mas na verdade foi quase uma ruptura. E um pequeno osso partido. Agora estou à espera das radiografias que enviarei para os meus médicos na Alemanha. Para pessoas que eu conheço. Depois disso eu enviarei a Adelina para lá para ser tratada.

Jornalista: Ainda é muito prematuro falar sobre o tempo que isso demorará?

Evgeny Plushenko – Muito prematuro.

Jornalista: Muitos dizem que o que está a acontecer com a Sotnikova é uma cópia do que aconteceu contigo. Primeiro houve uma promessa grandiosa e depois foi adiada. Claro que sem saber a tua situação ao pormenor, eu tendo a pensar que vale apenas continuar como atleta na equipa porque é bom para promover o teu espectáculo.

Evgeny Plushenko – Disparates. Eu não precisei de ficar no desporto por causa disso. Durante a minha carreira, eu fui desqualificado por um ano depois dos Jogos Olímpicos de 2010 porque as minhas relações com a federação eram “assim assim”. Eu voltei depois, retirei-me novamente e regressei outra vez. Se o que tu estás a dizer fosse só para promoção, eu não me tinha preocupado em regressar. Eu teria-me retirado e prometido “Eu volto, eu volto” sem fazê-lo de facto. Mas eu voltei e competi com uma lesão horrível depois da cirurgia. A Adelina, olhando para o meu exemplo, veio até mim e disse “Tu sabes como recuperar e regressar. Eu quero trabalhar contigo.” Eu disse “Ok, sem problemas, tudo bem.” Sim, não resultou este ano, tudo bem, ela é jovem! Ela pode patinar durante o tempo que ela quiser. Quanto a eu manter-me no desporto para promover os meus espectáculos… disparate! Eu passei 30 anos no desporto, só o meu nome é suficiente para a promoção.

Jornalista: Então por que é que não te retiraste de uma vez por todas?

Evgeny Plushenko – Porque eu queria muito participar nos Jogos Olímpicos pela quinta vez. Eu estabeleci um objectivo – atingir um novo recorde, algo que nunca ninguém tivesse feito. Não resultou. Mas foi um sonho! Eu vivi-o, foi uma grande história. Uma super história, surreal. Mas quando eu comecei a treinar o triplo axel, os quádruplos, infelizmente as 15 cirurgias recordaram-me que elas aconteceram. 15! As minhas costas não me permitiram continuar e eu retirei-me. E eu fi-lo sem o drama que alguns fizeram. Sem nenhum espectáculo épico com lágrimas no palco. Alguns choram em público, eu apenas comecei uma nova vida. Abri a escola e trabalho com a minha grande equipa. Os meus espectáculos continuam – 23 datas do “Quebra-Nozes”, 6 datas do “Snow King”; brevemente nós teremos 10 espectáculos na Europa e 42 no Japão.

Jornalista: Nada mal.

Evgeny Plushenko – Está tudo bem.

Jornalista: Quando é que apareceu o momento “É isto. Acabou”?

Evgeny Plushenko – Eu tinha uma rotina de treinos, chegava ao balneário, sentava-me e não era capaz de prosseguir. As minhas costas doíam-me. Eu olhei-me ao espelho e perguntei-me “Para quê? Para que é que eu estou a mentir?” Eu podia continuar e dizer que me ia preparar para os Jogos Olímpicos mas naquele momento eu parei de acreditar nisso. “É isto. Os meus dias como atleta acabaram” e eu comecei a dar treinos.

Adelina Sotnikova


Jornalista: Tu precisavas da Sotnikova para patinadora de topo no teu grupo?

Evgeny Plushenko – Ela veio ter comigo. E não o contrário. Eu não a pedi nem implorei. Ela telefonou-me e disse “Zhenya, eu quero encontrar-me contigo”. Eu disse para ela aparecer na escola. Então ela disse essas palavras.

Jornalista: “Tu sabes como recuperar e regressar. Eu quero trabalhar contigo”?

Evgeny Plushenko – Sim. Mas eu tinha uma condição. Se tu estás preparada para trabalhar a tempo inteiro, então vamos fazer isto. E foi isto.

Jornalista: Tu ficaste surpreendido quando ela te abordou com estas palavras?

Evgeny Plushenko – Não. Ela participou nos meus espectáculos e eu vi o seu estado de espírito. Sabes, mesmo num espectáculo é óbvio quando tens um actor ou um atleta à tua frente. Nessa altura, eu falei com ela sobre os seus planos para o futuro e ela foi severa “Eu vou competir”. Eu disse-lhe “É muito duro. Muitíssimo duro”. Ela insistiu. Eu disse-lhe abertamente “Adelina, o mais importante é que a nossa decisão de ficar de fora nesta temporada não caia em saco roto. Nós temos de ir e competir na próxima época. Nós poderemos fazer pequenas competições. Eu comecei assim. Como em Riga. Depois as principais.” Eu sei como sair da situação em que a Adelina está agora. Mas há tanta conversa negativa à nossa volta.

Jornalista: Especialmente no nosso país.

Evgeny Plushenko – Especialmente. Todos esses “profissionais” que sabem mais do que nós. Na minha escola, eu deixo os pais assistirem aos treinos e deixa-me dizer que eles acham que sabem mais do que os treinadores. Na técnica, na coreografia – em tudo. Os pais sabem mais do que eu. Eles ficam ali e controlam os seus miúdos. Mas nós estamos a tentar mudar isso.

Jornalista: Muitos treinadores não permitem a presença dos pais nos treinos.

Evgeny Plushenko – Eu ainda não sinto que devo fazer isso. Eles que vejam. Por enquanto.

Jornalista: Eu percebi da tua explicação que enquanto trabalhavas com a Adelina num espectáculo, tu estavas a tentar perceber se ela precisa do desporto.

Evgeny Plushenko – Eu estava a tentar entender. O desporto profissional tem uma rotina muito exigente. Tu só treinas e mais nada. Quando a Adelina veio ter comigo, ela compreendeu a necessidade de se focar apenas no desporto.

Jornalista: Tu achas que ser tão requisitada para espectáculos e anúncios comerciais faz com que seja possível que ela volte à pista para ser uma atleta?

Evgeny Plushenko – Qualquer um pode regressar. O mais importante é que o atleta o queira por si próprio.

Jornalista: Ela terá de desistir de alguma coisa?

Evgeny Plushenko – De tudo.

Jornalista: De tudo o que ela tem agora?

Evgeny Plushenko – Claro. Ela não terá o direito de se desviar nem para a esquerda nem para a direita. Se tu és um atleta tens o treino matinal, descanso, treino do dia, descanso, treino nocturno, descanso. É isto. Isto é tudo o que tens.

Jornalista: Esta lesão está a convencê-la a desistir?

Evgeny Plushenko – Eu continuo a ver como ela está determinada.

Jornalista: Eu não consegui entrevistá-la. Quando ela declinou uma entrevista em Dezembro no ano passado, eu não sei porquê mas eu gritei nas costas dela “Vais regressar!” e ela respondeu “Com certeza”.

Evgeny Plushenko – E ela quis mesmo dizer isso. Ela tem um grande estado de espírito. Mas para voltar a ter o nível anterior, ela precisava de um ano de treinos. Um ano e ela voltará a ser competitiva com as miúdas que estão a patinar agora.

Jornalista: Para a Elena Buyanova, a anterior treinadora, a participação da Sotnikova no “Ice Age” foi uma surpresa.

Evgeny Plushenko – Eu penso que elas devem ter tido um mal-entendido porque, claro está, o treinador deve estar a par de tudo o que se passa com o atleta. Se elas tinham um plano então não deveria ter existido a participação no “Ice Age”. Os espectáculos deviam ter sido reduzidos ao mínimo e mesmo assim ela deveria ter patinado os programas curto e livre em vez de números de exibição. Então teria sido benéfico. O “Ice Age” não foi.

Jornalista: Se a Sotnikova for ter contigo e disser “Eu quero participar num programa de televisão”?

Evgeny Plushenko – Eu não irei continuar a treiná-la.

Jornalista: Esta Terça-feira tu estreaste-te como treinador numa competição. A Ksenia Pankova participou na competição júnior de Moscovo. Estás satisfeito?

Evgeny Plushenko – Com os elementos sim mas ela foi vagarosa em algumas ocasiões. Nós temos de dar-lhe mais velocidade. Anteriormente, ela costumava desmanchar muitos saltos; nós trabalhámos nisso e eu estou feliz. Ela efectua um duplo axel+meia volta+triplo flip e duplo axel+triplo toeloop no programa livre. Agora nós estamos a trabalhar no quádruplo salchow e espero que, no próximo ano, ela o faça nas competições. Nesta temporada, nós temos de mostrar que não somos piores do que os outros. Eu estou muito satisfeito com a equipa de treinadores e o David Avdysh trabalhou nos programas.

Jornalista: Tu também treinas o Vladimir Samoilov de 18 anos. Por que é que precisas de um patinador adulto?

Evgeny Plushenko – Olha, nós trabalhamos com que vem ter connosco. O Vladimir tem feito o quádruplo flip e ele tem o quádruplo salchow. Ele integra esses saltos no seu programa livre. Por que razão é que eu não haveria de trabalhar com ele? Sim, ele não é consistente mas ele trabalha comigo apenas há um mês e, no decorrer desse mês, ele aprendeu o quádruplo flip. Eu penso que é um resultado decente.

Jornalista: Alguns demoram tempo a habituarem-se a ser treinadores. Como é que te sentes?

Evgeny Plushenko – Eu apenas comecei e estou a gostar. Deve resultar para mim – é o meu caminho, nada mudou.

Jornalista: De que é que terás de abdicar?

Evgeny Plushenko – De nada.

Jornalista: Como assim? A Adelina terá de abdicar de tudo e tu de nada?

Evgeny Plushenko – Eu passo muito tempo com os meus espectáculos enquanto os treinadores permanecem aqui. Nós temos uma grande equipa e eu estou-lhes grato. Quando eu estou na Rússia, sou eu que dou os treinos, quando não estou, eu vejo os treinos através das câmaras que transmitem para o meu telefone. Depois falo com os atletas no Skype. Aliás, eu levei a Ksenia Pankova para um espectáculo no Cazaquistão e ela patinou e treinou lá. Eu não planeio mudar nada este ano e participarei em todos os espectáculos agendados.

Jornalista: É possível influenciar a preparação de um patinador à distância?

Evgeny Plushenko – Bem, parece funcionar por agora; veremos o que é que o futuro nos reserva.