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segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Tradução de entrevista de Maxim Trankov

Olá a todos.

A primeira publicação da semana é sobre a mais recente entrevista de Maxim Trankov.

Maxim Trankov


Maxim e a sua parceira/esposa Tatiana Volosozhar abandonaram a patinagem de competição mas continuam super activos. Ambos são presença habitual no espectáculo "Romeu & Julieta" produzido pelo coreógrafo Ilya Averbukh. Maxim também tem assumido funções de comentador em algumas transmissões de patinagem artística e já participou em duas temporadas do fenómeno televisivo russo "Lednikoviy Period". Este ano Maxim assumiu a responsabilidade de orientar um dos melhores pares do mundo: Evgenia Tarasova & Vladimir Mozorov. 


Evgenia Tarasova & Vladimir Morozov


Recentemente o conceituado patinador russo concedeu uma entrevista à jornalista Alexandra Romanova da publicação News.ru 
Por favor cliquem no link para ajudar a jornalista e para ver as fotos.

Aqui está a tradução da entrevista para português.

Jornalista - Como é que avalias o estado da preparação do par líder Evgenia Tarasova & Vladimir Morozov para os testes? Nota da tradução: estes testes são organizados pela federação russa para avaliar os patinadores que fazem parte da selecção nacional e normalmente realizam-se no início de Setembro.

Maxim - Nós estamos prontos para os testes. Os dois programas estão prontos; eles já patinaram o programa curto completo diversas vezes. Eles patinaram sem mim na Quarta-feira de manhã. Esta semana vão patiná-lo outra vez. O programa livre é mais comprido e complicado mas eles gostam dele. Penso que se eles patinarem o programa de forma limpa será a cereja no topo do bolo em qualquer competição.

Jornalista - Conta-me sobre os preparativos realizados na pré-época. Em que é que trabalharam? Quais foram os programas?

Maxim - Há sempre problemas. Os maiores são o financiamento e os especialistas. Falando do par, há muitos problemas psicológicos que nós estamos a aprender a ultrapassar. Não é a preparação ou a habilidade de patinar que os preocupa. Houve uma altura em que eles perderam a motivação mas agora eles patinam para o seu treinador porque eles escolheram-me e querem que eu os treine. Eles fazem o possível para não me desapontar e patinar para mim. 
Na minha opinião é uma motivação para eles provar que a sua escolha foi acertada e que houve uma razão para trabalharem comigo durante esta temporada. Também existem problemas comigo como treinador. Eu não sou apenas inexperiente; eu não tenho qualquer passado como treinador. Por isso existem problemas.

Jornalista - Gostas de ser treinador? O que é que resulta para ti e em que é que precisas de trabalhar?

Maxim - Não posso dizer que ser treinador seja algo que eu goste ou que me interesse fazer. Eu detesto a parte técnica e de organização dos treinos. Mais importante ainda é que vivemos num país burocrático e fico a tremer no momento de assinar tantos papeis. Portanto eu não posso dizer que goste realmente do trabalho de treinador ou que estou interessado nele.

Jornalista - Mas deves gostar de alguma coisa…

Maxim - Eu gosto de criar algo novo. Aprender coisas novas, procurar em mim mesmo, nos atletas e nas mentes deles. Além disso a minha área educacional é psicologia. Para mim é interessante ver como as pessoas mudam a sua atitude perante o trabalho. 

Jornalista - Numa das tuas entrevistas, tu disseste que o treinador é um herói ou um altruísta. Qual é que tu és?

Maxim - Eu não posso intitular-me como treinador - não estudei para isso nem para trabalhar como tal.

Jornalista - Explica-te, por favor.

Maxim - Pelos documentos eu sou um especialista mas não um treinador. Eu não posso candidatar-me a esse trabalho então não posso intitular-me de treinador.

Jornalista - Então quem é que está indicado como o treinador de Tarasova & Morozov?

Maxim - Nina Mozer. Eu não sou treinador. Eu sou um psicólogo. Um especialista. Eu tenho habilitações e uma especialidade mas, de acordo com as leis maravilhosas do nosso país, com todo o meu conhecimento, eu não posso trabalhar com a equipa. Mesmo com toda a minha experiência como atleta.

Jornalista - Nos testes toda a gente vai estar focada na luta entre a Zagitova e a Medvedeva. Qual será o resultado? O que é que achas?

Maxim - Um resultado elevado. Eu penso que a Zagitova será mais consistente, mais do que as suas antecessoras que passaram pelo mesmo. Ela é uma menina inteligente e talentosa. Ela é linda em pista e tem saltos fantásticos. Ela é uma campeã olímpica.

Alina Zagitova


Jornalista - E a Medvedeva?

Maxim - Eu espero algo de novo depois da mudança para o grupo de Brian Orser. Toda a gente está expectante e a questionar-se "o que é que ela vai mostrar?". Eu quero muito que ela patine como uma canadiana. Em primeiro lugar no que diz respeito ao deslizar. Se a Zhenya (diminutivo) conseguir saltar como Medvedeva e deslizar como uma canadiana, será explosivo. Eu quero que a Evgenia alcance um novo patamar. É um caso raro quando os melhores treinadores da actualidade em individuais - Tutberidze e Orser - tenham treinado ou treinem a mesma atleta. Eu penso que é uma oportunidade de ouro para a Zhenya. Além disso, ao trabalhar com Orser, ela poderá tornar-se numa especialista espectacular no futuro. 

Jornalista - Porquê?

Maxim - Porque ela conhece a escola russa. 

Evgenia Medvedeva 


Jornalista - Tu experimentaste o papel de comentador na TV.

Maxim - Eu trabalhei com os melhores especialistas russos e estive em contacto com os estrangeiros. Cada um tem o seu estilo. Não há uma regra absoluta para a forma como o comentador trabalha. Há quem critique e procure os erros e há quem explique o aspecto técnico da patinagem. Também há os que elogiam todos os patinadores. Claro que eu tentei fazer algo único e que outros não tinham feito anteriormente. Eu acompanhei os comentadores russos e estrangeiros e encontrei um nicho.

Jornalista - E qual é esse nicho?

Maxim - Informação privilegiada. Eu não falava apenas sobre os elementos que foram feitos em pista como também apresentava o patinador.

Jornalista - Por exemplo?

Maxim - Havia um patinador que representava a Alemanha mas nasceu na Bélgica; o seu irmão gémeo é bailarino; os seus pais são muito fixes porque um dos filhos compete nos Jogos Olímpicos e o outro está no palco. Eles têm um cão e avó lutou pelo lado da Alemanha nazi. Coisas assim. Informações que têm pouco a ver com o desporto. Nota da tradução: Maxim está a referir-se a Ruben Blommaert

Jornalista - Por que é que escolheste essa forma?

Maxim - Porque quando alguém liga a televisão e vê patinagem artística, algo terá de captar a sua atenção. Eu preciso que eles fiquem naquele canal. Eu não acho que eles estejam interessados pelo triplo axel ou numa conversa entre os comentadores com "na tua opinião este peão vai ficar com que nível?", "Ó, eu penso que é de nível 4 apesar dele não ter mantido a última posição". Claro que a pessoa vai perguntar: "Qual Axel?, Qual posição?". Por outro lado também se pode dizer só as coisas boas de um patinador. Esse era o meu objectivo, o meu estilo. Quando eu me preparava para entrevistar um atleta, eu falava com o treinador e pesquisava informação na internet. No geral, eu conseguia dizer algo sobre qualquer patinador, mesmo que fosse oriundo do 3.º mundo e que não estivesse no topo.

Comentário à entrevista


Esta entrevista foi interessante a vários níveis.

Em primeiro lugar é curioso que Maxim tenha admitido publicamente que não pode ser listado como treinador oficial do par Evgenia Tarasova & Vladimir Morozov. Ele simplesmente confirmou aquilo que já se suspeitava: o grupo de Nina Mozer contornou as regras oficiais da federação russa para que Maxim Trankov pudesse assumir a orientação de Evgenia e Vladimir.
Nina Mozer tem estado afastada das suas funções devido a doença mas tem vários adjuntos e especialistas a trabalhar com ela, nomeadamente Robin Szolkowy e Vladislav Zhovnirski.
Teria sido mais lógico apresentar Vladislav Zhovnirski como treinador principal e adicionar Maxim Trankov como especialista técnico ao lado de Robin Szolkowy. A questão é que o nome de Maxim é bem mais sonante do que o de Vladislav. Muitos destes pares jogam com estes pormenores fora das pistas de gelo. Faz parte da política de bastidores. Maxim continua a ser muito respeitado como patinador apesar de já não competir e tem voz na comunicação social. Além disso é respeitado pela maioria dos juízes internacionais e especialistas que visitam os estágios para trocar impressões com treinadores e coreógrafos para perceber os programas dos atletas. 

Esta entrevista também é interessante porque ele admitiu mais uma contradição: ser treinador não faz parte das suas ambições profissionais e, mesmo assim, aceitou o desafio. 
Eu lembro-me de uma entrevista que ele concedeu há uns anos em que disse que nunca iria participar em programas de televisão como o "Lednikoviy Period" porque isso significava formar parceria com outra pessoa e ele só se imaginava a patinar com a Tatiana. 
No entanto, ele acabou por participar numa das temporadas como parceiro/professor/coreógrafo da cantora Julianna Karaulova. Maxim participou ainda na temporada mais recente do programa na qualidade de treinador de várias crianças.

Vídeo com uma das apresentações de Maxim Trankov com a cantora Julianna Karaulova

Quanto aos comentários na televisão, lembro-me que aqui há uns tempos ele meteu-se em apuros devido ao facto de não ter problemas em expressar as suas opiniões. Eu lembro-me que Meagan Duhamel ficou furiosa com alguns comentários de Maxim durante uma transmissão (diga-se de passagem que Maxim tinha toda a razão). Maxim fala sem filtros e eu gosto dos seus comentários apesar dele falar muito durante as provas :P

Por hoje é tudo mas em breve vou publicar mais coisas no blogue. 

Fiquem atentos e boa patinagem :)





quinta-feira, 28 de junho de 2018

Tradução de entrevista de Evgenia Medvedeva

A popular patinadora russa Evgenia Medvedeva concedeu uma entrevista à reputada jornalista Elena Vaytsekhovskaya e não se esquivou às perguntas colocadas. 


Como se devem recordar, Evgenia protagonizou um dos episódios mais falados deste ano quando abandonou a sua treinadora de longa data Eteri Tutberidze. A jovem russa tem participado em diversos espectáculos, principalmente no Japão, e no mês de Junho mudou-se para Toronto (Canadá), onde está a iniciar uma nova fase na sua carreira. Relembro que Brian Orser é o novo treinador de Evgenia. A avaliar pelas diversas publicações nas redes sociais, Jason Brown (Estados Unidos) tem sido o grande apoio de Evgenia nesta aventura. 


A entrevista em causa foi realizada precisamente neste contexto. O original em russo pode ser visto neste link: https://rsport.ria.ru/figure_skating/20180618/1138167724.html


Em baixo podem ler a tradução para português

Evgenia Medvedeva



Tradução de entrevista


EV - Evgenia, tu e a tua mãe arranjaram um apartamento?

Evgenia Medvedeva: Claro que sim. Nós escolhemos pela internet. Como é que se pode ir para um país estrangeiro sem ter um lugar para viver? 

EV - O proprietário do apartamento irá esperar-te ao aeroporto com um cartaz e a chave?

Evgenia Medvedeva: Não, o Jason Brown irá ter connosco. Ele vai levar-nos para a nossa nova casa. E a partir do dia 18, eu tenho um plano de treino detalhado.

EV - Durante quase três anos competiste muito e nunca perdeste. Agora estás a começar do zero: um novo treinador, uma nova vida, sem certezas de que vais conseguir adaptar-te e qual será o resultado. Estás preocupada com um possível falhanço?

Evgenia Medvedeva - Eu sou muito pés no chão por natureza. Eu só vou lamentar o resultado se eu perceber que podia ter feito melhor e não fiz. Eu consigo admitir para mim própria algumas coisas desagradáveis. Se eu compreender que é o meu tecto, e que é tudo o que eu posso fazer no momento, eu simplesmente admitirei que terminei no lugar que devia. O meu lugar. Eu entendo que estou a começar uma nova vida. Eu nunca vivi noutro país, nunca trabalhei com especialistas estrangeiros, nunca comi comida diferente por mais de duas ou três semanas. Tudo muda. Uma página em branco.

EV - É assustador?

Evgenia Medvedeva - Não. Eu estou a olhar em frente. De momento nem sequer penso que posso perder para alguém. Eu tento olhar para como será daqui a uns anos. Em primeiro lugar eu quero continuar saudável. É o meu principal objectivo. Eu só preciso de me certificar que este objectivo não muda o resultado e encontrar um equilíbrio. No volume de trabalho, na comida, na preparação mental e na condição física. 

EV - Antes das Olimpíadas na Coreia toda a tua vida se limita ao rinque. Tu estavas a treinar ou a dormir ou a preparar-te para os treinos. 

Evgenia Medvedeva - Verdade. Andei a dormir todos esses anos.

EV - Agora parece que te libertaste. Tens tempo livre, a oportunidade de tentar uma nova vida onde não há tanta patinagem mesmo que seja por te teres separado da treinadora e não tens a possibilidade de patinar todos os dias. Como é que estás a lidar com esta nova vida?

Evgenia Medvedeva - Não é que me tenha libertado. Eu abri os olhos e olhei em volta. Sim, eu tinha um objectivo - os jogos olímpicos. Foi o que eu almejei, foquei-me nos Jogos Olímpicos e nada mais. Eu quase não tinha amigos ou interesses apesar de ser uma pessoa com diferentes facetas. Eu não conhecia ninguém, eu não mantinha o contacto por falta de tempo e às vezes por falta de vontade. Eram só treinos. Mas parece que eu estou a crescer por dentro. Durante o Inverno, quando eu estava lesionada e não podia patinar, de repente pensei: e se eu me retirar do desporto e acabar sem amigos, sem interesses, sem vida pessoal - nada? E quando eu abri os olhos depois dos Jogos Olímpicos, a vida não seguiu apenas um caminho diferente mas tornou-se num grande rio a partir de um riacho. Eu encontrei amigos, novos interesses e talvez uma profissão futura da qual eu possa gostar e que possa decidir mudar 150 vezes. 

EV - Vais ser capaz de abdicar dessa vida de bom grado? De colocares os mesmos limites e perseguires o teu objectivo? Vais querer isso?


Evgenia Medvedeva - Eu vou querer. Eu acho que sou capaz de deixar tudo para trás pelo resultado. Mas mais importante - para ser realista. Não fazer coisas que me magoem ou magoem quem eu amo. Eu penso muitas vezes que a minha mãe e a minha avó sacrificaram suas vidas pela minha patinagem. Se eu sentir que não correspondo às suas expectativas… Eu não quero sentir isso. 

EV - Ou seja, às vezes sentes-te culpada face aos teus familiares?

Evgenia Medvedeva - Raramente. Os meus pais compreendem que o mais importante é continuar a trabalhar. Não há resultados - nõs vamos continuar a trabalhar. Há resultados? Óptimo. Então continuaremos a trabalhar. Se eu não fizer o que tenho de fazer, então irei sentir-me culpada. 

EV - Quão depressa levaste a recuperar depois dos Jogos Olímpicos?

Evgenia Medvedeva - Foi um processo longo. O meu corpo e a minha mente recuperam rapidamente fisicamente e mentalmente. Mas demorou um pouco depois dos Jogos Olímpicos. Acho que posso dizer que só agora é que estou totalmente recuperada mentalmente. 

EV - Eu ouvi uma versão que a tua mudança para o Canadá não teve a ver com os treinos mas sim com as oportunidades para espectáculos.

Evgenia Medvedeva - Vou revelar-te um segredo: eu já tenho muitas oportunidades.

EV -  O Brian Orser foi a tua única opção?

Evgenia Medvedeva - Sim.

EV - Porquê ele?

Evgenia Medvedeva - Por causa da Yuna Kim. Foi a primeira coisa que me veio à cabeça quando eu comecei a pensar em mudar de treinadores. A Yuna venceu os Jogos Olímpicos de Vancouver quando tinha 19 anos e foi segunda em Sochi quando tinha 23 anos. Eu vou ter 22 anos nas [Olimpíadas] da China. Claro que não foi só por ela. O Orser tem outros atletas que são considerados "velhos" na patinagem artística e que participaram em mais do que uma edição dos Jogos Olímpicos. A Kim é uma desses atletas. 

EV - Incomodou-te que ele tenha aceitado tantos atletas novos no seu grupo?

Evgenia Medvedeva - Não de todo. Eu sempre patinei e treinei num grupo em constante competição. Eu não me importo nada com isso. Além disso, os rapazes estão em maioria no grupo de Brian. Em segundo lugar, ele tem uma abordagem pessoal para cada patinador e ele enfatiza isso constantemente. Então ele terá tempo suficiente e atenção para cada um. Além do mais, eu gosto que haja tantos patinadores de topo à minha frente que me podem dar muito mais do que eu tinha antes. 



EV - Como é que te mantiveste em forma tendo em conta que não tinhas gelo (referência a falta de pista para treinar)?

Evgenia Medvedeva - Eu não mantive a forma que tinha nos Jogos Olímpicos e também não era necessário. Eu estava exausta nos Jogos Olímpicos; eu estava a preparar-me para atingir o topo de forma no programa livre. Eu estava com o peso mínimo e a máxima preparação mental. Então eu tive de recuperar durante muito tempo depois dos Jogos Olímpicos. Eu ganhei algum peso mas não muito. Eu tenho um espaço em casa para manter os meus músculos em forma. Quanto à forma actual para a patinagem, nenhum atleta pode estar no topo sem treinos intensos. De momento é por isso que estou a ir para o Canadá. 

EV - O Orser expressou alguns pedidos?

Evgenia Medvedeva - Não. Quando nós falámos na Coreia do Sul, eu penso que ele percebeu perfeitamente que eu patinarei no máximo das minhas possibilidades. Ou seja, circunstâncias. Se houver gelo - eu patino. Eu estava sem gelo em Moscovo. Ou seja estava sem uma base. Eu tive algumas horas de gelo antes do espectáculo no Japão e consegui recuperar alguns saltos. Eu queria muito isso.

EV - Demasiado tempo sem saltos?

Evgenia Medvedeva - Demasiado tempo sem saltos. Foi tão bom quando os saltos voltaram.

EV - Eu sempre tive esta curiosidade: em que é que tu pensas durante um salto?

Evgenia Medvedeva - Em tudo! Passam milhares de pensamentos pela minha cabeça. Eu também consigo ver o que se passa à minha volta e tento controlar tudo.

EV - Já falaste com o Orser sobre os novos programas?

Evgenia Medvedeva - Não. Em primeiro lugar eu quero ouvir pontos de vista diferentes. Não apenas do Brian mas também da Tracy e do David Wilson que vão coreografar os meus programas.

EV - Tu conheces esses especialistas?

Evgenia Medvedeva - Eu conheço o David; a Tracy nem por isso. É engraçado mas eu conheço melhor os seus atletas - Hanyu, Fernandez e Brown.

EV - O que é que tu queres?

Evgenia Medvedeva - Falando na temporada em geral, eu planeio não falhar competições. Patinar nos testes, nas provas do circuito do grande prémio. Eu gostaria de mudar o meu estilo. Em primeiro lugar, eu mudei e penso que não posso continuar a mesma no gelo. Eu estou a levar o mundo e a vida de forma diferente. Tenho a certeza que quando chegar ao Canadá as coisas na minha cabeça vão ficar viradas do avesso. Eu quero experimentar algo novo no gelo. Há tantas personagens que eu nunca patinei, que nem sequer tentei. 

EV - Qual é o conteúdo de saltos que tu queres?

Evgenia Medvedeva - Eu tenho algumas ideias mas é prematuro anunciá-las.

EV - Tu deves estar radiante com a mudança na regra que veio limitar o número de saltos na segunda metade do programa. 

Evgenia Medevedeva - Essas mudanças constroem a base para o trabalho no futuro. Se nos fosse dito que tínhamos de colocar todos os saltos na segunda metade, eu calava a boca e faria isso.

EV - Tu gostaste sempre dos programas que patinaste?

Evgenia Medvedeva - Eu amei o meu primeiro programa livre sénior onde interpretei uma menina surda. Eu adorei "Karenina". Por outro lado, no início eu não gostei do programa com que venci os meus segundos mundiais. Só mais para o fim é que eu encontrei o seu sabor. Eu patinei-o, bati o recorde mundial e adorei-o por me ter permitido alcançar os meus objectivos. Em contrapartida, "Karenina" deixa-me louca. Especialmente depois de "January Stars" onde apenas o vestido era adorável. Eu estava toda no programa "Karenina".

Nota: "January Stars" foi o primeiro programa livre feito para Evgenia na temporada 2017/2018. Depois o programa livre foi alterado para "Anna Karenina"

EV - O treinador de Oksana Baiul (campeã olímpica em 1994) disse que se o patinador estiver a viver o personagem na entrada de um salto triplo, ele terminará esse salto no fundo das costas. Quanto é que te permites não pensar nos elementos enquanto patinas?

Evgenia Medvedeva - A "Karenina" permitiu-me isso. Quando eu estava a patinar nos Jogos Olímpicos, eu deixei o meu corpo fazer o seu trabalho e estava completamente no personagem. Eu nem sequer tentei imaginar, eu simplesmente patinei o programa livre como nos treinos. Eu tinha esta liberdade interior sensacional. Se tu soubesses o que passou pela minha cabeça quando eu comecei a sequência de passos!



EV - O quê?

Evgenia Medvedeva - Eu estava a patinar e a perguntar a mim mesma "tu percebes que são os Jogos Olímpicos? Percebes que milhões ou milhares de pessoas estão a ver-te? Compreende que se fizeres um pequeno erro tudo estará perdido?" e eu respondi "Percebi! Excelente? Excelente! Vamos nos divertir!". Não houve estresse. 

EV - Tu pensas no porquê das campeãs olímpicas, com poucas excepções, nunca conseguirem chegar aos Jogos Olímpicos seguintes? Por que é que a Baiul, a Lipinski e a Sotnikova não ficaram?

Evgenia Medvedeva -  Penso que tem a ver com o medo de perder o que se ganhou durante todos esses anos. A vontade de patinar continua lá, penso eu, sempre, mas no momento em que a pessoa tem a oportunidade de tentar outra vida isso absorve-te. Muita gente não entende que o desporto e a vida normal nem sempre podem andar de mão dada.

EV - Eu conheci um lutador que se retirou depois de vencer os Jogos Olímpicos com 23 anos, dizendo "Eu não quero que a vida passe por mim enquanto eu treino". Um sentimento familiar?

Evgenia Medvedeva - Não, nunca senti isso. Eu tive uma infância normal - eu brinquei com outras crianças, simplesmente no ginásio em vez de na rua, mas eu divertia-me. De momento não creio que a vida esteja a passar por mim. Eu terminei o ensino secundário e fui admitida na Universidade.

EV - Quando é que aprendeste inglês?

Evgenia Medvedeva - Eu realmente não aprendi. Simplesmente entendia. Não tinha outra hipótese.

EV - O que queres dizer com isso?

Evgenia Medvedeva - Só isso. Eu via os atletas estrangeiros da minha idade ou um pouco mais velhos a falar entre si em todas as competições e eu pensei: eu quero tanto falar com vocês, mas como? Tentei uma vez e depois outra vez. Eu aprendi três palavras numa viagem e depois mais cinco noutra viagem. Depois vi na internet como construir uma frase, aprendi mais palavras. Eu nem dei conta mas de repente eu fui capaz não apenas de conversar mas de dar entrevistas. Claro que eu cometo erros. Eu tropeço e uso a gramática errada. Mas compreendem-me. E eu compreendo as pessoas.

EV - Para ti é difícil admitir que não sabes alguma coisa?

Evgenia Medvedeva - Não de todo. Há tantas coisas que eu não sei e que eu não sei fazer. E eu não tenho vergonha de admitir isso. Porque é verdade.

EV - Quanto tempo aguentas sem patinagem artística até te sentires desconfortável?

Evgenia Medvedeva - Pouco. Muito pouco. Eu não consigo ficar parada - os meus músculos doem-me e sinto-me fisicamente desconfortável. Quando não patinas por muito tempo acontece o mesmo. Doem-me as pernas. A minha irritação - quando eu tenho uma folga e não há gelo, a minha cabeça dói-me imenso e quase me apetece meter dentro do frigorifico. Parece que há qualquer coisa no gelo que me faz falta. Além disso para mim é mentalmente difícil ficar parada.

EV - Quão rápido é que tu perdes as tuas habilidades quando não treinas?

Evgenia Medvedeva - Muito rápido. Deixas de sentir as arestas. Patinando e compreendo tu vais em piloto automático: sentar na aresta, deslizar - a cabeça compreende o que precisa ser feito mas as pernas vão para os lados. É como se o contacto entre o cérebro e as pernas se perdesse um pouco. Tu queres uma coisa e vais parar a outro lado. As minhas quedas mais estúpidas foram por causa disso. As marcas nos joelhos e nos cotovelos… 

EV - Voltando à tua partida para o Canadá: tu deves ter pensado em como a tua nova vida vai ficar encarecida.

Evgenia Medvedeva - Essa preocupação foi essencialmente da minha mãe. Foi a função dela perceber se estávamos prontas.

EV - E quando a tua mãe disse que estavam prontas…

Evgenia Medvedeva - Eu percebi que tinha de agarrar nos meus patins e partir para o Canadá.

EV - Alguém tentou demover-te dessa decisão?

Evgenia Medvedeva - Francamente? Ninguém

E pronto… Assim terminou a entrevista de Evgenia. O que acharam das palavras de Evgenia?

Se gostarem deste tipo de conteúdos avisem-me por aqui ou através do Facebook ou Twitter. 

Até à próxima



sexta-feira, 27 de maio de 2016

Tradução de entrevista do par Ilinykh & Zhiganshin

A revista russa FSRussia conduziu recentemente uma entrevista com o par Elena Ilinykh & Ruslan Zhiganshin. A entrevista foi feita em Moscovo durante uma breve visita dos patinadores a essa cidade para a realização de testes médicos. Elena e Ruslan mudaram de treinador ainda durante a temporada 2015/2016. Eles deixaram o grupo de Elena Kustarova e são actualmente orientados por Igor Shpilband nos Estados Unidos.
O link original é este: http://www.fsrussia.ru/intervyu/2165-elena-ilinykh-ruslan-zhiganshin-v-iyune-my-otpravimsya-v-madrid-k-antonio-nakharro.html (contem fotos do par)

O par russo Elena Ilinykh & Ruslan Zhiganshin

Em baixo podem ler a tradução dessa entrevista de russo para PT-PT.

TRADUÇÃO

P - O vosso actual treinador Igor Shpilband já disse que vocês vão continuar a trabalhar com ele. Por que é que vocês decidiram ficar nos Estados Unidos?

Elena - A decisão foi tomada em conjunto com o nosso patrocinador. Nós decidimos ficar e tentar evoluir através de um novo sistema.

P - Teve a ver com o facto de vocês serem a melhor parceria em Moscovo no vosso grupo enquanto que nos Estados Unidos vocês vão patinar ao lado dos vossos experientes rivais estrangeiros?
Ruslan - Não, isso não pesou na decisão. No entanto, claro que nós vamos ter ganhos de ter bons parceiros de luta.

Elena e Ruslan

P - Em que medida os treinos no grupo de Shpilband são diferentes?
Elena - É um sistema diferente, uma abordagem diferente. Não se pode comparar o sistema dos Estados Unidos com o da Rússia. São diferentes mas os dois permitem alcançar os resultados mais altos.

P - Para além do Igor, quem é que trabalha na vossa equipa?
Ruslan - Todos os especialistas - toda a equipa que está em Novi. Para além do Igor, nós trabalhamos muito com o patinador francês Fabian Bourzat.

P - Onde é que vocês vivem?
Elena - A dez minutos do rinque; nós arrendámos apartamentos pequenos. O mais importante é ter uma cama apropriada para dormirmos o suficiente e descansarmos depois do treino até à manhã seguinte.
                         Elena Ilinykh & Ruslan Zhiganshin durante uma gala de exibição

P - Vocês já têm ideias para os programas novos, vão continuar a trabalhar com António Najarro que criou os vossos coloridos programas nas duas últimas temporadas?
Elena - Os esqueletos dos programas estão feitos, a música está escolhida e os elementos estão incluídos. Antes de viajarmos para Moscovo nós patinámos a dança curta duas vezes. No dia 5 de Junho nós vamos voar para Madrid para trabalharmos uma semana com António Najarro. Daí nós vamos regressar aos Estados Unidos onde temos um calendário muito rigoroso à nossa espera. 

P - O que é que sucedeu na temporada passada e como é que tu a avalias?
Ruslan - Eu não quero avaliá-la. Nós não queremos olhar para trás. Nós precisamos de olhar para a frente. Nós sabemos o que é que temos de trabalhar e temos um plano. 

P - O que é que querem mudar na vossa patinagem e talvez em vocês próprios?
Elena - Nós patinamos juntos apenas há dois anos. Seria errado falar de mudanças. Nós apenas teremos de progredir, desenvolver, fazer as coisas mais depressa. Nós precisamos de ser confiáveis e consistentes e mesmo assim não perder as nossas personalidades. 

Elena e Ruslan patinam juntos à cerca de duas temporadas

terça-feira, 17 de maio de 2016

Tradução de entrevista de Nina Mozer

A treinadora russa Nina Mozer, conhecida pelo seu trabalho com os campeões olímpicos Tatiana Volosozhar & Maxim Trankov, concedeu uma entrevista interessante ao jornalista Felix Zagrebnoi. Mozer também é treinadora do par Ksenia Stolbova & Fedor Klimov e do par Evgenia Tarasova & Vladimir Morozov. Neste post podem ler a tradução de parte dessa entrevista para português. 
O link original é este: http://rsport.ru/interview/20160510/920608541.html


Entrevista com Nina Mozer

Pergunta (P) - Como é que correu a temporada? O que é que resultou e o que é que correu mal?
Nina Mozer - Foi uma época ambígua. Existem muitas perguntas que eu faço, essencialmente a mim própria. A patinagem artística mudou muito desde os Jogos Olímpicos de Sochi. Mudou no caminho de elementos mais complicados, que actualmente são o maior foco. Nós costumávamos ser ensinados não só sobre coisas profissionais mas também sobre o lado humano - a capacidade de compreender e analisar situações. Eu sei que existem desportos de coordenação como os saltos para a água, ginástica e patinagem artística. Os asiáticos estão a dominar estes desportos. Eles são velozes por natureza. Os seus músculos de velocidade são duas vezes maiores do que os dos europeus. Tudo o que tenha a ver com a rotação e coordenação rápida é muito importante nestes desportos. No que diz respeito a resultados, os que estão a ganhar são chineses nascidos no Canadá, cazaques, chineses e japoneses. Eles fazem coisas únicas. Existem coisas que nós não conseguimos fazer por natureza. O único europeu no pódio é o Javier Fernandez mas ele é latino - os latinos também são um pouco diferentes de nós. Claro que nós temos as nossas tradições mas o que é normal para as pessoas brancas é de um nível diferente. Parece que aquilo em que somos bons já não é competitivo.


P - Então por que é que as nossas meninas andam a ganhar tudo?
Nina Mozer - Como tu sabes, uma mulher russa é capaz de travar um cavalo que vai em velocidade máxima e entrar numa casa em chamas... Nós vemos uma nova campeã todos os anos porque as meninas são muito talentosas. Além disso, a mentalidade dos homens e mulheres orientais é diferente. Se o homem é um lutador, a mulher é uma dona de casa. E também há outro problema: assim que as meninas crescem e entram na puberdade elas mudam e os resultados também. Felizmente, as nossas escolas de patinagem trabalham bem e há uma longa linha de meninas que estão a crescer aqui e daí a esperança de que vamos nos manter no topo. No entanto, as americanas estão logo atrás de nós. 

Nota: fiquei estupefacta com algumas frases de Nina Mozer pois parecem um bocado preconceituosas quanto a etnias e nacionalidades....

P - A Adelina Sotnikova não conseguiu manter-se no topo depois de Sochi
Nina Mozer - Isso é algo pelo qual todas passaram. A Maria Butyrskaya, a Irina Slutskaya. Elas eram raparigas super talentosas e depois passaram por um período em que tudo desapareceu; elas voltaram como mulheres - bem formadas e a saber como lidar consigo próprias, o seu peso, a sua energia e as suas emoções. Tudo precisa de encaixar no seu devido lugar. Podem tornar-se campeãs se tudo se encaixar. Tal como na moda existem Udashkin, Versace e Dior e depois os outros que apenas cosem. É necessário ter talento natural, especialistas com quem trabalhar e a vontade do atleta. 

P - Quão difícil é treinar duas parcerias de grande nível?
Nina Mozer - É uma situação ambígua. Quando estão a patinar todos juntos e se vêem uns aos outros é estimulante. Mas eles não são parceiros de luta, porque nos parceiros de luta um é o líder e o outro está lá para puxar. Aqui todos querem ganhar. Por isso podem ver-se mas nunca patinam ao mesmo tempo. É impossível devido a várias razões que não são para aqui chamadas. Quando tu colocas dois pares iguais na pista ao mesmo tempo, acabas por prestar mais atenção a um do que ao outro mesmo sem ser intencionalmente. Quando surgiu a situação de ter diversas parcerias de topo no grupo, eu tomei a decisão de que eles não iam patinar ao mesmo tempo. Eu passarei mais tempo na pista.

P - Tu não tens um primeiro, um segundo e um terceiro par?
Nina Mozer - É complicado. Tu podes dizer isso dependendo das suas classificações. Mas é uma competição e tudo muda. Eu gosto de todos eles. A Tatiana e o Maxim estão no meu grupo há 6 anos. Eles começaram a patinar juntos no meu rinque, nós começámos este caminho juntos. Stolbova & Klimov também estão junto há 6 anos. Eles chegaram como uma equipa pronta - tinham sido sextos classificados nos campeonatos da Europa mas nunca tinham participado nos mundiais. Eles chegaram a uma equipa com um determinado sistema que lhes permitiu chegar ao topo de forma rápida. Eles tinham ambição e tudo funcionou. Eles chegaram aqui como o par n.º 4  da Rússia; eles tinham que provar que iriam representar o país de forma decente nos Jogos Olímpicos. A competição interna no país foi uma grande alavanca para eles.

P - O que é que podes dizer sobre Tarasova & Morozov?
Nina Mozer - Há uma escola nas montanhas Vorobioevy onde eu sou a treinadora principal. Estes dois cresceram nesse rinque. Eu fico muito surpreendida quando algumas pessoas dizem que eu só trabalho com atletas que já são bons. O Vladimir está comigo há mais de 8 anos. Ele veio aqui fazer testes quando ainda era um rapaz. O seu crescimento e desenvolvimento foi no rinque perante os meus olhos. Estivemos sempre perto. A Evgenia chegou como uma patinadora individual promissora mas sem muito sucesso. Ele mudou-se para a categoria de pares na nossa escola. Eu tive que convencer o treinador dela que a Evgenia era suficientemente decente para patinar e resultou! É o nosso par da casa. Esta temporada eles executaram um quádruplo twist nos nacionais. Nós tentámos um quádruplo salto lançado com o auxílio de cordas (nota: quando aprendem saltos lançados novos as patinadoras costumam estar seguradas por cordas que estão presas a uma estrutura para não caírem e não se lesionarem). É duro mas nós estamos a tentar chegar lá. 

 
Nina Mozer também é a treinadora principal do par Evgenia Tarasova & Vladimir Morozov


P - O que é que lhes falta para se tornarem líderes?
Nina Mozer - Penso que experiência. Esta é apenas a sua segunda temporada no escalão sénior. No primeiro ano eles chegaram à selecção devido às lesões dos outros. Eu fui com eles aos seus primeiros mundiais onde eles conseguiram um resultado fantástico (6.º). É um dos pares mais jovens no mundo. Este ano eles sabiam que eram os reservas. Mas mais uma vez conseguiram ir aos mundiais e foram quintos. Nós falámos sobre isso quando ainda não sabíamos que pares iriam participar nos campeonatos do mundo - haviam lesões. Eu disse-lhes que eles tinham de estar preparados para ir aos mundiais como líderes. Foi duro. Quando eu lhes disse mais ou menos a mesma coisa há dois anos, a Evgenia desligou-se. Foi como quando ela patinava sozinha - ser incapaz de mobilizar todas as suas habilidades no momento necessário. Agora ela já aprendeu. Eu sei exactamente que palavras têm de ser ditas à Evgenia Tarasova antes dela patinar. Eu não estou junto das barreiras mas sei exactamente o que lhe dizer depois do aquecimento. É muito importante.

P - Tu não estavas a planear a ida da Tatiana e do Maxim aos mundiais. Por que é que foi decidido que eles iam participar?
Nina Mozer - A competição principal foi o campeonato da Europa. Quando a selecção para os mundiais foi decidida, sucedeu que a Yuko Kavaguti estava lesionada e que Astakhova & Rogonov ficaram em sétimos nos europeus. Iam existir mais 5-6 pares fortes nos mundiais. Além disso o Fedor Klimov estava lesionado. Então a Tatiana, o Maxim e eu sentámo-nos depois dos europeus e percebemos uma coisa simples: nós podíamos ficar sem lugares suficientes nos mundiais na época pré-olímpica. Então simplesmente começámos a preparação. Não foi para nós próprios mas sim pelo país. 

Nina Mozer à esquerda com Maxim Trankov e Tatiana Volosozhar durante os Jogos Olímpicos em Sochi 2014. À direita da imagem está Stanislav Morozov que na altura era o seu assistente.
  P - A lesão do Klimov foi grave?
Nina Mozer - Nem fazes ideia. Ele quase ficou aleijado. O nosso favorito Jorje Fernandez salvou-nos. Ele foi capaz de trazer o Fedor de volta à vida. O seu ombro ficou pendurado e durante dois meses foi incapaz de levantar o braço acima do nível do ombro. Quando ele foi ter com o Jorje, este telefonou-nos e disse que os músculos do peito e os trícipites do Fedor estavam atrofiados. Nós nem sequer falávamos de continuar a carreira mas o Jorje disse que ia tentar o seu melhor. Tudo aconteceu (a evolução favorável) porque o Fedor é muito paciente. Em Novembro, ele fez qualquer coisa e não podia patinar então o nosso massagista de algum modo conseguiu trazê-lo de volta. O Fedor estava melhor mas ainda havia algo que o perturbava. Em Janeiro, quando os médicos voltaram a colocar as suas vértebras no sítio, soube-se que o nervo estava "quase morto".

Ksenia Stolbova & Fedor Klimov são treinados por Nina Mozer

P - Porquê tantas lesões?
Nina Mozer - Eles são fanáticos, todos eles querem ganhar, querem medalhas, eles têm vontade de tentar e arriscar. A disciplina de pares agora é um risco para a vida. As lesões são horríveis. Olha, na disciplina de pares quase todas as equipas de topo estiveram lesionadas nesta temporada. Especialmente aquelas que arriscaram um salto quádruplo lançado. Uma atleta americana ficou aleijada, uma das chinesas estava a patinar com -8% de visão num dos olhos, a canadiana campeã do mundo queria fazer dois saltos quádruplo lançados mas desistiu disso depois de se ter lesionado nos queixos, a Kavaguti rasgou o tendão de Aquiles fora da pista e que eu penso ser o resultado do quádruplo. Smirnov e ela tinham começado a realizar dois quádruplos. Mas o corpo não é imune.

P - Voltemos aos campeonatos do mundo. O que é que tu pensas do resultado dos nossos pares?
Nina Mozer - Alguns podem dizer que os 4.º, 5.º e 6.º lugares são um falhanço. Por amor de Deus. Sim, não houve medalhas mas os nossos pares ficaram no top 6. Claro que nós queríamos fazer melhor e lutar pelas medalhas; nós estamos habituados a estar no topo mas houveram muitas razões incluindo psicológicas. Deixa-me dizer-te um pequeno pormenor: cinco dias antes de partirmos para os mundiais, nós tivemos de mudar os patins do Maxim - o patim esquerdo estava mau, três dias antes da competição uma lâmina da Tatiana partiu-se. Então nós corremos a comprar patins novos e começamos a patinar com lâminas novas. Eu nem sei o que lhe chamar - destino, má sorte. Mas eles foram buscar a sua força interior para ir lá e lutar.

P - A Tatiana e o Maxim têm motivação suficiente?
Nina Mozer - É sempre uma pergunta difícil. Nós tentamos encontrá-la todas as vezes. Não consigo dar uma resposta mais assertiva. 

P - Há alguma certeza de que eles vão continuar a patinar até aos Jogos Olímpicos?
Nina Mozer - Só Deus sabe. Os pensamentos estão a mudar. Nós assumimos e Deus decide. A vontade existe mas existem coisas que não dependem de nós. Depois desta temporada, em que enfrentei tantos problemas, eu não posso ter a certeza. 

P - Quais são os objectivos dos teus três pares para a próxima época?
Nina Mozer - Nós vamos discutir isso. O seu principal objectivo é vencer, serem competitivos e efectuar os elementos de grande nível. Este ano vou deixá-los decidir eles próprios o que querem fazer. Coreógrafos diferentes. Só a Ksenia e o Fedor é que estão a trabalhar com o Nikolai Morozov. O resto é segredo.

P - Tens seguido os júniores?
Nina Mozer - Este ano não mas no próximo sim. Eu tenho dois pares interessantes: Albina Sokur & Roman Pleshkov e outro par novo interessante - Daria Loboda & Daniil Parkman. Eles podem tornar-se num par ideal. Eles têm três saltos triplos diferentes. Isso é uma coisa séria na disciplina de pares.

sábado, 26 de março de 2016

Tradução de entrevista da patinadora Julia Lipnitskaya

Julia Lipnitskaya, campeã da Europa em 2014, concedeu uma entrevista à jornalista Elena Vaytsekhovskaya onde falou sobre os desenvolvimentos mais recentes na sua vida e na sua carreira. Há poucos meses, Julia confirmou que tinha terminado a relação profissional com a treinadora Eteri Tutberidze, tendo se mudado para o grupo de Alexei Urmanov em Sochi. Urmanov foi campeão olímpico em 1994 na categoria de individuais masculinos e é actualmente um treinador com excelente reputação.
O link original da entrevista está aqui e tem bonitas fotos da jovem patinadora: http://www.sport-express.ru/se-velena/reviews/979675/


Tradução da entrevista

Pergunta (P) - Vamos começar pelo princípio. Quando tomaste a decisão de te mudares para Sochi estavas muito optimista. Qual é a realidade?
Julia Lipnitskaya - Interessante. Não foi só por causa dos treinos mas também por começar a viver sozinha. Fui embora sozinha pela primeira vez na minha vida. Primeiramente aprendi que a comida não cresce no frigorífico e que o shampoo não se materializa no chuveiro. Anteriormente eu nem pensava nessas coisas. No início eu tinha de ir a pé ou de bicicleta para os treinos e não foi fácil. Depois de construírem o circuito de fórmula 1 em Sochi, eu tenho de fazer um grande desvio e, se tiver na bicicleta, tenho de carregá-la quando atravesso as pontes no caminho.Todos os dias nos treinos ficava chocada. Tudo era novo. Por exemplo, o grande número de treinos para a condição física que eu tinha de conciliar com o trabalho no gelo. Em Moscovo não trabalhávamos a condição física como parte do processo - apenas a coreografia. Cada um tinha que olhar pela sua condição física sozinho. Em Sochi nós também trabalhamos a coreografia todos os dias mas é um extra com as outras coisas. Inicialmente eu pude faltar a algum desse trabalho fora da pista de gelo pois eu tive de preparar-me para os campeonatos nacionais e tive que trabalhar muito no gelo. Mas não foi fácil. Aparentemente comparada com os outros integrantes que patinam no grupo de Urmanov, eu não tenho músculos nenhuns. As suas tentativas para me fazer desenvolver alguns músculos num curto espaço de tempo resultaram em eu não ser capaz de me levantar no dia seguinte depois de um dia inteiro de trabalho no ginásio.

P - Mesmo no início da temporada, enquanto ainda estavas a treinar em Moscovo, eu fiquei francamente surpreendida pela maneira como os teus programas foram construídos. Especialmente com todos os teus saltos na primeira metade do programa. Era o melhor que conseguias fazer na altura?
Julia - Por que é que todos os saltos estavam na primeira metade do programa, especialmente no programa curto? Francamente eu não me lembro. Eu tive problemas no programa livre. Se te lembras, o meu programa da temporada olímpica tinha cinco saltos na segunda metade do programa. No ano seguinte foi como se nada tivesse mudado mas eu fui capaz de realizar duas combinações de saltos, um peão e uma sequência de passos na primeira metade do programa. E era só isso, o programa acabava. Durante toda a temporada fui incapaz de patinar um programa limpo. Nem sequer durante as sessões de treinos. As competições eram ainda piores. Quando percebes que não consegues patinar o teu programa, que nunca o fizeste nem nos treinos, é só nisso que consegues pensar. Obviamente que isso não traz confiança.

P - Isso aconteceu durante toda a passada temporada olímpica?
Julia - Durante ainda mais tempo. A única vez que eu fui capaz de fazer um programa limpo, mesmo que fraco, foi em Outubro passado no Skate America. Os outros dois programas limpos aconteceram antes dos campeonatos nacionais quando eu já estava a treinar com Urmanov e outra vez mesmo antes da Taça da Rússia* em Saransk.

*Nota: esta referência à Taça da Rússia corresponde a uma competição meramente interna.

P - Havia uma razão para estar optimista logo após a mudança de treinador?
Julia - Não de todo. A primeira coisa que eu encontrei no grupo do Urmanov foram maneiras de entrar nos saltos com que eu não estava familiarizada. É a coisa mais importante para um patinador: se a entrada for errada o salto já não vai acontecer. Eu sempre pensei que seria a mesma coisa. E depois lá estava o Alexei Urmanov a pedir-me para fazer um triplo lutz a seguir a passos. Por exemplo: passos-salto-salto-mudança de aresta na lâmina-salto. Todos os dias estávamos a saltar com entradas diferentes mas eu nem sequer me estava a acostumar com um certo grupo de elementos. Foi um pesadelo. E todos à minha volta estavam a fazer saltos triplos sem dificuldades. Eu nem sequer conseguia fazer saltos duplos. Eu realmente a sentir-me mal não só por mim mas também pelo treinador. Eu pensei que ele olhava para mim e pensando "No que é que eu me fui meter? E esta é a rapariga que eu tenho de levar aos campeonatos nacionais?" E depois de repente tudo ficou bem. Os saltos reapareceram e nós até mudámos a ordem dos elementos.

P - Durante estes últimos meses, eu penso que tu tinhas de responder a ti própria apenas a uma pergunta.
Julia -Se eu quero continuar a patinar? Eu quero. Claro que tenho momentos bons e momentos maus, umas vezes as coisas funcionam e outras vezes nem por isso, mas isso acontece a qualquer atleta por isso tudo bem. A coisa mais importante é que eu sei quais são os meus objectivos e sei que eles estão ao meu alcance.

P - Trabalhar com o Alexei Urmanov é interessante?
Julia - Muito. Há uma variedade infinita. Se há qualquer coisa que não funciona ele apresenta 800 outras coisas que eu posso fazer para corrigir o erro. Sente-se que o Alexei Urmanov é ele mesmo um patinador individual e sabe exactamente como os elementos devem ser feitos e como afinal as coisas mais difíceis podem ser feitas com facilidade.

P - Já tens mais ideias para os programas da próxima temporada?
Julia - Sim mas só no geral. O meu objectivo a curto prazo é trabalhar no ginásio e preparar os meus músculos para a labuta. É o que eu vou fazer enquanto o Alexei Urmanov vai estar fora - acompanhando o Deniss Vasiljevs aos mundiais nos Estados Unidos. Não é só o meu tronco que é fraco mas também as minhas pernas.


P - E mesmo assim os teus saltos parecem ter mais elevação.
Julia - Sim, é verdade mas muito graças a ter corrigido a minha técnica. E já agora, saltar no estilo "Tano"* ajuda-me. Anteriormente, eu saltava e era como se ficasse com medo de estar no ar, eu ficava muito rija. Eu penso que essa é razão pela qual eu estava a falar o segundo triplo toe loop nas combinações. O braço levantado ajuda-me a manter a rotação e a não dobrar-me no ar. E foi quase sem querer que eu comecei a fazer isso: eu estava a realizar saltos duplos e depois tentei um triplo flip que foi inesperadamente fácil.

*Estilo Tano = saltar com um dos braços elevados durante a rotação do elemento. Chama-se Tano em homenagem ao patinador Brian Boitano pois vou ele que celebrizou essa forma de saltar. 

P - Tens seguido a categoria de senhoras?
Julia - Eu tento.

P - Estás preocupada com o aparecimento de mais e mais jovenzinhas que patinam tão bem e nem sequer é óbvio como derrotá-las?
Julia - O mais importante é que eu compreendo o que tenho de fazer e como. Claro que a situação na patinagem feminina muda. Anteriormente, as patinadoras mais velhas recebiam uma segunda nota mais elevada e isso era suficiente para compensar a falta de dificuldade. Agora as juniores recebem uma segunda nota elevada desde o princípio, logo competir com elas é mais complicado. Mas como diz o Alexei Urmanov, eu tenho de fazer o meu trabalho e deixar o tempo acertar as coisas. Então eu estou a fazer o meu trabalho: melhorar os meus saltos, a expressividade da minha patinagem, novas posições nos peões. Nós vamos trabalhar nisso tudo durante a época baixa* em Sochi. Talvez mais para o Outono nós iremos para outro local para um campo de treinos só para mudar de ambiente, embora nós tenhamos tudo o que precisamos para trabalhar no nosso rinque e eu não quero ir para outro lado e desperdiçar tempo. Parece que eu tenho muito tempo pela frente mas não é o caso.

*Época baixa: período de tempo entre a Primavera e o Verão que decorre entre o final de uma temporada e o início da seguinte.

P - Quanto tempo demoraste a adaptar-te a Sochi?
Julia - Nos primeiros dias eu não tinha tempo para nada. Tudo era novo. Eu estava a fazer o meu melhor para cumprir tudo o que estava planeado. Eu estava sempre a adormecer antes do primeiro treino da manhã. Em Moscovo nós costumávamos patinar a partir da uma hora, então eu nunca precisava de usar o despertador e ia dormir quando calhava. Eu ainda não consigo ir para a cama cedo; então é complicado acordar cedo. Já tentei ler, pintar, ir andar, ouvir música mas o sono não aparece.

P - Também fazes as refeições no hotel?
Julia - Normalmente só o pequeno-almoço*. O resto é como calhar. Eu posso almoçar no hotel mas é má ideia - a comida é uma tentação. Então eu prefiro almoçar noutro local ou simplesmente comprar comida já pronta que eu posso comer no meu quarto de hotel. Eu não tenho a possibilidade de cozinhar para mim própria. Mas eu gosto assim. A vivência em Moscovo era mais complicada mesmo que fosse só para ir dar um passeio. 

*Para os leitores do Brasil: pequeno-almoço = café da manhã

P - Já pensaste em arrendar um apartamento na cidade?
Julia - Não. Isso não é muito seguro na minha situação. Aparentemente existem muitas pessoas a tentar interferir com a minha vida. Eles arranjam a minha morada e o meu número de telefone. Eu não compreendo como é que alguém pode invadir a privacidade de alguém de maneira tão rude e achar que é esperado. Neste momento é mais conveniente ficar no hotel.

 
P - Ainda és reconhecida nas ruas?
Julia - Às vezes as pessoas veem-me na rua e ficam com os olhos arregalados. Eu compreendo que eles estão a tentar lembrar-se de quem eu sou. Nessas situações eu acelero o passo e desapareço.

P - Tens saudades de Moscovo?
Julia - Não. Eu vim aqui por uns dias, visitei sítios familiares, falei com toda a gente. Já posso voltar (para Sochi). Voltarei para Moscovo quando terminar a minha aventura em Sochi.


P - E quanto tempo é que achas que isso vai demorar?
Julia - Pelo menos por dois anos. Depois vamos ver. Talvez queira patinar por mais 8 anos. 

P - A luta contra o teu peso é mais fácil agora do que antes?
Julia - Tive problemas durante o Verão. Eu estava a tentar perder peso; eu ia correr e desistia da comida mas nada ajudava. Eu costumava pensar que "engordar só com ar" era apenas uma expressão mas foi o que aconteceu comigo. Eu colocava uma colher de mel no chá e "bang" um quilo extra. Eu não compreendia o que se estava a passar. Eu não acreditava que todos aqueles horrores que me diziam da puberdade me iriam acontecer a mim. Por altura dos campeonatos nacionais, eu trabalhei imenso para perder um quilo. Por alturas da Taça da Rússia, o meu peso começou a descer - os vestidos começaram a ficar-me largos. Em Sochi, as coisas com a comida são mais fáceis - eu como muitos vegetais e frutas e amo isso.

P - Enquanto ainda estavas a lidar com as dificuldades em Moscovo, ponderaste a hipótese de deixar a patinagem individual? A Sofia Biryukova, por exemplo, mudou para a disciplina de pares e tem tido sucesso.
Julia - Depois de ter patinado no grupo da Marina Zueva, durante o Outono, eu quis mesmo tentar a disciplina de dança. Mas foi mau quando regressei a Moscovo e quase dei com a minha mãe em doida ao insistir com ela para ir para a disciplina de dança. Eu pensei que tudo iria resultar bem para mim: eu sou pequena, flexível, seria fácil fazer figuras de elevação comigo e eu não tenho medo. Nos Estados Unidos cheguei a tentar patinar com um parceiro. Foi muito fixe*. 

*Para os leitores do Brasil: foi muito fixe = foi muito bacana.

P - E o que te impede de fazeres isso depois dos Jogos Olímpicos na Coreia do Sul?
Julia - Terei 19 anos e isso será muito tarde. A adaptação a um parceiro em dança demora algum tempo. Foi o que me disseram quando partilhei essa ideia com algumas pessoas: "Está maluca? As pessoas passam 8 horas diárias só para aprender a deslizar juntos."

P - Podias mudar para a disciplina de pares?
Julia - Não, não quero isso. Eu adoro ver Volosozhar & Trankov e Stolbova & Klimov  mas nem sequer me consigo imaginar como parceira. Só assistir a alguns dos elementos já é assustador. 

P - Quem é que agora te arranja o cabelo antes das competições?
Julia - Eu própria. Honestamente eu não tenho muita paciência para fazer as trancinhas como a minha mãe me fazia. Eu sei como fazer isso e se necessário eu sei criar qualquer penteado.

P - Por que é que te estás a rir?
Julia - Eu recordo-me de como me apliquei para arranjar o cabelo antes da competição na Áustria. Tudo correu mal lá começando pelo aquecimento. Eu fiz um primeiro salto, arranhei-me e deitou sangue embora as meias não se tenham rasgado. Eu tentei um segundo salto e a lâmina ficou presa num atacador da bota, cortando-o completamente. Na tentativa de um flip "tano", atingi o penteado e percebi que todos aqueles ganchos, que demorei uma eternidade a colocar, ficaram na minha luva juntamente com uma madeixa de cabelo. E eu era a primeira a patinar...

P -  Parecia que não estavas com disposição para patinar em Innsbruck , como se não compreendesses para que é que aquilo servia.
Julia - Devo dizer-te porquê? Eu não conseguia apoiar-me no meu pé esquerdo. Em Sochi, nós tínhamos começado a treinar as novas combinações para a nova temporada. Parece que alguns músculos não estavam preparados para aquela pressão ou talvez eu tentei demais. Seja como for, um dos músculos ficou magoado. Eu fui submetida a observação e deram-me indicações e alguns medicamentos mas no geral os médicos aconselharam-me a ficar deitada e a nem sequer andar. Isso aconteceu 4 dias antes da competição.

P - Ponderaste não ir a Innsbruck?
Julia - Iriam acontecer muitos problemas se não fossemos. Eu precisava de outra competição; eu precisava dos pontos. Então decidimos que logo se via. No final atingimos os objectivos.

P - Se começaste a trabalhar em novas combinações, já tens ideia do que queres mostrar na próxima época?
Julia - Ainda está tudo no ar. Estamos a corrigir alguns elementos técnicos, depois vamos reavivar o lutz-toe loop e loop-toe loop. Eu tenho um duplo axel-meia volta-triplo salchow, cobrindo metade do rinque, que é decente e aparentemente é bom. Antes da competição em Innsbruck, o triplo lutz-triplo toe loop estava a funcionar mas eu lesionei-me a seguir. Mas está claro que os saltos estão a voltar bem. 

P - Quem é que coreografará os teus programas para a próxima temporada?
Julia - Temos diversas ideias, tudo com coreógrafos estrangeiros, mas ainda não posso dizer os nomes pois as negociações ainda nem sequer começaram.

P - Tu tens cá um feitio no que diz respeito às coreografias, certo?
Julia - Tem a ver com o facto de eu ser muito exigente com as novas pessoas. E eu não concordo com nada novo até perceber que não me vai ser prejudicial.

P - Durante toda a temporada tenho ouvido que a Evgenia Medvedeva tem patinado um programa que foi feito para ti. Francamente, é uma pena se for verdade. Eu penso que um programa daqueles te assentaria bem.
Julia - É verdade que o programa foi coreografado para mim. Se calhar até me assentaria bem mas eu detestei a música. Eu tentei habituar-me a isso e disseram-me que conseguiria fazê-lo numa semana. Mas isso não aconteceu. Aquela não era a minha música. Eu estava a aguentar aquilo. Mas quando eu perguntei a mim própria por que é que teria de sofrer a temporada toda não encontrei resposta. Quando a Evgenia começou a patinar essa música, eu pensei que ouvir essa música no rinque me iria irritar mas isso não aconteceu. Inconscientemente parece que percebi que aquela já não era a minha música e não me preocupei com isso.


P - Gostas da parte da tua vida que tem a ver com publicidade, viagens e filmagens/sessões de fotos?
Julia - Depende. Eu tento não levar isso muito a sério. É simplesmente uma coisa que tenho que fazer por causa de contratos. Foi interessante fazer parte de um anúncio publicitário. Os criadores queriam mostrar a patinagem artística como os patinadores a vêem, usando um "selfie-stick". Digamos que era uma visão a partir do gelo.

P - Eu recordo-me de quando falámos em Budapeste pouco depois dos campeonatos da Europa 2014 e tu deste a entender que não gostava de patinar, mas que aguentavas. 
Julia - Isso aconteceu na temporada olímpica. Depois disso... Eu tive hipótese de ver como é a vida real e percebi de que não fazia ideia do que era. As coisas também não estavam a resultar no gelo. A partir de determinada altura deixei de perceber como é que deveria viver e o que devia fazer. Eu não queria saber de nada. Agora tento desfrutar. A patinagem, encontrar-me com amigos, a independência. Eu compreendo que a vida real começou agora. No desporto é a mesma coisa. Eu não aguento a patinagem artística mas eu percebo que preciso dela. Talvez eu e o treinador iremos fazer as coisas resultar? Eu também gosto do ambiente no grupo. Eu nunca tinha passado por isso: eu já estive em diversos grupos onde digamos que havia uma guerra interna. É um desporto individual e nós competíamos uns com os outros o tempo todo. Mesmo quando dávamos a entender que estava tudo num mar de rosas. Mais do que isso: eu percebi que o mundo da patinagem artística é muito cruel, ao qual eu tinha de me habituar. E depois mudei-me para o grupo de Alexei Urmanov. Inicialmente eu pensei que eles estavam a esconder alguma coisa. 

P - E?
Julia - Cheguei à conclusão que nem sequer devia pensar nisso. Eu apenas tenho que aproveitar esta relação. É coisa rara no nosso desporto.


P - Do que é que sentes mal falta em Sochi?
Julia - Penso que as pessoas mais próximas. Por outro lado penso que aprendi a valorizar os momentos que consigo passar com os que mais amo.


 


domingo, 7 de fevereiro de 2016

Tradução de entrevista com Maxim Trankov

Tradução de entrevista com Maxim Trankov


O patinador russo Maxim Trankov, que forma parceria no gelo com a sua esposa Tatiana Volosozhar, respondeu a várias perguntas durante uma conferência de imprensa realizada em Bratislava (Eslováquia), a propósito dos campeonatos da Europa de patinagem artística que decorreram em Janeiro de 2016.

Maxim Trankov

Podem conferir a tradução em baixo.

Pergunta (P) - Maxim, vencer os Jogos Olímpicos significa que todas as prestações que fizerem passam a ser comparadas com a dessa prova. O que é que tu achas disso?
Maxim - Nós ficamos chateados connosco pelos erros que cometemos nas competições. Depois sentamos-nos, assistimos às nossas prestações passadas e verificamos que nós só patinámos sem erros nos mundiais e na temporada olímpica. Quer dizer as restantes competições são como uma preparação para as principais. Nós temos de levar as coisas com calma. Não se pode ganhar sempre nem estar sempre a bater recordes. Eu sei que vai haver quem comece a discutir com alegria que isto são só os campeonatos da Europa onde este ou aquele par não participaram. Eu só posso repetir aqui o que referi na zona mista (de imprensa): nós fizemos o mínimo necessário para vencer a competição em Bratislava. Nós temos experiência suficiente para saber quando temos de guardar energias. E quanto despendê-las. Nós sabemos como treinar para apresentar resultados. A única coisa que pode correr mal é com problemas de saúde. 

P - Para muitos fãs esta competição é a primeira, e principalmente a competição, onde Volosozhar & Trankov competiram com Aliona Savchenko outra vez. Isto significa alguma coisa para ti?
Maxim - Nada. Nós somos os nossos principais adversários. Não não estávamos mesmo a competir contra eles nos Jogos Olímpicos. Toda esta conversa sobre rivalidades é criada pelos jornalistas. De que rivalidade é que estás a falar quando nós tivemos erros no nosso programa e ganhámos-lhes por 20 pontos?

P - Mas se estes dois pares não tivessem participado os campeonatos em Bratislava teriam sido muito diferentes.
Maxim - Com o rumo que as coisas estão a tomar na categoria de pares em breve só haverá 5 a 7 pares na Europa. 

P - Porquê?
Maxim - Porque as pessoas andam a matar-se ao caírem em saltos lançados quádruplos. Quando é que alguma vez aconteceu pares no último grupo falharem as suas figuras de elevação? Isto deve querer dizer alguma coisa.


P - Quer tu queiras quer não, este desporto está a evoluir nesse rumo.
Maxim - Pode ser diferente. Olhem para o que a Aliona e o Bruno estão a fazer. O seu twist e as suas figuras de elevação são fantásticas. A isso é que eu chamo patinagem de pares, com a qual maus quádruplos são incomparáveis. Olhem só para as raparigas que fazem esses saltos lançados - estamos a falar sobre a beleza da patinagem? Isto está a ficar parecido com ginástica. Eu penso que alguém tem de escrever ao Cinquanta (presidente da ISU). Só nesta temporada já perdemos 5 pares. 

P - E por que não tu e a Tatiana, actualmente o par com mais palmarés.
Maxim - Nós não andamos a matar-nos com saltos lançados. Nós experimentámos o quádruplo twist e o quádruplo loop lançado, causando a minha lesão no ombro e as lesões de Tatiana no tendão de Aquiles e no calcanhar. Perdemos metade de uma temporada graças a isso. Só na nossa equipa estamos a lidar com quatro problemas de lesões - 2 da Natalia Zabijako, uma delas grave, e duas de Stolbova & Klimov. O par chinês que queria lutar pelo ouro na final do circuito do Grande Prémio lesionaram-se nos saltos lançados e e nem sequer aguentaram a competição. A patinadora tem uma lesão grave no calcanhar. Uma patinadora americana teve de se retirar da patinagem depois de uma queda. Yuko Kavaguti? A chinesa Peng Cheng que se andava a matar em duas competições consecutivas e que competiu na Taça da Rússia com uma enorme marca roxa na cara. Por que é que não tentam antes complicar os saltos lado-a-lado? O triplo toe loop e o triplo salchow já eram feitos há trinta anos atrás por Valova & Vasiliev. Por que não as figuras de elevação? Talvez o quádruplo twist pois o patinador tem o controlo absoluto da situação mas se a patinagem artística continuar a seguir neste rumo podemos ir por caminhos separados. Para quê? Especialmente quando já temos todos os títulos possíveis. 

P - Quando já tens todos os títulos e tudo - incluindo uma vida familiar feliz - o que é que te mantém motivado para continuar a patinar?
Maxim - Eu acho que temos uma dívida para com o nosso país que tanto investiu em nós antes dos Jogos Olímpicos de Sochi. Além disso, abandonar agora seria errado - imagina que nós não tínhamos competido neste Europeus, patinadores de outro país iriam vencer o título - a Rússia perderia uma posição de liderança na disciplina de pares. Claro que nós estamos em perda. Com o actual estado da nossa moeda, nós poderíamos estar a ganhar dinheiro fazendo espectáculos no estrangeiro e a ter uma boa vida na Rússia. 

P - Podem tentar conciliar as coisas
Maxim - Isso é muito complicado. Se estás a ser sério nos treinos tens de abdicar de muita coisa.


P - Quando tomaram a decisão de continuar a competir houve algumas ocasiões em que tu e a Tatiana discordaram neste assunto?
Maxim - Francamente, eu estava menos entusiasmado em continuar do que a Tatiana. Ainda não compreendi por que é que eu continuo a patinar. Tenho sentimentos contraditórios: por um lado somos casados e deveríamos estar a constituir família mas e se a Tatiana quer continuar a patinar? Por outro lado já temos um plano para a Tatiana e eu vamos fazer quando nos retirarmos. 

P - Espero que não estejas a sonhar com uma carreira como treinador?
Maxim - Sonhar não mas provavelmente vai ser o que eu vou fazer. Apesar de poder não ser o principal. Eu prefiro muito mais o trabalho em televisão. (Nota: Maxim tem trabalhado como comentador desportivo na televisão russa em várias ocasiões).

P - Quão importante é esta vitória em Bratislava?
Maxim - É significativa. Ao fim ao cabo a época não foi fácil. Como os Europeus eram o nosso objectivo principal estamos satisfeitos. É só que o estado de espírito no nosso grupo não era o melhor por causa de todas as lesões no final do ano e nós, enquanto líderes do grupo, tivemos de puxar por toda a gente e arrastá-los. É difícil, é cansativo. Às vezes nós queremos alguém para nos motivar a nós. 


P - Quais são as possibilidades de te ver a ti e à Tatiana nos mundiais?
Maxim - Eu não disse que não íamos. 

P - No entanto não estás a excluir essa possibilidade?
Maxim - É muito prematuro. Depois dos Europeus nós vamos participar num espectáculo na Suíça, vamos trabalhar com diversos especialistas e depois vamos ver como nos sentimos, como é que a minha lesão nas costas estará e qual é a situação geral na categoria de pares.

P - Isso irá de alguma maneira depender da decisão de Stolbova & Klimov participarem nos mundiais?
Maxim - Stolbova & Klimov estão a planear estar lá a 100%. A Ksenia é uma lutadora: se ela disse que vai fazer um salto quádruplo lançado - é porque vai conseguir. Com esse elemento tudo pode acontecer. Deus nos livre que aconteça uma situação em que nós tenhamos de participar - o mundo vai dar voltas - mas patinaremos. Nem que tenhamos de patinar depois de levar injecções. (Nota: Maxim estava a referir-se a injecções legalmente permitidas quando um patinador precisa de aliviar as dores provocadas por uma lesão comprovada e não quer desistir da prova).