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segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Tradução de entrevista de Maxim Trankov

Olá a todos.

A primeira publicação da semana é sobre a mais recente entrevista de Maxim Trankov.

Maxim Trankov


Maxim e a sua parceira/esposa Tatiana Volosozhar abandonaram a patinagem de competição mas continuam super activos. Ambos são presença habitual no espectáculo "Romeu & Julieta" produzido pelo coreógrafo Ilya Averbukh. Maxim também tem assumido funções de comentador em algumas transmissões de patinagem artística e já participou em duas temporadas do fenómeno televisivo russo "Lednikoviy Period". Este ano Maxim assumiu a responsabilidade de orientar um dos melhores pares do mundo: Evgenia Tarasova & Vladimir Mozorov. 


Evgenia Tarasova & Vladimir Morozov


Recentemente o conceituado patinador russo concedeu uma entrevista à jornalista Alexandra Romanova da publicação News.ru 
Por favor cliquem no link para ajudar a jornalista e para ver as fotos.

Aqui está a tradução da entrevista para português.

Jornalista - Como é que avalias o estado da preparação do par líder Evgenia Tarasova & Vladimir Morozov para os testes? Nota da tradução: estes testes são organizados pela federação russa para avaliar os patinadores que fazem parte da selecção nacional e normalmente realizam-se no início de Setembro.

Maxim - Nós estamos prontos para os testes. Os dois programas estão prontos; eles já patinaram o programa curto completo diversas vezes. Eles patinaram sem mim na Quarta-feira de manhã. Esta semana vão patiná-lo outra vez. O programa livre é mais comprido e complicado mas eles gostam dele. Penso que se eles patinarem o programa de forma limpa será a cereja no topo do bolo em qualquer competição.

Jornalista - Conta-me sobre os preparativos realizados na pré-época. Em que é que trabalharam? Quais foram os programas?

Maxim - Há sempre problemas. Os maiores são o financiamento e os especialistas. Falando do par, há muitos problemas psicológicos que nós estamos a aprender a ultrapassar. Não é a preparação ou a habilidade de patinar que os preocupa. Houve uma altura em que eles perderam a motivação mas agora eles patinam para o seu treinador porque eles escolheram-me e querem que eu os treine. Eles fazem o possível para não me desapontar e patinar para mim. 
Na minha opinião é uma motivação para eles provar que a sua escolha foi acertada e que houve uma razão para trabalharem comigo durante esta temporada. Também existem problemas comigo como treinador. Eu não sou apenas inexperiente; eu não tenho qualquer passado como treinador. Por isso existem problemas.

Jornalista - Gostas de ser treinador? O que é que resulta para ti e em que é que precisas de trabalhar?

Maxim - Não posso dizer que ser treinador seja algo que eu goste ou que me interesse fazer. Eu detesto a parte técnica e de organização dos treinos. Mais importante ainda é que vivemos num país burocrático e fico a tremer no momento de assinar tantos papeis. Portanto eu não posso dizer que goste realmente do trabalho de treinador ou que estou interessado nele.

Jornalista - Mas deves gostar de alguma coisa…

Maxim - Eu gosto de criar algo novo. Aprender coisas novas, procurar em mim mesmo, nos atletas e nas mentes deles. Além disso a minha área educacional é psicologia. Para mim é interessante ver como as pessoas mudam a sua atitude perante o trabalho. 

Jornalista - Numa das tuas entrevistas, tu disseste que o treinador é um herói ou um altruísta. Qual é que tu és?

Maxim - Eu não posso intitular-me como treinador - não estudei para isso nem para trabalhar como tal.

Jornalista - Explica-te, por favor.

Maxim - Pelos documentos eu sou um especialista mas não um treinador. Eu não posso candidatar-me a esse trabalho então não posso intitular-me de treinador.

Jornalista - Então quem é que está indicado como o treinador de Tarasova & Morozov?

Maxim - Nina Mozer. Eu não sou treinador. Eu sou um psicólogo. Um especialista. Eu tenho habilitações e uma especialidade mas, de acordo com as leis maravilhosas do nosso país, com todo o meu conhecimento, eu não posso trabalhar com a equipa. Mesmo com toda a minha experiência como atleta.

Jornalista - Nos testes toda a gente vai estar focada na luta entre a Zagitova e a Medvedeva. Qual será o resultado? O que é que achas?

Maxim - Um resultado elevado. Eu penso que a Zagitova será mais consistente, mais do que as suas antecessoras que passaram pelo mesmo. Ela é uma menina inteligente e talentosa. Ela é linda em pista e tem saltos fantásticos. Ela é uma campeã olímpica.

Alina Zagitova


Jornalista - E a Medvedeva?

Maxim - Eu espero algo de novo depois da mudança para o grupo de Brian Orser. Toda a gente está expectante e a questionar-se "o que é que ela vai mostrar?". Eu quero muito que ela patine como uma canadiana. Em primeiro lugar no que diz respeito ao deslizar. Se a Zhenya (diminutivo) conseguir saltar como Medvedeva e deslizar como uma canadiana, será explosivo. Eu quero que a Evgenia alcance um novo patamar. É um caso raro quando os melhores treinadores da actualidade em individuais - Tutberidze e Orser - tenham treinado ou treinem a mesma atleta. Eu penso que é uma oportunidade de ouro para a Zhenya. Além disso, ao trabalhar com Orser, ela poderá tornar-se numa especialista espectacular no futuro. 

Jornalista - Porquê?

Maxim - Porque ela conhece a escola russa. 

Evgenia Medvedeva 


Jornalista - Tu experimentaste o papel de comentador na TV.

Maxim - Eu trabalhei com os melhores especialistas russos e estive em contacto com os estrangeiros. Cada um tem o seu estilo. Não há uma regra absoluta para a forma como o comentador trabalha. Há quem critique e procure os erros e há quem explique o aspecto técnico da patinagem. Também há os que elogiam todos os patinadores. Claro que eu tentei fazer algo único e que outros não tinham feito anteriormente. Eu acompanhei os comentadores russos e estrangeiros e encontrei um nicho.

Jornalista - E qual é esse nicho?

Maxim - Informação privilegiada. Eu não falava apenas sobre os elementos que foram feitos em pista como também apresentava o patinador.

Jornalista - Por exemplo?

Maxim - Havia um patinador que representava a Alemanha mas nasceu na Bélgica; o seu irmão gémeo é bailarino; os seus pais são muito fixes porque um dos filhos compete nos Jogos Olímpicos e o outro está no palco. Eles têm um cão e avó lutou pelo lado da Alemanha nazi. Coisas assim. Informações que têm pouco a ver com o desporto. Nota da tradução: Maxim está a referir-se a Ruben Blommaert

Jornalista - Por que é que escolheste essa forma?

Maxim - Porque quando alguém liga a televisão e vê patinagem artística, algo terá de captar a sua atenção. Eu preciso que eles fiquem naquele canal. Eu não acho que eles estejam interessados pelo triplo axel ou numa conversa entre os comentadores com "na tua opinião este peão vai ficar com que nível?", "Ó, eu penso que é de nível 4 apesar dele não ter mantido a última posição". Claro que a pessoa vai perguntar: "Qual Axel?, Qual posição?". Por outro lado também se pode dizer só as coisas boas de um patinador. Esse era o meu objectivo, o meu estilo. Quando eu me preparava para entrevistar um atleta, eu falava com o treinador e pesquisava informação na internet. No geral, eu conseguia dizer algo sobre qualquer patinador, mesmo que fosse oriundo do 3.º mundo e que não estivesse no topo.

Comentário à entrevista


Esta entrevista foi interessante a vários níveis.

Em primeiro lugar é curioso que Maxim tenha admitido publicamente que não pode ser listado como treinador oficial do par Evgenia Tarasova & Vladimir Morozov. Ele simplesmente confirmou aquilo que já se suspeitava: o grupo de Nina Mozer contornou as regras oficiais da federação russa para que Maxim Trankov pudesse assumir a orientação de Evgenia e Vladimir.
Nina Mozer tem estado afastada das suas funções devido a doença mas tem vários adjuntos e especialistas a trabalhar com ela, nomeadamente Robin Szolkowy e Vladislav Zhovnirski.
Teria sido mais lógico apresentar Vladislav Zhovnirski como treinador principal e adicionar Maxim Trankov como especialista técnico ao lado de Robin Szolkowy. A questão é que o nome de Maxim é bem mais sonante do que o de Vladislav. Muitos destes pares jogam com estes pormenores fora das pistas de gelo. Faz parte da política de bastidores. Maxim continua a ser muito respeitado como patinador apesar de já não competir e tem voz na comunicação social. Além disso é respeitado pela maioria dos juízes internacionais e especialistas que visitam os estágios para trocar impressões com treinadores e coreógrafos para perceber os programas dos atletas. 

Esta entrevista também é interessante porque ele admitiu mais uma contradição: ser treinador não faz parte das suas ambições profissionais e, mesmo assim, aceitou o desafio. 
Eu lembro-me de uma entrevista que ele concedeu há uns anos em que disse que nunca iria participar em programas de televisão como o "Lednikoviy Period" porque isso significava formar parceria com outra pessoa e ele só se imaginava a patinar com a Tatiana. 
No entanto, ele acabou por participar numa das temporadas como parceiro/professor/coreógrafo da cantora Julianna Karaulova. Maxim participou ainda na temporada mais recente do programa na qualidade de treinador de várias crianças.

Vídeo com uma das apresentações de Maxim Trankov com a cantora Julianna Karaulova

Quanto aos comentários na televisão, lembro-me que aqui há uns tempos ele meteu-se em apuros devido ao facto de não ter problemas em expressar as suas opiniões. Eu lembro-me que Meagan Duhamel ficou furiosa com alguns comentários de Maxim durante uma transmissão (diga-se de passagem que Maxim tinha toda a razão). Maxim fala sem filtros e eu gosto dos seus comentários apesar dele falar muito durante as provas :P

Por hoje é tudo mas em breve vou publicar mais coisas no blogue. 

Fiquem atentos e boa patinagem :)





quinta-feira, 28 de junho de 2018

Tradução de entrevista de Evgenia Medvedeva

A popular patinadora russa Evgenia Medvedeva concedeu uma entrevista à reputada jornalista Elena Vaytsekhovskaya e não se esquivou às perguntas colocadas. 


Como se devem recordar, Evgenia protagonizou um dos episódios mais falados deste ano quando abandonou a sua treinadora de longa data Eteri Tutberidze. A jovem russa tem participado em diversos espectáculos, principalmente no Japão, e no mês de Junho mudou-se para Toronto (Canadá), onde está a iniciar uma nova fase na sua carreira. Relembro que Brian Orser é o novo treinador de Evgenia. A avaliar pelas diversas publicações nas redes sociais, Jason Brown (Estados Unidos) tem sido o grande apoio de Evgenia nesta aventura. 


A entrevista em causa foi realizada precisamente neste contexto. O original em russo pode ser visto neste link: https://rsport.ria.ru/figure_skating/20180618/1138167724.html


Em baixo podem ler a tradução para português

Evgenia Medvedeva



Tradução de entrevista


EV - Evgenia, tu e a tua mãe arranjaram um apartamento?

Evgenia Medvedeva: Claro que sim. Nós escolhemos pela internet. Como é que se pode ir para um país estrangeiro sem ter um lugar para viver? 

EV - O proprietário do apartamento irá esperar-te ao aeroporto com um cartaz e a chave?

Evgenia Medvedeva: Não, o Jason Brown irá ter connosco. Ele vai levar-nos para a nossa nova casa. E a partir do dia 18, eu tenho um plano de treino detalhado.

EV - Durante quase três anos competiste muito e nunca perdeste. Agora estás a começar do zero: um novo treinador, uma nova vida, sem certezas de que vais conseguir adaptar-te e qual será o resultado. Estás preocupada com um possível falhanço?

Evgenia Medvedeva - Eu sou muito pés no chão por natureza. Eu só vou lamentar o resultado se eu perceber que podia ter feito melhor e não fiz. Eu consigo admitir para mim própria algumas coisas desagradáveis. Se eu compreender que é o meu tecto, e que é tudo o que eu posso fazer no momento, eu simplesmente admitirei que terminei no lugar que devia. O meu lugar. Eu entendo que estou a começar uma nova vida. Eu nunca vivi noutro país, nunca trabalhei com especialistas estrangeiros, nunca comi comida diferente por mais de duas ou três semanas. Tudo muda. Uma página em branco.

EV - É assustador?

Evgenia Medvedeva - Não. Eu estou a olhar em frente. De momento nem sequer penso que posso perder para alguém. Eu tento olhar para como será daqui a uns anos. Em primeiro lugar eu quero continuar saudável. É o meu principal objectivo. Eu só preciso de me certificar que este objectivo não muda o resultado e encontrar um equilíbrio. No volume de trabalho, na comida, na preparação mental e na condição física. 

EV - Antes das Olimpíadas na Coreia toda a tua vida se limita ao rinque. Tu estavas a treinar ou a dormir ou a preparar-te para os treinos. 

Evgenia Medvedeva - Verdade. Andei a dormir todos esses anos.

EV - Agora parece que te libertaste. Tens tempo livre, a oportunidade de tentar uma nova vida onde não há tanta patinagem mesmo que seja por te teres separado da treinadora e não tens a possibilidade de patinar todos os dias. Como é que estás a lidar com esta nova vida?

Evgenia Medvedeva - Não é que me tenha libertado. Eu abri os olhos e olhei em volta. Sim, eu tinha um objectivo - os jogos olímpicos. Foi o que eu almejei, foquei-me nos Jogos Olímpicos e nada mais. Eu quase não tinha amigos ou interesses apesar de ser uma pessoa com diferentes facetas. Eu não conhecia ninguém, eu não mantinha o contacto por falta de tempo e às vezes por falta de vontade. Eram só treinos. Mas parece que eu estou a crescer por dentro. Durante o Inverno, quando eu estava lesionada e não podia patinar, de repente pensei: e se eu me retirar do desporto e acabar sem amigos, sem interesses, sem vida pessoal - nada? E quando eu abri os olhos depois dos Jogos Olímpicos, a vida não seguiu apenas um caminho diferente mas tornou-se num grande rio a partir de um riacho. Eu encontrei amigos, novos interesses e talvez uma profissão futura da qual eu possa gostar e que possa decidir mudar 150 vezes. 

EV - Vais ser capaz de abdicar dessa vida de bom grado? De colocares os mesmos limites e perseguires o teu objectivo? Vais querer isso?


Evgenia Medvedeva - Eu vou querer. Eu acho que sou capaz de deixar tudo para trás pelo resultado. Mas mais importante - para ser realista. Não fazer coisas que me magoem ou magoem quem eu amo. Eu penso muitas vezes que a minha mãe e a minha avó sacrificaram suas vidas pela minha patinagem. Se eu sentir que não correspondo às suas expectativas… Eu não quero sentir isso. 

EV - Ou seja, às vezes sentes-te culpada face aos teus familiares?

Evgenia Medvedeva - Raramente. Os meus pais compreendem que o mais importante é continuar a trabalhar. Não há resultados - nõs vamos continuar a trabalhar. Há resultados? Óptimo. Então continuaremos a trabalhar. Se eu não fizer o que tenho de fazer, então irei sentir-me culpada. 

EV - Quão depressa levaste a recuperar depois dos Jogos Olímpicos?

Evgenia Medvedeva - Foi um processo longo. O meu corpo e a minha mente recuperam rapidamente fisicamente e mentalmente. Mas demorou um pouco depois dos Jogos Olímpicos. Acho que posso dizer que só agora é que estou totalmente recuperada mentalmente. 

EV - Eu ouvi uma versão que a tua mudança para o Canadá não teve a ver com os treinos mas sim com as oportunidades para espectáculos.

Evgenia Medvedeva - Vou revelar-te um segredo: eu já tenho muitas oportunidades.

EV -  O Brian Orser foi a tua única opção?

Evgenia Medvedeva - Sim.

EV - Porquê ele?

Evgenia Medvedeva - Por causa da Yuna Kim. Foi a primeira coisa que me veio à cabeça quando eu comecei a pensar em mudar de treinadores. A Yuna venceu os Jogos Olímpicos de Vancouver quando tinha 19 anos e foi segunda em Sochi quando tinha 23 anos. Eu vou ter 22 anos nas [Olimpíadas] da China. Claro que não foi só por ela. O Orser tem outros atletas que são considerados "velhos" na patinagem artística e que participaram em mais do que uma edição dos Jogos Olímpicos. A Kim é uma desses atletas. 

EV - Incomodou-te que ele tenha aceitado tantos atletas novos no seu grupo?

Evgenia Medvedeva - Não de todo. Eu sempre patinei e treinei num grupo em constante competição. Eu não me importo nada com isso. Além disso, os rapazes estão em maioria no grupo de Brian. Em segundo lugar, ele tem uma abordagem pessoal para cada patinador e ele enfatiza isso constantemente. Então ele terá tempo suficiente e atenção para cada um. Além do mais, eu gosto que haja tantos patinadores de topo à minha frente que me podem dar muito mais do que eu tinha antes. 



EV - Como é que te mantiveste em forma tendo em conta que não tinhas gelo (referência a falta de pista para treinar)?

Evgenia Medvedeva - Eu não mantive a forma que tinha nos Jogos Olímpicos e também não era necessário. Eu estava exausta nos Jogos Olímpicos; eu estava a preparar-me para atingir o topo de forma no programa livre. Eu estava com o peso mínimo e a máxima preparação mental. Então eu tive de recuperar durante muito tempo depois dos Jogos Olímpicos. Eu ganhei algum peso mas não muito. Eu tenho um espaço em casa para manter os meus músculos em forma. Quanto à forma actual para a patinagem, nenhum atleta pode estar no topo sem treinos intensos. De momento é por isso que estou a ir para o Canadá. 

EV - O Orser expressou alguns pedidos?

Evgenia Medvedeva - Não. Quando nós falámos na Coreia do Sul, eu penso que ele percebeu perfeitamente que eu patinarei no máximo das minhas possibilidades. Ou seja, circunstâncias. Se houver gelo - eu patino. Eu estava sem gelo em Moscovo. Ou seja estava sem uma base. Eu tive algumas horas de gelo antes do espectáculo no Japão e consegui recuperar alguns saltos. Eu queria muito isso.

EV - Demasiado tempo sem saltos?

Evgenia Medvedeva - Demasiado tempo sem saltos. Foi tão bom quando os saltos voltaram.

EV - Eu sempre tive esta curiosidade: em que é que tu pensas durante um salto?

Evgenia Medvedeva - Em tudo! Passam milhares de pensamentos pela minha cabeça. Eu também consigo ver o que se passa à minha volta e tento controlar tudo.

EV - Já falaste com o Orser sobre os novos programas?

Evgenia Medvedeva - Não. Em primeiro lugar eu quero ouvir pontos de vista diferentes. Não apenas do Brian mas também da Tracy e do David Wilson que vão coreografar os meus programas.

EV - Tu conheces esses especialistas?

Evgenia Medvedeva - Eu conheço o David; a Tracy nem por isso. É engraçado mas eu conheço melhor os seus atletas - Hanyu, Fernandez e Brown.

EV - O que é que tu queres?

Evgenia Medvedeva - Falando na temporada em geral, eu planeio não falhar competições. Patinar nos testes, nas provas do circuito do grande prémio. Eu gostaria de mudar o meu estilo. Em primeiro lugar, eu mudei e penso que não posso continuar a mesma no gelo. Eu estou a levar o mundo e a vida de forma diferente. Tenho a certeza que quando chegar ao Canadá as coisas na minha cabeça vão ficar viradas do avesso. Eu quero experimentar algo novo no gelo. Há tantas personagens que eu nunca patinei, que nem sequer tentei. 

EV - Qual é o conteúdo de saltos que tu queres?

Evgenia Medvedeva - Eu tenho algumas ideias mas é prematuro anunciá-las.

EV - Tu deves estar radiante com a mudança na regra que veio limitar o número de saltos na segunda metade do programa. 

Evgenia Medevedeva - Essas mudanças constroem a base para o trabalho no futuro. Se nos fosse dito que tínhamos de colocar todos os saltos na segunda metade, eu calava a boca e faria isso.

EV - Tu gostaste sempre dos programas que patinaste?

Evgenia Medvedeva - Eu amei o meu primeiro programa livre sénior onde interpretei uma menina surda. Eu adorei "Karenina". Por outro lado, no início eu não gostei do programa com que venci os meus segundos mundiais. Só mais para o fim é que eu encontrei o seu sabor. Eu patinei-o, bati o recorde mundial e adorei-o por me ter permitido alcançar os meus objectivos. Em contrapartida, "Karenina" deixa-me louca. Especialmente depois de "January Stars" onde apenas o vestido era adorável. Eu estava toda no programa "Karenina".

Nota: "January Stars" foi o primeiro programa livre feito para Evgenia na temporada 2017/2018. Depois o programa livre foi alterado para "Anna Karenina"

EV - O treinador de Oksana Baiul (campeã olímpica em 1994) disse que se o patinador estiver a viver o personagem na entrada de um salto triplo, ele terminará esse salto no fundo das costas. Quanto é que te permites não pensar nos elementos enquanto patinas?

Evgenia Medvedeva - A "Karenina" permitiu-me isso. Quando eu estava a patinar nos Jogos Olímpicos, eu deixei o meu corpo fazer o seu trabalho e estava completamente no personagem. Eu nem sequer tentei imaginar, eu simplesmente patinei o programa livre como nos treinos. Eu tinha esta liberdade interior sensacional. Se tu soubesses o que passou pela minha cabeça quando eu comecei a sequência de passos!



EV - O quê?

Evgenia Medvedeva - Eu estava a patinar e a perguntar a mim mesma "tu percebes que são os Jogos Olímpicos? Percebes que milhões ou milhares de pessoas estão a ver-te? Compreende que se fizeres um pequeno erro tudo estará perdido?" e eu respondi "Percebi! Excelente? Excelente! Vamos nos divertir!". Não houve estresse. 

EV - Tu pensas no porquê das campeãs olímpicas, com poucas excepções, nunca conseguirem chegar aos Jogos Olímpicos seguintes? Por que é que a Baiul, a Lipinski e a Sotnikova não ficaram?

Evgenia Medvedeva -  Penso que tem a ver com o medo de perder o que se ganhou durante todos esses anos. A vontade de patinar continua lá, penso eu, sempre, mas no momento em que a pessoa tem a oportunidade de tentar outra vida isso absorve-te. Muita gente não entende que o desporto e a vida normal nem sempre podem andar de mão dada.

EV - Eu conheci um lutador que se retirou depois de vencer os Jogos Olímpicos com 23 anos, dizendo "Eu não quero que a vida passe por mim enquanto eu treino". Um sentimento familiar?

Evgenia Medvedeva - Não, nunca senti isso. Eu tive uma infância normal - eu brinquei com outras crianças, simplesmente no ginásio em vez de na rua, mas eu divertia-me. De momento não creio que a vida esteja a passar por mim. Eu terminei o ensino secundário e fui admitida na Universidade.

EV - Quando é que aprendeste inglês?

Evgenia Medvedeva - Eu realmente não aprendi. Simplesmente entendia. Não tinha outra hipótese.

EV - O que queres dizer com isso?

Evgenia Medvedeva - Só isso. Eu via os atletas estrangeiros da minha idade ou um pouco mais velhos a falar entre si em todas as competições e eu pensei: eu quero tanto falar com vocês, mas como? Tentei uma vez e depois outra vez. Eu aprendi três palavras numa viagem e depois mais cinco noutra viagem. Depois vi na internet como construir uma frase, aprendi mais palavras. Eu nem dei conta mas de repente eu fui capaz não apenas de conversar mas de dar entrevistas. Claro que eu cometo erros. Eu tropeço e uso a gramática errada. Mas compreendem-me. E eu compreendo as pessoas.

EV - Para ti é difícil admitir que não sabes alguma coisa?

Evgenia Medvedeva - Não de todo. Há tantas coisas que eu não sei e que eu não sei fazer. E eu não tenho vergonha de admitir isso. Porque é verdade.

EV - Quanto tempo aguentas sem patinagem artística até te sentires desconfortável?

Evgenia Medvedeva - Pouco. Muito pouco. Eu não consigo ficar parada - os meus músculos doem-me e sinto-me fisicamente desconfortável. Quando não patinas por muito tempo acontece o mesmo. Doem-me as pernas. A minha irritação - quando eu tenho uma folga e não há gelo, a minha cabeça dói-me imenso e quase me apetece meter dentro do frigorifico. Parece que há qualquer coisa no gelo que me faz falta. Além disso para mim é mentalmente difícil ficar parada.

EV - Quão rápido é que tu perdes as tuas habilidades quando não treinas?

Evgenia Medvedeva - Muito rápido. Deixas de sentir as arestas. Patinando e compreendo tu vais em piloto automático: sentar na aresta, deslizar - a cabeça compreende o que precisa ser feito mas as pernas vão para os lados. É como se o contacto entre o cérebro e as pernas se perdesse um pouco. Tu queres uma coisa e vais parar a outro lado. As minhas quedas mais estúpidas foram por causa disso. As marcas nos joelhos e nos cotovelos… 

EV - Voltando à tua partida para o Canadá: tu deves ter pensado em como a tua nova vida vai ficar encarecida.

Evgenia Medvedeva - Essa preocupação foi essencialmente da minha mãe. Foi a função dela perceber se estávamos prontas.

EV - E quando a tua mãe disse que estavam prontas…

Evgenia Medvedeva - Eu percebi que tinha de agarrar nos meus patins e partir para o Canadá.

EV - Alguém tentou demover-te dessa decisão?

Evgenia Medvedeva - Francamente? Ninguém

E pronto… Assim terminou a entrevista de Evgenia. O que acharam das palavras de Evgenia?

Se gostarem deste tipo de conteúdos avisem-me por aqui ou através do Facebook ou Twitter. 

Até à próxima



sexta-feira, 27 de maio de 2016

Tradução de entrevista do par Ilinykh & Zhiganshin

A revista russa FSRussia conduziu recentemente uma entrevista com o par Elena Ilinykh & Ruslan Zhiganshin. A entrevista foi feita em Moscovo durante uma breve visita dos patinadores a essa cidade para a realização de testes médicos. Elena e Ruslan mudaram de treinador ainda durante a temporada 2015/2016. Eles deixaram o grupo de Elena Kustarova e são actualmente orientados por Igor Shpilband nos Estados Unidos.
O link original é este: http://www.fsrussia.ru/intervyu/2165-elena-ilinykh-ruslan-zhiganshin-v-iyune-my-otpravimsya-v-madrid-k-antonio-nakharro.html (contem fotos do par)

O par russo Elena Ilinykh & Ruslan Zhiganshin

Em baixo podem ler a tradução dessa entrevista de russo para PT-PT.

TRADUÇÃO

P - O vosso actual treinador Igor Shpilband já disse que vocês vão continuar a trabalhar com ele. Por que é que vocês decidiram ficar nos Estados Unidos?

Elena - A decisão foi tomada em conjunto com o nosso patrocinador. Nós decidimos ficar e tentar evoluir através de um novo sistema.

P - Teve a ver com o facto de vocês serem a melhor parceria em Moscovo no vosso grupo enquanto que nos Estados Unidos vocês vão patinar ao lado dos vossos experientes rivais estrangeiros?
Ruslan - Não, isso não pesou na decisão. No entanto, claro que nós vamos ter ganhos de ter bons parceiros de luta.

Elena e Ruslan

P - Em que medida os treinos no grupo de Shpilband são diferentes?
Elena - É um sistema diferente, uma abordagem diferente. Não se pode comparar o sistema dos Estados Unidos com o da Rússia. São diferentes mas os dois permitem alcançar os resultados mais altos.

P - Para além do Igor, quem é que trabalha na vossa equipa?
Ruslan - Todos os especialistas - toda a equipa que está em Novi. Para além do Igor, nós trabalhamos muito com o patinador francês Fabian Bourzat.

P - Onde é que vocês vivem?
Elena - A dez minutos do rinque; nós arrendámos apartamentos pequenos. O mais importante é ter uma cama apropriada para dormirmos o suficiente e descansarmos depois do treino até à manhã seguinte.
                         Elena Ilinykh & Ruslan Zhiganshin durante uma gala de exibição

P - Vocês já têm ideias para os programas novos, vão continuar a trabalhar com António Najarro que criou os vossos coloridos programas nas duas últimas temporadas?
Elena - Os esqueletos dos programas estão feitos, a música está escolhida e os elementos estão incluídos. Antes de viajarmos para Moscovo nós patinámos a dança curta duas vezes. No dia 5 de Junho nós vamos voar para Madrid para trabalharmos uma semana com António Najarro. Daí nós vamos regressar aos Estados Unidos onde temos um calendário muito rigoroso à nossa espera. 

P - O que é que sucedeu na temporada passada e como é que tu a avalias?
Ruslan - Eu não quero avaliá-la. Nós não queremos olhar para trás. Nós precisamos de olhar para a frente. Nós sabemos o que é que temos de trabalhar e temos um plano. 

P - O que é que querem mudar na vossa patinagem e talvez em vocês próprios?
Elena - Nós patinamos juntos apenas há dois anos. Seria errado falar de mudanças. Nós apenas teremos de progredir, desenvolver, fazer as coisas mais depressa. Nós precisamos de ser confiáveis e consistentes e mesmo assim não perder as nossas personalidades. 

Elena e Ruslan patinam juntos à cerca de duas temporadas

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Tradução de entrevista com Maxim Trankov

Tradução de entrevista com Maxim Trankov


O patinador russo Maxim Trankov, que forma parceria no gelo com a sua esposa Tatiana Volosozhar, respondeu a várias perguntas durante uma conferência de imprensa realizada em Bratislava (Eslováquia), a propósito dos campeonatos da Europa de patinagem artística que decorreram em Janeiro de 2016.

Maxim Trankov

Podem conferir a tradução em baixo.

Pergunta (P) - Maxim, vencer os Jogos Olímpicos significa que todas as prestações que fizerem passam a ser comparadas com a dessa prova. O que é que tu achas disso?
Maxim - Nós ficamos chateados connosco pelos erros que cometemos nas competições. Depois sentamos-nos, assistimos às nossas prestações passadas e verificamos que nós só patinámos sem erros nos mundiais e na temporada olímpica. Quer dizer as restantes competições são como uma preparação para as principais. Nós temos de levar as coisas com calma. Não se pode ganhar sempre nem estar sempre a bater recordes. Eu sei que vai haver quem comece a discutir com alegria que isto são só os campeonatos da Europa onde este ou aquele par não participaram. Eu só posso repetir aqui o que referi na zona mista (de imprensa): nós fizemos o mínimo necessário para vencer a competição em Bratislava. Nós temos experiência suficiente para saber quando temos de guardar energias. E quanto despendê-las. Nós sabemos como treinar para apresentar resultados. A única coisa que pode correr mal é com problemas de saúde. 

P - Para muitos fãs esta competição é a primeira, e principalmente a competição, onde Volosozhar & Trankov competiram com Aliona Savchenko outra vez. Isto significa alguma coisa para ti?
Maxim - Nada. Nós somos os nossos principais adversários. Não não estávamos mesmo a competir contra eles nos Jogos Olímpicos. Toda esta conversa sobre rivalidades é criada pelos jornalistas. De que rivalidade é que estás a falar quando nós tivemos erros no nosso programa e ganhámos-lhes por 20 pontos?

P - Mas se estes dois pares não tivessem participado os campeonatos em Bratislava teriam sido muito diferentes.
Maxim - Com o rumo que as coisas estão a tomar na categoria de pares em breve só haverá 5 a 7 pares na Europa. 

P - Porquê?
Maxim - Porque as pessoas andam a matar-se ao caírem em saltos lançados quádruplos. Quando é que alguma vez aconteceu pares no último grupo falharem as suas figuras de elevação? Isto deve querer dizer alguma coisa.


P - Quer tu queiras quer não, este desporto está a evoluir nesse rumo.
Maxim - Pode ser diferente. Olhem para o que a Aliona e o Bruno estão a fazer. O seu twist e as suas figuras de elevação são fantásticas. A isso é que eu chamo patinagem de pares, com a qual maus quádruplos são incomparáveis. Olhem só para as raparigas que fazem esses saltos lançados - estamos a falar sobre a beleza da patinagem? Isto está a ficar parecido com ginástica. Eu penso que alguém tem de escrever ao Cinquanta (presidente da ISU). Só nesta temporada já perdemos 5 pares. 

P - E por que não tu e a Tatiana, actualmente o par com mais palmarés.
Maxim - Nós não andamos a matar-nos com saltos lançados. Nós experimentámos o quádruplo twist e o quádruplo loop lançado, causando a minha lesão no ombro e as lesões de Tatiana no tendão de Aquiles e no calcanhar. Perdemos metade de uma temporada graças a isso. Só na nossa equipa estamos a lidar com quatro problemas de lesões - 2 da Natalia Zabijako, uma delas grave, e duas de Stolbova & Klimov. O par chinês que queria lutar pelo ouro na final do circuito do Grande Prémio lesionaram-se nos saltos lançados e e nem sequer aguentaram a competição. A patinadora tem uma lesão grave no calcanhar. Uma patinadora americana teve de se retirar da patinagem depois de uma queda. Yuko Kavaguti? A chinesa Peng Cheng que se andava a matar em duas competições consecutivas e que competiu na Taça da Rússia com uma enorme marca roxa na cara. Por que é que não tentam antes complicar os saltos lado-a-lado? O triplo toe loop e o triplo salchow já eram feitos há trinta anos atrás por Valova & Vasiliev. Por que não as figuras de elevação? Talvez o quádruplo twist pois o patinador tem o controlo absoluto da situação mas se a patinagem artística continuar a seguir neste rumo podemos ir por caminhos separados. Para quê? Especialmente quando já temos todos os títulos possíveis. 

P - Quando já tens todos os títulos e tudo - incluindo uma vida familiar feliz - o que é que te mantém motivado para continuar a patinar?
Maxim - Eu acho que temos uma dívida para com o nosso país que tanto investiu em nós antes dos Jogos Olímpicos de Sochi. Além disso, abandonar agora seria errado - imagina que nós não tínhamos competido neste Europeus, patinadores de outro país iriam vencer o título - a Rússia perderia uma posição de liderança na disciplina de pares. Claro que nós estamos em perda. Com o actual estado da nossa moeda, nós poderíamos estar a ganhar dinheiro fazendo espectáculos no estrangeiro e a ter uma boa vida na Rússia. 

P - Podem tentar conciliar as coisas
Maxim - Isso é muito complicado. Se estás a ser sério nos treinos tens de abdicar de muita coisa.


P - Quando tomaram a decisão de continuar a competir houve algumas ocasiões em que tu e a Tatiana discordaram neste assunto?
Maxim - Francamente, eu estava menos entusiasmado em continuar do que a Tatiana. Ainda não compreendi por que é que eu continuo a patinar. Tenho sentimentos contraditórios: por um lado somos casados e deveríamos estar a constituir família mas e se a Tatiana quer continuar a patinar? Por outro lado já temos um plano para a Tatiana e eu vamos fazer quando nos retirarmos. 

P - Espero que não estejas a sonhar com uma carreira como treinador?
Maxim - Sonhar não mas provavelmente vai ser o que eu vou fazer. Apesar de poder não ser o principal. Eu prefiro muito mais o trabalho em televisão. (Nota: Maxim tem trabalhado como comentador desportivo na televisão russa em várias ocasiões).

P - Quão importante é esta vitória em Bratislava?
Maxim - É significativa. Ao fim ao cabo a época não foi fácil. Como os Europeus eram o nosso objectivo principal estamos satisfeitos. É só que o estado de espírito no nosso grupo não era o melhor por causa de todas as lesões no final do ano e nós, enquanto líderes do grupo, tivemos de puxar por toda a gente e arrastá-los. É difícil, é cansativo. Às vezes nós queremos alguém para nos motivar a nós. 


P - Quais são as possibilidades de te ver a ti e à Tatiana nos mundiais?
Maxim - Eu não disse que não íamos. 

P - No entanto não estás a excluir essa possibilidade?
Maxim - É muito prematuro. Depois dos Europeus nós vamos participar num espectáculo na Suíça, vamos trabalhar com diversos especialistas e depois vamos ver como nos sentimos, como é que a minha lesão nas costas estará e qual é a situação geral na categoria de pares.

P - Isso irá de alguma maneira depender da decisão de Stolbova & Klimov participarem nos mundiais?
Maxim - Stolbova & Klimov estão a planear estar lá a 100%. A Ksenia é uma lutadora: se ela disse que vai fazer um salto quádruplo lançado - é porque vai conseguir. Com esse elemento tudo pode acontecer. Deus nos livre que aconteça uma situação em que nós tenhamos de participar - o mundo vai dar voltas - mas patinaremos. Nem que tenhamos de patinar depois de levar injecções. (Nota: Maxim estava a referir-se a injecções legalmente permitidas quando um patinador precisa de aliviar as dores provocadas por uma lesão comprovada e não quer desistir da prova). 

domingo, 16 de agosto de 2015

Tradução de entrevista de Ilinykh & Zhiganshin

O par Elena Ilinykh & Ruslan Zhiganshin concedeu uma entrevista à prestigiada jornalista Elena Vaitsekhovskaya. Nessa entrevista eles falaram dos novos programas para a temporada 2015/2016. Eu arrisquei-me a fazer a tradução do conteúdo para português e espero que gostem. 
A entrevista foi publicada neste link http://www.sport-express.ru/figure-skating/reviews/907372/
Não se esqueçam de clicar nesse link para ver as fotos de Elena e Ruslan Zhiganshin. 

Elena Ilinykh & Ruslan Zhiganshin
TRADUÇÃO DE ENTREVISTA DE ELENA ILINYKH E RUSLAN ZHIGANSHIN

Pergunta (P) - No meio da temporada passada tu disseste-me o que querias fazer durante este Verão e que tinhas muitos planos. O que é que conseguiste fazer?
Elena - Nós queríamos fazer muitas coisas. Ir para os Estados Unidos e dançar na Broadway e experimentar coisas novas que podiam ser boas para nós. Mas assim que começámos a treinar descobrimos que algumas das viagens que tínhamos planeado fazer se tornaram desnecessárias. Por exemplo, nós pensávamos que tínhamos de ir a Espanha para poder trabalhar com António Najarro mas ele teve tempo para vir ter connosco. Quanto a Oleg Ushakov, que trabalha connosco no que respeita às figuras de elevação, no meio da temporada passada nós fizemos planos para ir ter com ele porque ele teve problemas em obter a documentação para vir à Rússia. Nós presumimos que teríamos de ir ter com ele aos Estados Unidos, onde ele reside, para trabalhar nas figuras de elevação mas os problemas foram solucionados portanto tudo o que precisávamos fazer fora acabou por ser feito na Letónia e na Rússia. 

P - Quais foram os teus sentimentos no final da temporada passada?
Elena - Quando nós patinámos a nossa dança livre pela última vez no Japão, o único sentimento era de cansaço. E alívio de não termos de patinar novamente essa dança. Desde Janeiro que as nossas cabeças já estavam a pensar na dança nova. Eu estava a "vivê-la". Até pensei em falar com as treinadoras para mudar a dança livre durante a temporada. Sabes, quando nós começámos a trabalhar nessa dança livre (aqui ela está a referir-se à dança livre 2014/2015) nós ainda estávamos muito limitados nas nossas capacidades. Nós queríamos muito mais. Para mim é importante patinar um programa que me arrebate emocionalmente. "Frida" é um programa assim. Eu gosto do herói principal. Há cerca de 3 anos eu vi o filme e pensei que adoraria dançar isto - a música emocionou-me até às lágrimas. Por diversas razões não usámos essa música (Penso que ela se está a referir ainda aos tempos em que patinava com Nikita Katsalapov). No Inverno passado, quando começámos a falar com os treinadores sobre os nossos programas futuros, eu sugeri "Frida" mesmo sem esperar que apoiassem a escolha. No entanto todos apoiaram. Claro que o meu maior medo é que "Frida" possa ser vista como uma repetição de "Carmen". 

P - Esse medo não é só teu. Outra vez Najarro, outra vez um tema espanhol...
Elena - Quando nós começámos a trabalhar eu tive mais uma prova de que António Najarro é o "meu" coreógrafo. Ele sente-me a 100%. Nós não discutimos, nós nos entendemos completamente. O trabalho flui de maneira diferente: a coreografia no chão faz-se rapidamente, transformá-la para o gelo é fácil. É raro. Nós enviámos a música para Najarro com antecedência. Eu sabia que ele gostou a mixagem da música que nós fizemos. Eu até pensei que podia imaginar como é que a coreografia ia ser. Quando o António chegou e criou a pose inicial eu senti arrepios. Foi exactamente como eu tinha imaginado. Mesmo os gestos mais pequenos. É como se eu tivesse esses gestos dentro de mim toda a minha vida. 

P - Esta dança livre é muito mais complexa do que a da temporada anterior. Quão difícil foi trabalhar na nova personagem e nos elementos ao mesmo tempo?
Elena - Quando tu gostas do programa parece que ele te leva - independentemente do teu estado de espírito. Isso aconteceu com "Carmen". Antes dos campeonatos da Europa eu sofri uma intoxicação e não consegui dormir nada na noite antes da dança curta. Eu arrastei-me da cama e fui para a pista e a sessão de treinos matinal foi um desastre. Quando chegou a altura de competir eu ouvi a música e tudo desapareceu, incluindo eu quase a desmaiar. Agora é a mesma coisa. Claro que é difícil controlar todos os elementos enquanto a dança ainda não está terminada mas nós adorámos trabalhar neste programa.

P - Tu disseste que Najarro é o teu coreógrafo. Isso significa que de agora em diante ele fará todos os vossos programas?
Elena - Claro que não. A treinadora Elena Kustarova trabalha muito connosco. A dança curta foi feita pelo Alexei Arapov - que é um grande especialista em danças de salão contemporâneas e que foi da Letónia para Moscovo para trabalhar na valsa connosco durante 3 dias. Foi muito interessante. Não é uma tarefa fácil combinar coreografia contemporânea com valsa e depois transportar isso para o gelo. Nesse aspecto a dança curta foi muito mais difícil do que a dança livre. 

P - Na temporada passada, quando começaste a trabalhar com Ruslan, notava-se que vocês se estavam a tentar ajustar-se um ao outro, a agradar um ao outro. Suponho que agora vocês estão mais acostumados um ao outro e que o sentimento de novidade desapareceu. Já se tornou mais fácil? Ou o vosso trabalho já é mais como uma rotina?
Elena - Não posso dizer que nós tivéssemos tentado muito agradar um ao outro. Eu penso que ambos percebemos que queríamos que o público gostasse de nós. E não tivemos muito tempo para isso. Nós trabalhámos o mais que pudemos em todos os treinos. Quando estávamos a coreografar os programas nós não estávamos a pensar sobre o que podíamos fazer mas sim sobre o que tínhamos que fazer se queríamos tentar algo. Quanto ao Ruslan ele melhorou imenso nesse ano como parceiro e como artista. 
Actualmente é mais fácil trabalhar. Nós compreendemos que no ano passado nos perdoaram alguns erros mas isso não vai acontecer agora. Nós sabemos exactamente o que temos de fazer, como fazê-lo e, mais importante, nós estamos totalmente envolvidos nesse processo. O principal ainda é o treino. As nossas treinadoras e os nossos coreógrafos fizeram um enorme trabalho com os programas e com os elementos. Eu e o Ruslan agora temos de patinar esses programas. 

Elena Ilinykh & Ruslan Zhiganshin


P - Ruslan, podes comparar o ano passado com este ano? O que mudou?
Ruslan - Eu penso que até sabes melhor. O ano passado foi recheado de nervos. Relembrando a nossa primeira competição na China, nós não fazíamos ideia de como seríamos recebidos e, por isso, estávamos muito nervosos. Agora é um pouco mais fácil. 

P - A Elena chamou a Najarro o "seu" coreógrafo mas olhando ao teu trabalho com o espanhol no ano passado, eu diria que tu também ganhaste muito.
Ruslan - Eu concordo com a Elena pois trabalhar com o Najarro é muito confortável. Tu não precisas de estar a pensar como combinar os braços com as pernas: o António oferece uma interpretação em que tudo resulta. Eu costumava pensar que a especialidade dele eram as danças espanholas mas uma vez ele pediu-nos para lhe mostrarmos a dança curta e imediatamente ofereceu-se para mudar alguns movimentos que alteraram o programa. 

P - As escolhas musicais para a dança curta e para a dança livre foram boas para ti?
Ruslan - Eu fiquei positivamente surpreendido com as treinadoras por terem dado o seu OK. No passado elas preferiam clássicos. 

P - No meio da temporada passada pareceu que tu e a Elena tinham perdido o fôlego.
Ruslan - Em que ponto?

P - Depois dos campeonatos nacionais em Dezembro. Por que é que estás a sorrir?
Ruslan - Sabes, nós sentimos isso no início de Dezembro, depois em Janeiro, depois em Março. Depois de cada competição, nós tínhamos de fazer mais para melhorar os programas e realmente perdemos o fôlego. Nós queríamos ter um intervalo, respirar, descansar mas em vez disso nós tivemos de trabalhar, trabalhar e trabalhar.

P - Lembras-te do que sentiste no Japão quando a época finalmente terminou?
Ruslan - Sim. Em sei como colocá-lo em palavras. Eu penso que fiquei feliz que tivesse terminado mas já nem tinha sentimentos. Nem mesmo alívio. Eu fiquei sentado no vestiário durante 15 ou 20 minutos a pensar que deveria descalçar os patins mas nem tinha energia para isso. Ao mesmo tempo estava radiante por ter tido a possibilidade de competir ali. Foi a segunda vez que a Elena esteve numa competição por equipas mas foi a primeira vez para mim e adorei. Consegue-se sentir o espírito de equipa nessa prova. Antes da competição nós estávamos todos a pensar "meh, a temporada terminou, pode-se patinar qualquer coisa" mas assim que a competição começou nós todos demos o que tínhamos. Ninguém ousou deixar os outros ficarem mal. Não outra competição em que os patinadores se apoiem tanto uns aos outros. 

Nota: Esta resposta é uma referência ao World Team Trophy que é uma competição por equipas. Ou seja, os patinadores estão em representação do grupo e não só de si próprios.

P - As sessões de treino com público são cada vez mais populares. Estás preparado para ter jornalistas e fãs a ver os treinos e a colocarem as fotos e os vídeos na internet logo de seguida?
Ruslan - Honestamente eu ainda não quero mostrar nada. Brevemente estaremos na semana de testes. Vejam-nos lá.


Nota: A semana de testes é um evento que decorre na Rússia onde os patinadores vão apresentar os seus programas novos perante especialistas da federação que fazer uma avaliação de qualidade e também fazem sugestões.

P - Elena, a ideia para a dança curta também é tua, certo?
Elena - A canção "Something to Love" dos Queen estava no meu leitor de mp3 e eu ouvi-a várias vezes quando estávamos a fazer o aquecimento. Uma vez estava a conduzir e comecei a ouvir o ritmo percebendo que era uma valsa. Comecei a pensar sobre que marcha podia combinar com ela e lembrei-me da música "We will rock you". Quando regressarmos do World Team Trophy no Japão eu apresentei a ideia à Elena Kustarova cautelosamente. Ela surpreendeu-me com "Queen? Freddy Mercury? Eu adoro-o. Vai ser muito fixe". E claro que eu também odiei a ideia de ir para o gelo usando um vestido de valsa e fazendo aqueles tolos movimentos de braços da valsa como é costume ser feito. Eu costumava associar a valsa a "sorrir e acenar". Não é o meu tipo de dança preferido. Mas desta vez o programa é muito interessante e fora do vulgar. E esperem só para ver como o Ruslan vai aparecer! 


P - Viste o programa "Dança com as Estrelas" onde Adelina Sotnikova participou?
Elena - Sim

P - Imaginas-te a participar nesse programa?
Elena - Se eu me tornar campeã olímpica por que não?

P - Não era isso a que me estava a referir. Eu refiro-me à possibilidade de experimentares dançar estilos diferentes.
Elena - Geralmente eu adoro dançar. Eu adorei frequentar a escola de dança da Broadway quando estivemos a trabalhar nos Estados Unidos. Agora frequento a escola de dança contemporânea em Moscovo. Isso ajuda-me a desenvolver e a libertar-me de toda a energia negativa acumulada durante o trabalho árduo nos treinos. 

P - Tu discutes com o Ruslan durante os treinos?
Elena - É impossível discutir com ele. Primeiro porque ele faz sempre tudo bem. Segundo porque ele me apoia aconteça o que acontecer e consegue acalmar-me. Portanto sinto-me muito estúpida se tiver algum ataque de fúria. Então eu penso: tenho este parceiro maravilhoso por que raio estou a gritar? 

P - Quando tudo corre mal, quando te sentes em baixo e queres alguém que seja agradável contigo e te acalme, vais ter com as treinadoras, a tua mãe ou o Ruslan?
Elena - Com o Ruslan é claro.

P - Quando começaram a patinar juntos, imaginavas que o público ia gostar tanto de vocês?
Elena - Honestamente ainda nem acredito. Nunca tinha recebido tantos presentes na minha vida. As fotos, os livros, decorações de Natal com as nossas imagens. Nós até recebemos um certificado de iniciação - chama-se Ruslena! Nós temos fãs extraordinários. Os melhores do mundo!

P - Deixa-me fazer-te a mesma pergunta que fiz ao Ruslan: estás pronta para mostrar os programas como eles estão agora?
Elena - Digo que não. Uma coisa é querer mostrar os programas ou ouvir o ponto de vista de alguém. Mas mudar o nosso plano de treinos só para satisfazer a curiosidade de alguém - Para quê? Nós temos trabalho a fazer.

P - Gostarias de saber o que é que os teus rivais vão patinar?
Elena - Não. O que é que isso interessa? O resultado depende da forma como eu o Ruslan vamos patinar. 


P - E se mais alguém usar o tema "Frida"?
Elena - Então que façam a sua própria interpretação. Não há ninguém que possa tirar a minha "Frida" de mim! 

Elena Ilinykh & Ruslan Zhiganshin